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Da Cana: o bar que quer mudar a forma como se bebe cachaça em Lisboa

Em Alcântara, há um novo bar dedicado às bebidas feitas a partir da cana-de-açúcar e às ligações históricas entre os países de língua portuguesa.

Hugo Geada
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Hugo Geada
Jornalista
Da Cana
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Pensa que sabe o que é cachaça? Só até entrar no novo Da Cana. O bar pensado por Raquel Lopes promete mudar mentalidades, apagar memórias tristes de maus shots e caipirinhas e apresentar uma nova forma de beber esta aguardente em Lisboa. Instalado em Alcântara, funciona dentro do Geographia e nasce de uma parceria entre Raquel, fundadora da importadora de cachaças premium Casa Cachaça, e Miguel Júdice, responsável pelo restaurante.

Miguel foi um dos primeiros clientes em Portugal da empresária luso-brasileira, numa fase em que ainda trabalhava com vinhos. À medida que procurava um espaço para dar visibilidade às suas cachaças, ele tornou-se também num conselheiro. “Todos os lugares que encontrava, ligava-lhe e pedia-lhe opiniões”, recorda. A ideia criar um bar dentro do Geographia acabou por surgir de forma natural, com Raquel responsável pela curadoria das bebidas, mantendo a identidade do restaurante que assenta na cozinha lusófona.

O conceito do Da Cana parte de uma constatação simples: por onde Portugal passou, ficaram bebidas feitas a partir da cana-de-açúcar. A carta reúne referências de vários países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), do grogue de Cabo Verde ao rum de São Tomé e Príncipe, passando pela aguardente de cana de Angola, o poncha da Madeira e a cachaça brasileira. “São drinks que falam a língua portuguesa”, explica Raquel, sublinhando que a intenção é mostrar que, no copo, “não há só o português de Portugal”, mas uma diversidade cultural que partilha a mesma base histórica.

Da Cana
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A missão passa também por desmontar preconceitos associados à cachaça. “É o único destilado que a gente pode envelhecer em mais de 40 tipos de madeira”, explica. Há cachaças que descansam apenas em inox e outras que passam por madeiras como amendoim — que dá maciez sem alterar cor ou sabor —, barris de vinho do Porto ou chardonnay, e ainda madeiras brasileiras como a aroeira ou a cerejeira. “Acontece a mesma coisa que acontece no vinho: passa as notas e o sabor também para cachaça.”

A própria história do destilado ajuda a contextualizar essa complexidade. Raquel lembra que o método de destilação chegou ao Brasil pelas mãos dos portugueses, que já produziam bagaceira e medronho, e que a cana-de-açúcar, originária da Índia, encontrou no Brasil e na Madeira condições ideais para crescer. Mais tarde, quando os holandeses levaram esse método para o Caribe, nasceu o rum. “Por isso é que se diz que a cachaça é o destilado mais antigo das Américas.”

No Da Cana, essa versatilidade traduz-se numa carta de cocktails desenvolvida por Edu Ribeiro. “É tão versátil que eu posso pedir para o Edu fazer uma carta inteira só com cachaça”, diz Raquel. “Ela pode substituir qualquer destilado. Gin, vodka, whisky, conhaque. Nenhum destilado consegue fazer isso”. A regra é clara: se entra um produto de fora, tem de fazer sentido no universo lusófono e tem de ser produzido num destes países. Por exemplo, em vez de Aperol, usa-se um aperitivo português; se houver gin, será português, brasileiro ou africano.

Entre as bebidas que passam pela mesa, há espaço para combinações inesperadas, como um cocktail de licor de pêssego com infusão de tabasco, adornado por uma malagueta de tamanho generoso. No menu pode encontrar ainda Frutographia, uma bebida feita com cachaça preparada e envelhecida em pau-brasil e que leva também sumo de limão e ananás, xarope de coco e aperol, ou Ervanário uma bebida preparada com frutas tropicais, como banana, manga ou tamarindo e, uma cachaça peculiar, infusionada com capim-limão e sumos cítricos. Todos os cocktails custam 12€. 

Caipirinha
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A comida acompanha a mesma lógica. No bar, os petiscos seguem uma abordagem de fusão, com influências brasileiras e africanas. Há escondidinho de mandioca, com mandioca e queijo caturpury (14€), dim sums de minchi, com molho de soja e mel (11€) ou chamuças de carne ou vegetarianas (9,50€).

Numa altura em que muitos bares seguem tendências globais, o Da Cana distingue-se pela autenticidade e por se manter fiel às suas raízes. Em cima da mesa, há mais do que copos e garrafas: há culturas em constante comunicação, a ajudarem cada receita nova a transformar-se e a evoluir. Como deve de ser.

Bar Da Cana, Rua do Conde 1 (Alcântara). Seg-Sáb 19.30-22.30 

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