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De elefantes na Baixa a leões no Castelo, a história de Lisboa conta-se também com os animais

"Animais de Lisboa - Outra História da Cidade" inaugura quarta-feira, 28 de Outubro, no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta. Investigação permitiu mapear 92 tipos de animais na cidade, desde a época medieval.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Exposição "Animais em Lisboa"
DR | Exposição "Animais em Lisboa"
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Lisboa chegou a ser uma cidade de gatos. Daquelas em que eles se esgueiram pelas ruas, se alimentam do que sobra e desaparecem por trás de muros, entre a vegetação. Chegaram mesmo a amenizar "a solidão dos presos, contribuindo até para a circulação clandestina de mensagens e informações", destaca-se numa das paredes da exposição, ainda em montagem, "Animais de Lisboa - Outra História da Cidade", que inaugura esta quarta-feira, 28 de Outubro, às 18.00, no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta.

Os "capítulos" da mostra são encabeçados por animais. O cavalo – provavelmente a espécie que mais visibilidade perdeu, ao ter desaparecido do quotidiano (desde o trabalho de carga até às procissões ou ao transporte da realeza) da cidade –, o corvo (havia dois na Sé de Lisboa, conhecidos como "os Vicentes"), o cão vadio, o rinoceronte, o urso, o leão ou o elefante, insectos como a pulga, a mosca, o percevejo, e seres aquáticos como a sardinha ou a baleia estão distribuídos pelas paredes e por séculos, contando parte da história da cidade mas também desenhando um mapa. "É uma área pouco estudada, em que quisemos mostrar como animais não-humanos fizeram parte da construção da cidade", do período medieval ao moderno, descreve Nina Vieira, investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa e comissária da exposição, juntamente com Catarina Simões, que partiu do projecto "Animais de Lisboa", financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Exposição "Animais em Lisboa"
DRExposição "Animais em Lisboa"

Por um lado, o objectivo era perceber os espaços da cidade onde diferentes animais viveram, por outro, encontrar hoje representações desses mesmos animais, e de outros, pela cidade. Com os dois tipos de informação, fez-se um mapeamento da vida animal lisboeta em diferentes séculos. E encontraram-se 92 tipos de animais.

No final da exposição, chega-se a um ecrã com um mapa interactivo – desenvolvido por Daniela Gomes, bolseira do mesmo projecto – em que podemos pesquisar por tipos de animais, localização geográfica e período histórico, encontrando tanto registos de animais que viveram na Ajuda ou na Penha de França, como representações escultóricas, em azulejos ou noutras peças distribuídas pela cidade (o mapa estará mais tarde disponível online). "Diria que a componente mais inovadora foi identificar as presenças dos animais em Lisboa e localizá-las no mapa, para perceber de que forma influenciaram as vivências da cidade", considera Catarina Simões.

A batalha elefante-rinoceronte

Se Lisboa foi cidade de gatos, também foi território grandemente vivido por cães vadios, sobretudo no pós-terramoto, altura em que, entre as ruínas, sobressaía "o ruído das queixadas triturando" e a "disputa dos restos", um pouco por toda a parte, como deu conta o francês Joseph-Barthélemy-François Carrère, de passagem por Lisboa em 1796, num documento encontrado pelas investigadoras. Para que se tenha uma ideia da dimensão do problema, na pequena Lisboa de 1778, o escritor inglês William Beckford estimou existirem 30 mil a 40 mil cães vadios "a vaguear" pela cidade.

Exposição "Animais em Lisboa"
DRExposição "Animais em Lisboa"

Mas Lisboa fez-se também de animais de consumo, como galinhas, vacas e porcos, muitos deles criados em contextos familiares. Lembremo-nos de como foram centrais, durante décadas, os matadouros, mais tarde afastados do núcleo urbano e da percepção de quem os consome. "Essa relação de subjugação e de exploração, apesar de continuar a existir, está hoje mais longe da vista", reflecte Catarina Simões. 

Não foram, no entanto, cães nem porcos os animais mais exuberantes a habitar Lisboa. Elefantes vindos da Ásia (e os seus tratadores) chegaram a ser utilizados como animais de trabalho, sobretudo na zona da Ribeira das Naus, palco de construção naval e de outras empreitadas de grande porte, que exigiam músculo pujante também. Mas os elefantes também eram símbolos de poder na corte, que chegou a engendrar uma batalha, no actual Terreiro do Paço, entre um elefante e um rinoceronte. "O elefante ainda não era adulto, nem tinha os dentes formados, e fugiu", conta Nina Vieira, relatando ainda que um dos elefantes que chegou a fazer parte da vida palaciana foi oferecido pelo rei D. Manuel I ao Papa Leão X, para impressionar. "Recordemos A Viagem do Elefante, de Saramago" [sobre a ida do elefante Salomão de Lisboa para Viena, onde seria entregue como presente de casamento a um arquiduque], sublinha a investigadora.

Exposição "Animais em Lisboa"
DRExposição "Animais em Lisboa"

Em Belém, com o rei dos excessos, viveram também (em cativeiro, claro), ursos, leões e leopardos, trazidos das ex-colónias. "Depois do terramoto, foram abatidos", diz Nina Vieira, que tanto expõe que muitos destes animais morreram mais cedo do que faria prever a sua esperança média de vida, como que também foram muito importantes à época, no que toca à produção de conhecimento científico. 

Tanto no Palácio de Belém restam as jaulas onde viveram estes animais, como no Castelo de São Jorge estão de pé três esculturas de leões, que de facto por lá andaram. Pela cidade toda, painéis de azulejos, porções de calçada, nomes de praças e de ruas (do Largo do Leão à Travessa das Zebras) e outras peças contam o passado. No presente, a arte urbana continua, com os golfinhos pintados na Ponte 25 de Abril, entre outros exemplares documentados na iniciativa cidadã agregada ao projecto. Como remata Catarina Simões, "os animais são mesmo nossos vizinhos".

Campo Grande, 245. 29 Out-4 Jun, Ter-Dom 10.00-18.00 (Inauguração: 28 Out 18.00). 5€ (entrada livre ao domingo para residentes em Portugal)

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