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Atravessei a pé o “Parque Jurássico” da Europa. Foi mágico, mesmo à chuva

O trilho GR-131 atravessa as sete ilhas das Canárias, mas os 50 quilómetros em La Gomera, de natureza intocada, são um verdadeiro retrato da vida local.

Hebe Johnson
Escrito por
Hebe Johnson
Contributor, Time Out Travel
A hiker looks out over a landscape in La Gomera
Photograph: FIN GROVER
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Embora a fama das Canárias como destino de sol de Inverno venha de longe, há um outro lado para explorar neste arquipélago espanhol: um mundo de trilhos de caminhada incríveis, que cruzam paisagens vulcânicas e florestas subtropicais de nevoeiro.

O grande protagonista desses trilhos é o GR-131. O Gran Recorrido, ou “grande percurso”, é uma rota de 560 quilómetros que atravessa as sete ilhas, e eu estou a percorrer um troço em La Gomera, uma das menos visitadas (e injustamente subvalorizadas).

Temos apenas cinco dias, por isso o plano é intenso. Num dia, vamos caminhar 25 quilómetros desde a cidade portuária de San Sebastián até Chipude; noutro, 15 quilómetros entre Chipude e Vallehermoso. No último dia completo, fazemos um percurso entre Vallehermoso e a praia, já em parte do GR-132, que contorna a ilha em vez de a atravessar. Os outros dois dias são de viagem.

A lush ravine on La Gomera, Canary Islands
Fotografia: Fin Grover

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Mas há um contratempo. De madrugada, pouco antes de começarmos, acordo com uma gastroenterite. Consigo dormir algumas horas e recuperar do pior, mas já é tarde para arrancar. Com pena minha, apanhamos o autocarro até Chipude.

Misty lanscape in La Gomera showing a road cutting through hills
Fotografia: Fin Grover

Ainda assim, a frustração dissipa-se enquanto vemos a paisagem mudar à medida que subimos pelas montanhas. E a viagem de 45 minutos dá-me tempo para recuperar alguma energia, por isso, mal chegamos e deixamos as malas no único hotel da vila, o Sonia, saímos logo.

Escolhemos um percurso circular de 15 quilómetros, que passa pelo Parque Nacional de Garajonay e chega ao Alto de Garajonay, o ponto mais alto da ilha.

Garajonay National Park sign on La Gomera
Fotografia: Fin Grover

As casas e as estradas desaparecem rapidamente, dando lugar a paisagens ondulantes: montanhas e vales que criam microclimas, onde em minutos se passa de céu azul e sol para um nevoeiro denso que envolve o trilho. A única companhia é um gato ruivo, que caminha connosco durante 20 minutos, saltando entre rochas e esperando por nós enquanto avançamos com menos elegância.

Depois de quatro horas a andar e de um duche quente, jantamos cedo no restaurante do hotel. Sonia, que gere o espaço, pode ser uma mulher pequena mas é incansável, e está sempre com um sorriso. Comemos sopa e pão, batatas das Canárias com mojo (molhos de ervas, óleo e especiarias) e um prato generoso de massa. As sobras ficam guardadas em caixas para o almoço do dia seguinte, e adormecemos embalados pelos hidratos.

Landscape in La Gomera
Fotografia: Fin Grover

No dia seguinte, fazemos o percurso entre Chipude e Vallehermoso. Apesar do clima subtropical das Canárias, que costuma garantir boas condições durante todo o ano, o tempo não ajuda. Está muito húmido e surpreendentemente frio, mas acaba por ser uma bênção disfarçada. As subidas e descidas íngremes, combinadas com pedras escorregadias, obrigam-nos a abrandar e a absorver melhor a paisagem. A chuva leve intensifica tudo: os verdes ficam mais vivos e o ar húmido refresca-nos.

Laurel forest on La Gomera
Fotografia: Fin Grover
Laurel forest on La Gomera
Fotografia: Fin Grover

Grande parte do percurso atravessa florestas de loureiros, densas e húmidas, cobertas de musgo e líquenes. As copas das árvores protegem-nos da chuva, e fazemos uma pausa merecida para comer.

O trilho está muito bem assinalado: marcas vermelhas e brancas pintadas em árvores e rochas a cada 100 metros, e sinais a cada quilómetro indicam o que falta.

Weather-beaten signage on La Gomera hiking trail
Fotografia: Fin Grover

Antes da descida para Vallehermoso, percebe-se de onde vem o nome: casas coloridas agrupadas num vale verde, rodeadas por montanhas imponentes.

Vallehermoso, La Gomera
Fotografia: Fin Grover

No último dia de caminhada, fazemos um percurso circular de 17 quilómetros que coincide em parte com o GR-132, descendo até à praia e depois subindo novamente para a montanha, deixando o mar para trás.

La Gomera
Fotografia: Fin Grover

Depois de uma subida dura e interminável, entramos nas nuvens. O ar está saturado de humidade, criando um nevoeiro total. Com o solo de argila vermelha, parece outro planeta. Encontramos uma igreja e uma casa com um pequeno quintal cheio de galinhas, um galo e vários gatos.

Cat on La Gomera
Fotografia: Fin Grover

A última noite é dedicada à comida local. Apesar de seguirmos uma dieta plant-based, há muitas opções: pimentos padrón, dois tipos de cogumelos e muitas batatas fritas. Provamos escaldón de gofio e beringelas com mel de palma, tudo acompanhado por vinho tinto.

Palm trees on La Gomera
Fotografia: Fin Grover

La Gomera, conhecida como “Ilha Mágica” ou “Ilha Verde”, é uma das três Canárias menos exploradas, juntamente com La Graciosa e El Hierro. Apesar de ficar a uma curta viagem de ferry de Tenerife, a maior e mais turística ilha do arquipélago, mantém uma beleza selvagem e tranquila graças à ausência de voos internacionais directos.

Por isso, não há aqui hotéis gigantes nem praias saturadas. Há antes um paraíso para caminhantes: ravinas vulcânicas profundas, picos escarpados e alojamentos que vão de boutiques coloniais a bungalows.

Dicas para fazer o GR-131 em La Gomera

  • Reserve voo para Tenerife Sul;
  • Apanhe o ferry para San Sebastián com a Fred Olsen Express ou a Armas. Fica mais barato reservar com antecedência. Atenção: é preciso comprar bilhete de não residente nas Canárias.
  • As opções de alojamento são limitadas, já que a ilha não é muito turística. Para além do Hotel Sonia em Chipude, usamos o Booking.com para encontrar apartamentos em San Sebastián e Vallehermoso.
  • Leve roupa por camadas, incluindo impermeável. O tempo muda rápido. Mas leve apenas o essencial: cada par extra de meias pesa quando falta o ar.

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