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‘Assim Vai o Mundo’, belo e terrível, no Museu da Marioneta

A mais recente produção da Universo Paralelo convida-nos a encontrar esperança num lugar onde pode ser difícil viver. Falámos com a directora artística e actriz Adriana Melo.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Assim Vai o Mundo
Grafonola | ‘Assim Vai o Mundo’, de Adriana Melo/Universo Paralelo
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Não é a primeira vez que um espectáculo da Universo Paralelo nos confronta com tanta beleza e tanta destruição ao mesmo tempo. Mas em Jacarandá, esse contraste era um alerta. Agora é um desafio: encontrar o belo, o que nos dá esperança, onde ela escasseia. Com direcção artística e interpretação de Adriana Melo, Assim Vai o Mundo é o segundo solo intimista e sem palavras da companhia, que regressa também às formas animadas e ao Museu de Marionetas. A estreia para as famílias acontece a 9 de Maio.

Num mundo marcado por injustiças, haverá momentos, objectos, a que nos agarrar? É a questão a que se procura responder em palco, com uma reflexão sensorial sobre a condição humana e os laços que nos unem. “Queríamos encontrar os pormenores, os sopros de vida, que nos fazem querer viver e ser felizes, mesmo perante cenários mais violentos e difíceis de encarar”, diz-nos a encenadora. “A ideia é que seja uma viagem pelo mundo e por diferentes problemáticas, como a emergência climática, que por acaso evoca o espectáculo anterior.”

A natureza é, claro, uma dessas possíveis tábuas de salvação. Não só pelos motivos mais óbvios – é ela que nos fornece água, purifica o ar e poliniza os alimentos, por exemplo –, mas também de um ponto de vista estético, de contemplação, por vezes também interior. A questão do íntimo não é, aliás, de somenos importância. A protagonista, uma mulher grávida, sonha com a criança que está a gerar, e com a oportunidade de a ver crescer cá fora. “O bebé, apesar de ainda não ter nascido, de ainda estar na imaginação, já transformou o mundo, já o tornou melhor.”

Assim Vai o Mundo
Grafonola

Em palco, fala-se ainda de solidão, guerras e a ascensão da extrema direita, mas o que sobressai são as paisagens, a música, a alegria – tudo aquilo que faz o grotesco insignificante, pelo menos enquanto o amanhã vier. O mérito é também da direcção plástica, construção de marionetas e cenografia de Marta Guerreiro, dos figurinos de Icaro Alves, da música e direcção musical de Duda ♧ Somtopia e do desenho de luz de Pedro Guimarães, que nos submergem num outro universo, num outro espaço que não este a partir do qual assistimos.

A linguagem, visual e sonora, é poética, mas também universal. “As crianças são muito inteligentes. Pensamos que não, ou também queremos pensar que não, porque queremos preservar-lhes a inocência, e isso é bonito, mas as crianças apercebem-se e sabem que existem refugiados, que existe guerra, e portanto colocamos essas questões em cima da mesa, não as romantizando”, explica Adriana Melo. “Nós tomamos banho no mesmo mar em que morrem pessoas, e isso tira-nos o ar, mas a água é uma coisa bonita, que nos sustenta, e os mais pequenos também percebem isso, esse binómio.”

Assim Vai o Mundo
Grafonola

Se por um lado há imagens e sons muito claros – um feto a crescer dentro de uma barriga, bombardeios algures –, que reconhecemos quase de imediato, ou com pouco esforço; por outro, Adriana confessa ter procurado arriscar com “coisas que só se vão percebendo ao longo do espectáculo, cujas ligações são mais abstractas”. “Mas penso que também é isso que o torna mágico e ambíguo. Se fosse tudo concreto, não dava azo a interpretação”, justifica, crente de que é uma proposta bem-sucedida, verdadeiramente imersiva, mesmo que muda. 

“É verdade que, com as tecnologias, a capacidade de concentração das crianças está a diminuir, mas eu acredito que se as chamarmos à atenção, se for imersivo o suficiente, se for mágico, sensorial, elas conseguem estar connosco. Daí a parte plástica dos nossos espectáculos ser tão apurada, e a meu ver tão cativante”, diz Adriana, antes de destacar a forma como o cenário se vai revelando. “E a música também é muito dinâmica, com muitos instrumentos musicais diferentes e coros de mulheres, que me emocionam muito e fazem companhia.”

Assim Vai o Mundo
Grafonola

No fundo, este solo é também um tributo à mulher e à sua capacidade de gerar vida, e de cuidar dela. Adriana espera que isso se sinta, até porque este projecto já está em andamento desde Julho do ano passado, portanto há mais de nove meses, uma gestação inteira. “A nível técnico é mesmo muito desafiante. É um salto de fé para o abismo. É daqueles espectáculos que tem tudo para correr mal, mas nunca corre, porque está tudo muito bem estudado e delineado”, assegura, entre risos, ansiosa por estrear.

Criado para todos os públicos a partir dos seis anos, com uma duração de 55 minutos, Assim Vai o Mundo está em cena de 7 a 10 de Maio – para escolas nos dois primeiros dias, às 10.30; para as famílias no fim-de-semana, sábado às 16.00 e domingo às 11.30 e às 16.00. Os bilhetes custam 3,75€ e 7,50€. Mas, se não tiver disponibilidade nas datas já anunciadas, nada tema: o objectivo é ir em digressão. “Monta-se muito facilmente, o que permite a circulação, inclusive internacional”, antecipa Adriana, que está a “precisar de público”. “Acredito que um espectáculo só nasce quando começa a ter reacções, em que já não é meu, é vosso.”

Rua da Esperança, 146 (Madragoa). 9-10 Mai, Sáb 16.00, Dom 11.30/ 16.00. 3,75€-7,50€

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