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Esqueça o ponto G e procure o ponto Joy: abriu o primeiro espaço dedicado ao prazer feminino

Longe dos estereótipos das sex shops, o The Joy Spot é muito mais do que um showroom de cosmética erótica e brinquedos sexuais com muita pinta: quer educar para a sexualidade positiva.

Vera Moura
Escrito por
Vera Moura
Directora Editorial, Time Out Portugal
The Joy Spot
Rita Chantre
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Desconfiados, confirmamos mais do que uma vez a morada. Na montra discreta lê-se bem The Joy Spot com letras verdes, mas ao passar a porta do número 13B da movimentada Avenida Defensores de Chaves, no Saldanha, continuamos a perguntar-nos se estaremos no sítio certo. Em vez dos tons pretos e vermelhos, do escuro, da música alta, das prateleiras a abarrotar, das manequins duvidosas com lingerie duvidosa e da overdose de informação sexual a que as sex shops tradicionais nos habituaram, estamos perante um corredor claro e luminoso, cujas paredes têm pequenos círculos em tons pastel.

Alguns têm expostos pequenos objectos, como perfumes e frascos com quadrados de chocolate. Outros têm um furinho por onde nos atrevemos a espreitar. Lá dentro passam vídeos melosamente sedutores – uns lábios femininos comem uma flor, uma mão acaricia um pescoço nu, um pinteiro mergulha satisfatoriamente num frasco cheio de mel. Outros ainda têm buracos maiores e cortinas com uma abertura, a desafiar para enfiar lá a mão, sem medos. Sentimos bolas metálicas frias chocando umas contra as outras, penas suaves, cordas fibrosas ou objectos maleáveis de silicone. A viagem pelo mundo do prazer feminino já começou, embalada por música calma e baixinha, e vai continuar depois de subirmos as escadas ou de descermos ao piso inferior. 

The Joy Spot
Rita Chantre
The Joy Spot
Rita Chantre

Não, esta não é uma sex shop tradicional. Não é sequer só uma sex shop. O The Joy Spot, que abriu sem grande alarido em Julho, mas faz uma inauguração com mais pompa no dia 27 de Setembro, é um espaço que, além de vender cosmética erótica, brinquedos sexuais, roupa e acessórios, quer educar para uma sexualidade informada, sempre do ponto de vista feminino. O que não quer dizer que seja só para mulheres.

"Fazia falta um espaço sex positive, aberto, com luz, com foco no feminino. Quisemos distanciar-nos do que as pessoas associam a uma sex shop e focar-nos no bem-estar e prazer feminino. Mas rapidamente percebemos que devia ser para todos – mulheres, homens, casais monogâmicos ou não, com qualquer inclinação sexual", diz Joana Pereira, uma das fundadoras. A ela juntou-se Julia Pessis, com experiência nas áreas da sexualidade e do trauma, que acrescenta: "Para mim, o prazer é um tema de activismo e o The Joy Spot pode ser uma porta de entrada para chegar a toda a sociedade."

Parece que foi noutra vida, mas até há menos de dois anos, Joana era engenheira de processo industrial. Uma visita à exposição de Marta Crawford, "Amor Veneris – Viagem ao Prazer Sexual Feminino", mudou tudo. "Devia haver, devia haver, devia haver" um lugar como o The Joy Spot, começou a pensar na altura. Não descansou até encontrar uma sócia da área da sexualidade, um espaço físico para acolher as suas ideias, uma arquitecta capaz de materializar o que tinha em mente (Maria Louise Tolstrup foi a escolhida para transformar esta lavandaria industrial nas Avenidas Novas num espaço de formas orgânicas), e um conjunto de marcas e produtos, que vão do auto-cuidado à cosmética erótica e brinquedos sexuais, para compor as prateleiras da loja, pintadas com diferentes tons de pele. 

Mais: Joana e Julia foram juntando ideias de temas e parceiros capazes de ali oferecer experiências diferenciadas aos clientes – das conversas abertas aos workshops sobre os mais diversos temas e performances. “É preciso descentralizar o sexo da penetração, do orgasmo. O prazer é o caminho, pode ser tudo”, desafia Joana. 

The Joy Spot
Rita ChantreAs fundadoras do The Joy Spot, Joana Pereira e Julia Pessis

Lá em cima

"Educativo", "elegante", "divertido" e "bonito" não são os adjectivos mais comuns para descrever dildos, vibradores, plugs anais, anéis penianos ou algemas, mas são os que as fundadoras do The Joy Spot escolhem para falar dos produtos espalhados pelas prateleiras da sala redonda com um sofá bege ao centro, a fazer lembrar uma sapataria sofisticada. A curadoria foi essencial. “Queríamos manter uma certa coerência em todo o projecto e encontrar marcas com as quais nos identificássemos, a nível de estética e de valores”, continua Joana Pereira. 

A Bijoux Indescrets, por exemplo, co-fundada por uma portuguesa, só usa produtos naturais nos seus lubrificantes, séruns para o clitóris, óleos de massagens, tiras para sexo oral ou géis estimulantes de mamilos. Já a marca brasileira Intt oferece propostas descontraídas e surpreendentes como os vibradores líquidos veganos comestíveis.

The Joy Spot
Rita Chantre
The Joy Spot
Rita Chantre

A Biird, dos Países Baixos, e a Iroha, do Japão, trocam os dildos e vibradores tradicionais – fálicos, gráficos, enormes – por objectos coloridos, de design ergonómico, toque agradável e com muita pinta. E a The Relationship Design Game promove a comunicação no sexo com jogos divertidos e provocadores para jogar a dois (ou mais). 

“A ideia, aqui, não é comprar”, esclarece Joana. “É poder ver, experimentar, cheirar, provar. Está tudo online, amanhã chega a casa.” Se a sala principal não for suficientemente confortável, há dois gabinetes que garantem mais privacidade. “Podemos fazer sessões privadas para explorar a oferta. Não há contacto sexual, é mesmo só para experimentar, falar, desmistificar, sempre com a ajuda de uma profissional. Um espaço seguro, sem julgamentos, onde não é preciso ter medo ou vergonha”, garante Julia. 

The Joy Spot
Rita Chantre
The Joy Spot
Rita Chantre

Lá em baixo  

O piso inferior do The Joy Spot mantém a linha minimalista e luminosa do superior, com uma sala ampla preparada para receber as conversas e workshops. “O objectivo é começar sempre com as conversas abertas – de acesso gratuito mas com a possibilidade de fazer uma doação consciente – e depois poder seguir para os workshops essenciais e para os workshops mais intensos e aprofundados”, descreve Joana. As conversas terão a duração de cerca de 40 minutos e os workshops podem ir das duas às oito horas, passando por temas como a anatomia do prazer, a ciência e o prazer, o sexo ao longo da vida, a comunicação no sexo, a espiritualidade e o prazer ou a diversidade e inclusão. 

Estão ainda previstos outros programas, como demonstrações ou performances – de sessões burlescas à arte shibari – nunca chegando à parte do sexo. As cortinas brancas estão distribuídas estrategicamente pelo tecto de forma a poder dividir o espaço em salas mais pequenas para grupos mais restritos.

The Joy Spot
Rita Chantre
The Joy Spot
Rita Chantre

Ao fundo, uma porta dupla abre-se sob marcação: é o espaço do The Joy Spot dedicado ao kinky e ao BDSM. “Queremos tirar esta temática do escuro, ainda há muitos tabus, muito aquela ideia que isto tem só a ver com dor. Não tem: a dominação e a submissão podem não implicar dor”, esclarece Joana.  

A sala, que pode ser reservada por 10€, convertíveis em compras, tem luzes que podem mudar de cor e uma chaise longue. Podia ser uma galeria de arte, mas aqui estão expostos floggers, vendas, algemas, palmatórias e chicotes. A marca japonesa Liebe Seele domina o espaço com objectos em couro de alta qualidade e a enorme cruz de Santo André em madeira tanto pode servir de inspiração como para experimentar a sensação de estar preso. No The Joy Spot não vale tudo, mas quase. 

The Joy Spot
Rita Chantre

Avenida Defensores de Chaves 13B (Saldanha). Ter-Sáb 11.30-19.30 (sala BDSM sob marcação)

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