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Dos carros em segunda fila aos passeios degradados, a Morais Soares está “muito pior”

Rua é “cemitério de projectos” na área da mobilidade que ninguém teve coragem de implementar. Movimento queixa-se de falta de aposta na mobilidade suave, Junta pede faixa exclusiva para autocarros.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
Rua Morais Soares
Rita Chantre | Rua Morais Soares
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Há duas churrasqueiras concorridas na Rua Morais Soares: Quionga e Primavera. Também muitas farmácias, frutarias e talhos. Não é raro, por isso, ver automóveis parados em segunda fila, à espera dos condutores que foram aviar uma receita médica ou buscar um frango para o jantar. Acontece que, no território sob a gestão de duas freguesias (Penha de França e Arroios), os muitos autocarros (706, 735, 797, 718, 742) que ali circulam não o fazem em faixa exclusiva, e os obstáculos são constantes.

“Às vezes demoro mais a subir a Morais Soares do que a fazer o resto da viagem”, partilha uma passageira do 742, em dia de chuva. O comentário não é incomum. Além dos constrangimentos para os transportes públicos, o estacionamento e a paragem em segunda fila são entraves à visibilidade de peões e ciclistas, causando acidentes. “O estacionamento em segunda fila é o principal problema” da Morais Soares, reconhece a presidente da Junta de Freguesia da Penha de França, Elisa Madureira, eleita pela segunda vez em 2025 e que tem na artéria lisboeta uma prioridade para este executivo. “Queremos devolver a Rua Morais Soares às pessoas e, para isso, é fundamental alargar passeios, acalmar o tráfego e dar prioridade ao transporte público. Esse trabalho tem de ser feito em conjunto com os moradores, comerciantes e, claro, com a Câmara de Lisboa, que tem a responsabilidade de intervir. Mas o que vamos tentar fazer, enquanto junta, é exercer alguma pressão”, declara a autarca em entrevista à Time Out.

Entre as reivindicações de alguns moradores para a Morais Soares, já antigas, estão a instalação de bancos nos passeios, uma ciclovia e estacionamento para bicicletas ou a plantação de árvores, mas na visão da presidente “não dá para fazer tudo, o espaço é limitado”. “É impossível pôr ali uma ciclovia”, defende. O que não admite é que as condições de mobilidade estejam piores do que há 15 anos. “Quando entrei para a Junta, em 2009 [em 2015, abandonou a liderança, tendo sido substituída por Sofia Oliveira Dias, que governou a freguesia até ao ano passado], já se falava na necessidade de mudar a Morais Soares, mas o problema só se tem vindo a agravar. Há mais trânsito, mais carros parados em segunda fila, o que transforma as quatro faixas em duas, e falta de fiscalização. Do lado dos peões, os passeios estão muito deteriorados, o que é um problema numa freguesia envelhecida como esta”, detalha.

Rua Morais Soares
Rita Chantre — Rua Morais Soares

O que Elisa Madureira enumera, porém, não é novo, tendo estado inclusive previsto em diferentes projectos desenvolvidos para a Rua Morais Soares. Um dos mais recentes é de 2019 e foi desenhado pelo Ateliermob, a pedido da Câmara Municipal de Lisboa, no âmbito de um programa mais alargado que visava tornar algumas ruas de Lisboa mais amigas do peão. “Fizemos uma proposta para a Avenida General Roçadas e para a Rua Morais Soares, mas na Morais Soares nunca foi implementada. A Morais Soares é o que se pode chamar de um cemitério de projectos”, resume Tiago Mota Saraiva, do Ateliermob, à Time Out.

Ao contrário de Elisa Madureira, o arquitecto acredita que, do ponto de vista material, dá para fazer mais do que alargar passeios e criar uma faixa exclusiva para autocarros (no sentido Arroios–Alto de São João). “Hoje achamos que incluir uma ciclovia ou ter ali uma via partilhada é absolutamente necessário”, afirma, justificando a opção com a escassez de transportes públicos em zonas como o Bairro Lopes ou o Alto do Pina, mas também com a defesa dos meios de mobilidade suave, como instrumento central da vida urbana. Outro ponto a alterar, acrescenta o responsável, seria a semaforização (há menos de quatro anos, foram colocados novos semáforos na ponta Sul da Morais Soares, mas alguns nem sempre estão em funcionamento). “As passagens de peões tornaram-se muito perigosas e a semaforização não resolve nada. Os semáforos estão a desaparecer nas cidades contemporâneas, porque a ideia é que os carros circulem sempre a baixa velocidade. Tal como está, há mais situações de arranque, mais velocidade e mais poluição”, explica o urbanista.

Mudando-se a configuração actual da Morais Soares, há ainda um outro aspecto que deveria ser assegurado desde o início: a fiscalização, tanto com vista a garantir o cumprimento das velocidades de circulação como a evitar práticas de estacionamento abusivas. Neste ponto insiste também a presidente da Junta de Freguesia da Penha de França: “Temos muita polícia a circular na zona, mas não com esse foco”.

Que força é essa

Em 2020, também o projecto europeu MORE (Optimização Multimodal do Espaço Rodoviário na Europa, traduzido do inglês) pegou na Morais Soares como uma das ruas de Lisboa a tornar mais “harmoniosa” (o alargamento dos passeios era uma das propostas). No inquérito realizado a 150 moradores e outros utilizadores da rua, destacou-se a preocupação com o estado e a dimensão dos passeios, em segundo lugar ficou a questão do estacionamento em segunda fila e, em terceiro, a falta de estacionamento na zona. Também a baixa frequência de lugares de descanso e a excessiva velocidade a que circulam os automóveis (somando-se o ruído) foram sublinhados. Ainda assim, nenhuma medida para alterar o estado actual da Morais Soares avançou.

“Entretanto veio a Quinta Circular [em 2023, com o intuito de desviar o trânsito da zona ribeirinha e levando a desvios por vários arruamentos, sendo um deles a Morais Soares], que seria uma situação provisória relacionada com o plano de drenagem, e isso piorou o trânsito na Morais Soares, que deveria ser uma rua sobretudo de trânsito local e não de atravessamento. E assim também se adiam as mudanças necessárias”, defende Luísa Sousa, membro do Mapear, colectivo focado na mobilidade activa e melhoria da qualidade de vida na Penha de França.

Em Abril de 2023, o colectivo lançou uma petição pública exigindo a implementação de várias medidas na Rua Morais Soares, visando a acalmia do tráfego, “garantir que as pessoas têm tempo de atravessar as ruas nos semáforos”, passeios mais largos ou lugares para estacionar bicicletas. “A petição foi apresentada há mais de um ano na Assembleia de Freguesia e as forças políticas, à excepção de duas, aprovaram o alargamento de passeios”, mas, mais uma vez, nada aconteceu. Dois meses depois, o Mapear conseguiu uma reunião com a autarquia. “Disseram-nos muito claramente que, naquele momento, não havia condições para intervir”, resume Luísa Sousa. Desde então, a comunicação com a Junta e com a CML tem vindo a esmorecer. “A Câmara mostrou-se disponível para nos ouvir, mas sem consequências”, diz Miguel Valente, também do Mapear. “Em Outubro de 2024, também pedimos acesso aos planos, projectos, documentos relativos à mobilidade na zona, mas nunca nos deram. E depois há o jogo do empurra: da CML para a Junta e vice-versa. A Junta até chegou a fazer-nos ghosting, acusa Luísa.

Rua Morais Soares
Rita Chantre — Rua Morais Soares

Na opinião de Miguel Valente, o facto de a Morais Soares ser deixada de lado há vários anos é um acto de discriminação. “A Penha de França fica no centro da cidade mas é periférica numa série de coisas, nomeadamente no que toca às medidas políticas quanto a espaços verdes e à mobilidade. É uma freguesia adiada. Basta vermos que a única ciclovia que existe na freguesia toda é lá em baixo, na Avenida Infante Dom Henrique”, demonstra.

Também Tiago Mota Saraiva partilha da visão de que não interessa ao poder político mexer numa zona da cidade cuja população tem pouca voz. “Lisboa tem as ruas dos pobres e as dos ricos, e sabemos todos onde é que a Morais Soares e a Almirante Reis se incluem. Portanto, a pressão para que estas ruas mudem é muito menor. O extraordinário é que, ainda assim, a Morais Soares é fascinante, sobrevive a tudo, o comércio renova-se e há dinamismo. É uma cidade vivida, muito mais do que uma Avenida da Liberdade, por exemplo”, compara.

O comércio e as crianças

Outro dos possíveis entraves a uma remodelação da Morais Soares, na opinião do arquitecto do Ateliermob, será o preconceito, “errado”, de que retirando privilégio ao automóvel e garantindo maior protagonismo ao peão, o comércio perde. “Sabemos perfeitamente que não é assim. As experiências que foram feitas em diferentes cidades mostram o quanto ganha o comércio local com o aumento da circulação pedonal”, diz.

Rua Morais Soares
Rita Chantre — Rua Morais Soares

Mas na Morais Soares de hoje, a convivência entre peões, automóveis, autocarros e bicicletas não é pacífica. “É uma rua feita para carros”, afirma Luísa Sousa, do Mapear, que apesar das poucas vitórias conseguidas desde 2023 pelo colectivo (o parque de bicicletas do Mercado de Sapadores, instalado mas por inaugurar, é uma delas), assegura que vão continuar a pressionar a autarquia, nas reuniões descentralizadas da Câmara, e a Junta de Freguesia, nas assembleias.

Na auditoria externa à rede ciclável da cidade, encomendada pelo executivo de Carlos Moedas no anterior mandato, a Rua Morais Soares surge como uma ligação que já é percorrida por bicicletas, “apesar de as infra-estruturas serem insuficientes e de os utilizadores de velocípedes estarem a ser vítimas de colisões”. Também a ausência de uma ligação ciclável entre a Morais Soares, no Alto de São João, e a zona ribeirinha da cidade é vista como uma “falta de alto nível”.

Rua Morais Soares
Rita Chantre — Rua Morais Soares

Sem bicicletas, mas numa posição que diz ser pelo consenso, a presidente Elisa Madureira reconhece a dificuldade “de algum projecto avançar na Morais Soares”, mas também advoga um carácter de urgência. “É preciso encontrar uma solução”, diz. Como afirma Tiago Mota Saraiva, se “as crianças não podem andar na Morais Soares com nenhum grau de liberdade, os requisitos de uma rua segura não estão cumpridos”. E isso “já não é admissível em nenhuma cidade europeia”.

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