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Cinco anos depois de ‘Private Reasons’, Bruno Pernadas regressa com ‘unlikely, maybe’, um disco que assume como transitório e que aponta a novas direcções sonoras. O músico falou com a Time Out sobre este trabalho e sobre o que se segue.

Bruno Pernadas é um dos músicos mais talentosos e criativos a emergir em Portugal no presente século e, cinco anos depois de Private Reasons, está de volta com unlikely, maybe, um trabalho de transição a abrir caminho para novas direcções sonoras. Entre a vontade de abandonar algumas das ferramentas mais pop que marcaram trabalhos anteriores e o desejo de explorar territórios mais próximos do jazz espiritual, o músico e compositor continua a construir um universo muito próprio, onde convivem referências cinematográficas, retro-futuristas e experimentações tímbricas pouco convencionais. À conversa com a Time Out, fala sobre as mudanças na sua linguagem musical, a importância dos convidados neste novo álbum, as experiências que ficaram na gaveta e os planos para o futuro.
Cinco anos depois do Private Reasons está de volta com um álbum novo, unlikely, maybe. Quando é que decidiu começar a trabalhar neste novo projecto?
Este disco surgiu na necessidade de criar um álbum que fosse transitório dos anteriores e tentar encontrar uma nova linguagem para os próximos trabalhos. Embora goste muito das músicas que fazem parte do disco, sinto que ainda não consegui chegar a esse lugar. Por isso é que o considero transitório, no sentido em que ainda tem algumas das ferramentas dos outros álbuns – como alguns recursos mais harmónicos da linguagem pop. Não é que não goste, mas quero desvincular-me para fazer algo diferente. Já fiz várias gravações assim, mas não em obras editadas.
Em entrevistas anteriores, já tinha falado sobre esta vontade de entrar num ciclo novo. Até referiu, por exemplo, como gostaria de fazer um álbum de jazz espiritual. Sente, então, que ainda não entrou nessa fase?
Não, ainda não consegui porque, para isso, preciso de reunir os músicos num espaço onde os consiga ter durante vários dias comigo a trabalhar numa residência. É muito complicado, com o tipo de músicos com que colaboro, encontrar uma disponibilidade que seja plural. As pessoas estão sempre a tocar e a viajar. É difícil. Mesmo com condições financeiras e apoios, é difícil conseguir ter as pessoas no mesmo lugar. Portanto, não sei se isso vai acontecer dessa forma ou num formato mais reduzido.
Ainda não foi desta que conseguiu lançar o seu A Love Supreme.
[Risos.] Não, apesar de haver algumas tentativas.
Mas é notável que está a tentar cortar com alguma da sua linguagem anterior. Isso dá para perceber logo pela capa. Ao contrário do habitual, não é uma ilustração retro, é uma fotografia do seu escritório. Porquê?
Inicialmente, não era esta a minha ideia. A foto que usámos era para ser usada como contra-capa do vinil. A capa original eram duas pessoas portuguesas juntas, em 1990, a andarem ao mesmo tempo em direcção a uma cabine telefónica – onde, inclusive, dizia Portugal Telecom. No entanto, mais tarde, em conversa com a minha equipa e com o meu editor, fez mais sentido que esta fosse a capa e não a foto do casal.
A banda que participa neste disco também conta com algumas alterações daquela que habitualmente usa e inclui vários convidados. Isto deveu-se à procura para alcançar esse som diferente?
Foi uma forma de refrescar e funcionou. Este disco tem quatro convidados e havia mais um, o Barnaby Keen, que gravou um disco com o Benjamim chamado 1986. Essa música estava a andar para a frente e para trás. Quando foi preciso sermos pragmáticos, decidimos que não ia entrar neste trabalho e que iria entrar noutro disco ou EP. Portanto, os convidados foram aqueles que estão presentes no disco e, realmente, se fosse eu ou a Margarida Campelo a cantar, ia ficar mais próximo das outras músicas que já gravámos. Assim, não. O resultado é diferente e isso é bom.
O que é que os convidados acrescentaram a este trabalho?
A personalidade, a sua linguagem musical e o timbre, principalmente, que muda a música completamente. A Leonor, por exemplo, que participou na "Spiritual Spaceman". Era algo que já tocávamos em certos concertos. A versão que fazíamos era mais poderosa e furiosa, mas a que acabou por ser gravada não tem essa abordagem – algo que até estranhei no início. Mas, depois, comecei a gostar e foi a que optámos por usar.
Uma das músicas deste disco, a "Juro Que Vi Tulipas", tem elementos de rap e hip hop, algo que não existia na sua discografia. Isto surgiu também dessa necessidade de inovar?
Sem dúvida. Estava a falar de coisas que nunca editei. Tenho umas demos em casa de gravações minhas de hip hop e rap que nunca foram lançadas e que eram bem mais pesadas. Mas, pronto, como é algo transitório, no futuro, imagino que o meu som esteja numa linguagem muito mais próxima do free jazz, jazz espiritual com hip hop mais agressivo.
Fiquei curioso com essas gravações. Era o Bruno a fazer o rap?
Sim, é por isso que não lancei as músicas [risos]. Na "Juro Que Vi Tulipas" era eu a rappar, mas não gostei do resultado. Depois conheci a Maya, convidei-a e funcionou muito melhor, obviamente, do que se tivesse ficado com a gravação original.
Nos discos que tem feito, um dos elementos de que mais gosto, é o facto de criar um universo dentro de cada disco, com várias referências e sons vintage, mas também retro-futoristas e com tecnologias peculiares. Este é um cenário que só existe na sua cabeça ou tem espaço na vida real?
Eu acho que a minha música tem essa contemporaneidade. É o facto de existirem estes sons digitais à nossa volta que nos dá vontade de os usar. Eu sempre quis usar ferramentas MIDI antigas e é algo que gostava de incorporar no futuro, mas é um material muito caro.
E, uma vez que a sua música nos transporta para este mundo diferente, considera a sua música escapista?
Se calhar é, mas eu não consigo ter essa percepção. Sou eu que estou dentro dela [risos]. Algo que eu sei é que não tenho grandes restrições nem limitações em relação à mistura de estilos e tendências. Para mim, desde que surjam de forma natural, faz sentido. Há pessoas que, agora, me perguntam: mas agora lançaste uma música de reggae? [Em relação ao single "Steady Grace".] Sempre ouvi reggae e dub. Gravei um álbum de dub e dei um CD-ROM a dez amigos. Não é uma estreia, já tinha feito isto [risos].
Hoje em dia, essas cópias devem valer dezenas de milhares de euros.
[Risos.] Eu tenho a minha cópia, mas há uns dias recebi uma mensagem de um colega meu, que morou muito tempo em Inglaterra, a dizer: não te esqueças que ainda tenho isto, vou pôr à venda no eBay.
Outra estreia na sua discografia a solo é a inclusão de uma música cantada em português. Porquê agora?
Era suposto ter entrado uma no Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them, mas como o disco já estava gigante o álbum acabei por retirar. Agora, sempre quis fazer um samba rápido, mesmo sem pensar no contexto do disco. Queria fazer e pronto. Mas acabei por gostar demasiado da música para a deixar de fora. Como é tão difícil fazer discos desta forma, em estúdio e com muitos músicos, acabei por incluí-la no álbum.
Como é que entra a Lívia Nestrovski na canção?
No início, fiz o convite a mais do que uma pessoa para cantar e a maior parte ou não podia ou não queria. Então, uma amiga minha, que também é música, sugeriu-me convidar a Lívia. Quando a conheci, percebi que ela já conhecia os meus discos, por isso, a comunicação foi super fácil. Quando ela veio a Portugal, gravar com uma orquestra de música contemporânea, aproveitámos e gravámos. Aquilo que se ouve foi gravado no primeiro take que ela fez. Funcionou muito bem, ela é super talentosa.
Esta estética que criou na sua discografia tem muitos elementos cinematográficos e, neste disco, uma das personagens que habita este mundo é o Spiritual Spaceman. Pode falar um pouco dele?
O "Spiritual Spaceman" é um senhor que vem do Espaço para salvar a humanidade do mal que fez a si própria. Funciona quase como se fosse um conto para crianças. É alguém que vem ensinar as pessoas como tudo se pode resolver, desde que se tenha vontade. É assim muito infantil, mas é uma alusão há necessidade de haver uma resposta para os problemas numa presença divina e que não são as pessoas que conseguem resolver, sem terem um ímpeto que se traduza nessa salvação.
Nesta pausa entre discos, foi o responsável pela criação do hino das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Houve alguma coisa que trouxe dessa experiência para o seu projecto a solo?
Não trouxe muito. O que acontece é que, quando estou a trabalhar como compositor, para música contemporânea ou erudita, a minha cabeça vai para outro sítio. É uma parte de mim que opera de uma forma completamente diferente. Estou muito orgulhoso dessa peça que fiz, acho que funciona muito bem, e foi um projecto incrível, mas acho que funciona mais ao contrário. Foi o que eu trouxe dos sítios, dos projectos que já tinha feito, aquilo que eu levei para a peça da Orquestra de Geração.
Antes de terminarmos, gostava de falar um pouco sobre o futuro. Estava a dizer que gostava de fazer algo mais próximo do jazz espiritual. Além do tempo para conseguir fazer esta música, o que é que acha que falta mais para o realizar?
Não é bem que seja uma música espiritual. Durante a minha vida, identifiquei-me muitos com discos do Don Cherry, Alice Coltrane, da Art Assemble of Chicago, Ornette Coleman, Sun Ra ou The Last Poets, que faziam essa espécie de música, assim como o afrofuturismo. Isto é algo que não faz parte, directamente, da minha cultura, mas eu cresci a ouvir esta música. Não quer dizer que tenha uma conotação espiritual como a música que essas pessoas fazem, porque realmente tem. No meu caso, é mais a musicalidade que resulta dessa conjuntura, que eu tenho uma paixão muito fervorosa. Para concretizar esta música que quero fazer, preciso de pensar de outra forma. Se calhar não basta pensar em convidar várias pessoas para uma residência. Se calhar não é assim que se faz. Se calhar passa por criar um grupo, tocar ao vivo durante um ano – como fiz com o José Soares, em duo – e só depois é que começamos o trabalho em estúdio. É cada vez mais, no grupo de pessoas com quem eu colaboro, conseguir ter o tempo suficiente para estar a gravar. Não temos a mesma disponibilidade, quando comparado com o início da carreira.
Mencionaste um projecto, Sun Ra – que continua a existir no formato da Sun Ra Arkestra, sem o seu mentor original – que vem um bocado ao encontro do que ia agora perguntar. Imagina que, um dia, este projecto, Bruno Pernadas, possa continuar sem ti? Criarem uma Bruno Pernadas Arkestra.
[Risos.] Nunca tinha pensado nisso. É assim, nos Estados Unidos, que é o país que mais ouve a minha música, já recebi vídeos de pessoas a tocar a minha música em recitais de final de curso, tanto na The New School, em Nova Iorque, como na Berkeley. Isso é algo que já está a acontecer. Portanto... imagino que sim. Gostaria que um dia, quando morresse, as pessoas continuassem a tocar as minhas músicas. Até gostaria de, um dia, partilhar todas as minhas partituras, apesar de ser algo que envolve uma série de burocracias. As únicas que partilho sem qualquer tipo de problemas são as de jazz porque acho que é uma música que tem de ser tocada e partilhada.
Culturgest, R. Arco do Cego, 50 (Campo Pequeno). 19-20 Fev (Qui-Sex) 21.00. 18€
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