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No novo filme de Alejandro González Iñárritu, um Tom Cruise pesadamente maquilhado para parecer mais velho e anafado, interpreta um magnata do petróleo que desencadeia um desastre de dimensões planetárias.

Quando Tom Cruise participou, em 2008, no filme Trovão Tropical, de Ben Stiller, fazendo o papel de Les Grossman, um quase disforme produtor cinematográfico e executivo de um grande estúdio de Hollywood, teve de ser submetido a várias incómodas horas de maquilhagem até a personagem estar devidamente composta e totalmente credível do ponto de vista físico – e o actor ter ficado quase irreconhecível. Em Digger, a nova fita do realizador mexicano Alejandro González Iñarrítu, Cruise ia desempenhar a personagem do título, Digger Rockwell, um envelhecido e gordo magnata do petróleo texano, o que lhe ia exigir mais sofrimento na cadeira dos especialistas em maquilhagem e nos respectivos efeitos especiais.
O papel ia exigir que fossem aplicados a Tom Cruise próteses faciais, próteses dentárias, rugas artificiais, uma peruca e um chamado fat suit, cheio de enchimentos, para o tornar mais gordo. Da primeira vez que toda esta maquilhagem e todas estas próteses e chumaços lhe foram postos, o trabalho durou seis horas. E tirar tudo após as filmagens levaria mais duas horas. Cruise estava decidido a cortar drasticamente nestas seis horas, pelo que trabalhou com a equipa tendo ao lado um técnico com um cronómetro, e comunicando-lhe que a sua ideia era conseguir reduzir o processo a uma hora. Ninguém acreditava que fosse possível, mas todos acabaram por conseguir maquilhá-lo nos 60 minutos desejados pelo actor. Que comentaria já depois da fita rodada, e com bom-humor, terem conseguido um verdadeiro “timing de Fórmula 1”.
Temos assim em Digger um Tom Cuise mais reconhecível do que a citada personagem de Trovão Tropical, mas mesmo assim mais velho do que é na realidade e com um corpo consideravelmente menos bem tratado. O seu Digger Rockwell é o pivô desta fita passada num futuro próximo – cuja história inclui um par de twists tão acrobáticos como inesperados –, um idoso, gordo e prepotente multimilionário que fez fortuna na área do petróleo, e ao qual, certa manhã, um dos seus técnicos dá uma péssima notícia. Houve um gravíssimo acidente numa das suas plataformas petrolíferas no Árctico, que levou ao desprendimento de uma gigantesca massa de gelo. Esta poderá vir a atingir a Europa, causando um desastre de proporções inimagináveis. E as coisas poderão mesmo piorar, ao ponto de desencadearem uma guerra nuclear com a Rússia.
Digger, que tem o Presidente dos EUA e o governo no bolso, convoca uma reunião de emergência com o poder de Washington na sua mansão, que conta também com a presença do seu cientista-chefe, tremendo como varas verdes. O encontro decorre num ambiente surreal, entre o disparate escancarado e o pânico geral, e dele não acaba por sair nada. O magnata tem então, e relutantemente, que viajar até à Europa com o vice-presidente dos EUA (o Presidente tem um cancro rectal e vai ser operado) e o cientista-chefe, para falarem aos representantes políticos do Velho Continente, que os recebem em fúria. Entretanto, já se deu o primeiro twist no enredo de Digger, e por isso, continuar a falar do que vai acontecer em seguida no filme é incorrer no pecado mortal dos spoilers.
Acrescentemos apenas que Alejandro González Iñarrítu dispôs de um orçamento que terá andado entre os 125 milhões e os 180 milhões de dólares para rodar, em grande segredo, esta sátira a (deliberado) traço grosso sobre os perigos de uma calamidade ecológico-climática causada por mão humana, com pano de fundo de ganância desenfreada e de hipocrisia geral. Além de Tom Cruise, o filme conta também no elenco com John Goodman, Riz Ahmed, Sandra Hüller, Robert John Burke, Jesse Plemons e Michael Stuhlbarg. E se Cruise não bateu, em Digger, o recorde mundial de aplicação de maquilhagem complexa num actor, deve ter andado lá bem perto.
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