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Nascido no YouTube em 2022 como uma série de curtas-metragens realizadas por Kane Parsons, o misterioso e arrepiante mundo paralelo das salas vazias a perder de vista chega agora ao cinema.

Clark (Chiwetel Ejiofor), o herói de Backrooms – O Labirinto, de Kane Parsons, não podia estar mais na mó de baixo. É um arquitecto frustrado que não arranja emprego na sua profissão e que abriu uma loja de móveis para conseguir pagar as contas. Só que os clientes escasseiam e Clark, que se separou da mulher e saiu de casa, ficou reduzido a viver na loja. Está também a consultar uma psicanalista, Mary (Renate Reinsve), mas as sessões que tem com ela não parecem dar resultados concretos. E como se tudo isto não fosse suficiente, a loja está com problemas eléctricos. As luzes apagam-se e acendem-se de repente, em especial à noite, quando Clark está a ver televisão, e o electricista não percebe onde está a avaria.
Um dia, Clark está na cave, junto ao quadro eléctrico, a tentar ver o que se passa com a iluminação da loja, que está de novo a falhar, quando, para seu enorme espanto, atravessa uma das paredes e vai dar ao que parece ser uma sala da loja ao lado da sua. Mas não é. Clark começa a explorar esse espaço e descobre que se trata de uma outra e muito estranha dimensão paralela à nossa, em que as salas se sucedem, umas vazias, outras com móveis ou outros objectos, outras ainda com escritos nas paredes. Clark não encontra ninguém, mas a certa altura dá-se conta de uma estranha e pouco nítida presença, que o enche de medo e o faz voltar à cave da sua loja, aterrorizado.
Clark vai logo contar a Mary que descobriu esta labiríntica e inquietante dimensão, mas ela não acredita, e julga que o estado mental do seu paciente piorou de repente. Este fica fulo, vai-se embora e recruta o seu jovem casal de funcionários, que são namorados, Bobby e Kat, para o ajudarem a explorar aquele aparentemente infindável backroom, levando uma câmara de vídeo, cordas de alpinismo e outros objectos úteis. E após aqueles terem conseguido dominar o espanto perante a descoberta do seu patrão, o trio atravessa a “porta” descoberta por Clark e embrenha-se nas salas. Algum tempo depois, Mary vai visitar o seu paciente à loja, que está vazia. E acaba por entrar também na imensa dimensão paralela, indo à procura dele e do casal de empregados.
Esta longa-metragem de estreia de Kane Parsons tem a tutela da A24, e entre os produtores nomes de peso do actual cinema de terror e de ficção científica (e não só), caso de James Wan, Shawn Levy e Osgood Perkins. A fita “nasceu” na Internet, sob a forma de uma série de curtas-metragens de falsa found footage, Backrooms, iniciadas em 2022 e realizadas por Parsons, e que podem ser vistas no YouTube (já vão em quase três horas, todas juntas), tendo-se tornado num colossal fenómeno: foi vista até agora por 78 milhões de pessoas. Backrooms tem na sua origem uma banal fotografia de uma anónima sala vazia de uma loja de brinquedos e passatempos americana que estava em obras, postada num site inglês em 2011.
Em 2019, um dos utilizadores do site criou um thread pedindo para se começarem a postar fotografias do mesmo género, em que nunca houvesse gente e que tivessem uma atmosfera perturbadora, de nervoso miudinho ou horror difuso. E pouco a pouco foi sendo criado online o “mundo” dos Backrooms, que nunca mais parou de crescer, dando origem a uma ampla comunidade de participantes. E ainda ao conceito (e à estética) dos liminal spaces na Net (espaços vazios ou desabitados que causam arrepios, incomodidade ou um medo indizível). Kane Parsons pegou nisto e deu-lhe um tratamento e um nexo narrativo em Backrooms, criando, por exemplo, uma entidade ficcional privada, o Async Research Institute, que descobriu e começou a explorar, estudar e documentar o mundo dos Backrooms. Neste aparecem por vezes pessoas que descobriram, por puro acaso, “portas” para entrar nele, e de cujos pontos de vista o realizador filma as curtas-metragens da série.
O terror, na série do YouTube e agora no filme que se estreia esta semana, nasce menos da tal presença esquiva e assustadora que vagueia pelas salas a perder de vista da dimensão paralela, do que da constante e densa atmosfera de estranheza e de mal-estar, de intranquilidade, tensão e medo sem contornos claros que aqueles espaços, ao mesmo tempo familiares e desconhecidos, criam em quem os percorre – e que neles se podem perder para sempre. Depois de Obsessão – A Felicidade é Relativa, de Curry Baker (ainda em cartaz), que se estreou no género fantástico pondo os seus filmes no YouTube, Backrooms – Labirintos vem também mostrar que algum do novo e mais interessante cinema de terror dos EUA está a nascer online, e só depois a aparecer nos cinemas.
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