[category]
[title]
A Casa da Mully tem ar de café, mas é uma caixinha de surpresas. O destaque vai para os gelados vegan e para a agenda cultural, que inclui cinema com música ao vivo.

Erin Lenczycki estava em viagem com a mãe quando conheceu Frederico Severo, em 2018. O encontro inesperado deu lugar a um namoro à distância que durou dois anos – ela em Nova Iorque, ele em Lisboa –, até decidirem juntar os trapinhos. Pelo meio, descobriram-se mestres gelateiros e criaram Kitty Oliveira, um gelado de azeite virgem com uma pitada de sal. Foi o início da aventura que os levaria a abrir as portas da Casa da Mully, um espaço em Alvalade, pensado para juntar pessoas à volta da comida, da arte, da música, do cinema, dos videojogos e de muitas outras coisas boas e bonitas.
“Começámos a vender gelados em Outubro de 2024. Criámos uma lista com duas dezenas de sabores que nem sabíamos se conseguíamos fazer e a cada mês experimentávamos cinco”, recorda Fred, antes de revelar que a ideia foi da mulher. “Estava obcecada, queria tentar receitas impossíveis, que só se conseguem fazer com uma máquina industrial, e ela tinha uma daquelas que se compra com dez paus no Continente”, conta, entre risos. Mas a fotógrafa e designer norte-americana manteve-se firme: “Organizámos uma festa com amigos, eram 30 pessoas e 14 litros de gelado, e o convite dizia ‘será que devo desistir do meu 9 às 5 e ir fazer qualquer coisa de que goste?’.” Um mês depois, o universo respondeu: despediram-na, e ainda bem, porque foi o empurrão de que precisava.
Na altura, Fred – que estava a terminar o seu doutoramento em neurociência – também andava a pensar que, na verdade, o que gostava mesmo era de continuar a investir na sua carreira como músico, compositor e produtor. Daí até um “que se lixe, vamos só criar um lugar que nos permita tornar os nossos sonhos realidade”, foi um instante. E se é verdade que a Casa da Mully tem ar de café, também é verdade que é uma caixinha de surpresas. Além de servir comida vegana, incluindo gelados artesanais, também é loja de discos, de projectos sediados em Portugal e no Michigan, de onde Erin é natural; e montra de artistas independentes, como a dupla Time for the Oniric, que por estes dias tem as suas ilustrações e peças em cerâmica expostas no espaço.
“Foi tudo muito rápido”, confessa Fred, que também aproveitou para instalar na Casa da Mully a sua editora, a Trash Cat Records. “Acho que também ajudou o facto de Lisboa estar cada vez mais gentrificada e terem começado a fechar tantos espaços icónicos, como o Musicbox e o Sabotage... Sentimos que era quase como o fim de uma era, mas que talvez pudéssemos inverter a tendência: abrir um lugar para todos, com boa comida, boa música e muitas coisas para fazer.” Razão pela qual o grande destaque é a programação cultural, que inclui desde jantares temáticos, perfeitos para fazer amigos, e até noites de trívia e de videojogos retro. Alguns eventos são de entrada paga, outros de entrada livre. Os mais surpreendentes costumam acontecer na cave.
Quando entramos na Casa da Mully, que tem mesmo ar de casa e pormenores curiosos, como cravos pintados no interior dos candeeiros, não estamos propriamente à espera que haja um estúdio no subterrâneo. Mas basta descer dois lanços de escadas para darmos por nós numa sala de concertos intimista, onde não devem caber mais de 30 pessoas. Deu muito trabalho a construir, foi preciso sonorizar o ambiente e arranjar soluções de arrumação. No final, até já serviu para sessões de cinema. Em breve, haverá novo ciclo, com música original composta especificamente para cada filme; falta só fechar o cartaz. “É um festival, basicamente”, antecipa.
Outro dos atractivos do espaço é, obviamente, a comida. Há saladas, pratos para partilhar, como o best-seller Mully’s ‘Pica Pau’ (8€), pedaços de tofu fumado com molho de framboesa e BBQ, servidos com legumes em pickle e batata palha, e sanduíches com ar e sabor caseirinhos (8€-12€). A Thanksgiving (12€), por exemplo, é uma homenagem aos restos do Dia de Acção de Graças. Leva peru vegano, fatias de maçã verde, rúcula e chutney de frutos vermelhos, e é ainda melhor se for acompanhada pela soda da casa (3€). “São as coisas que fazemos para nós”, revela Erin, entre risos.
“Sobretudo o amor que pomos em tudo”, acrescenta, antes de nos mostrar os postais que desenha por cada sabor de gelado que cria. “As receitas dos postais vão para o [abrigo de animais] Cantinho da Milú. Estamos a tentar ser o local favorito do bairro, basicamente.” É provável que consigam. Ao fim-de-semana, têm opções de brunch (8€-10€), com scones e compota e waffles com maple syrup e costumam estar cheios, com gente de todas as idades.
“No mês passado convidámos as pessoas a deixar cá as suas obras de arte para fazermos uma exposição. Tivemos cerca de 27 pessoas, dos 9 aos 94 anos, a aceitar o desafio. Entretanto, produzimos um álbum colectivo: abrimos o estúdio e quem quisesse podia vir participar. Apareceram anónimos, mas também profissionais como Catarina Branco, Pedro Antunes, A Sul”, conta-nos Fred. “Nós sabemos como é difícil ter uma carreira na música, e nas artes em geral. Queremos criar oportunidades e estamos a fazer a nossa parte. Pagamos os impostos e os artistas ficam com tudo o que resta das receitas. Se falirmos, falimos a fazer a coisa certa, e toda a gente vai ficar muito, muito triste.”
Rua Dr. Gama Barros, 17A B (Roma). Qua-Sex 12.00-20.00, Sáb 10.00-20.00, Dom 10.00-18.00
📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn
Discover Time Out original video