Notícias

Esta livraria é um supercontinente de “literaturas do Sul”

Chama-se Gondwana e só tem livros escritos por autores do hemisfério Sul, como o Prémio Nobel da Literatura J. M. Coetzee.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Livraria Gondwana
Fotografia: Rita Chantre/Time Out Lisboa | | Livraria Gondwana
Publicidade

Há mais de 600 milhões de anos, Gondwana era um supercontinente que reunia a maior parte das zonas de terra firme do hemisfério Sul. Agora, é uma livraria no Campo Pequeno. A ideia é de David Gough e Walter DeMirci, que partiram da imagem de uma geografia única para criar um espaço dedicado a autores oriundos desse lado do globo, onde a língua mais falada é o português e há vários laureados com o Prémio Nobel da Literatura. “Muitos dos pontos de vista do mundo vêm do Norte, mas há tantas vozes no Sul que merecem ser ouvidas”, diz-nos David, que nos recebe junto às novidades. Os livros estão dispostos sobre um conjunto de mesas esculpidas em pedra. Se parar para as admirar, perceberá que formam o território que aqui se procura homenagear.

David nasceu na África do Sul e trabalhou muitos anos na área das micro-finanças, numa organização fundada pelo Prémio Nobel da Paz Muhammad Yunus. Walter é argentino e trabalhou duas décadas na área das relações públicas, sobretudo com governos, para o desenvolvimento de turismo sustentável e cultural. Em comum, têm o gosto pela literatura, claro. Conheceram-se em Nova Iorque e estão em Portugal há cerca de cinco anos. A Gondwana é um sonho tornado realidade, e Lisboa, o lugar certo para o viver. “O hemisfério Sul é a nossa casa e Portugal teve uma presença muito forte lá, por isso fazia todo o sentido que fosse aqui, até porque é um facto que o hemisfério Sul está agora muito presente em Lisboa. Para mim é lindo perceber isso”, confessa David.

Walter DeMirci e David Gough
Fotografia: Rita ChantreWalter DeMirci e David Gough

Encontrar a localização ideal demorou quase dois anos. Depois disso, nada foi deixado ao acaso. Além de se evitar desperdício – “é importante porque, se pensarmos na emergência climática, os países do hemisfério Sul são os mais afectados”, alerta Walter –, apostou-se na construção de um “espaço descolonizado”. “A ideia foi não destruir o que já cá estava, que neste caso é a memória da clássica pastelaria portuguesa.”

O conceito de arquitectura é co-assinado pelo ítalo-brasileiro Raffaele Sarubbo, do Studio for Cosmopolitical Models, e o arquitecto Emanuele Migliorisi. Decidiu-se manter a pedra no chão e os azulejos nas paredes para que dialogassem com as restantes estruturas de estética mais industrial, incluindo as estantes de metal e plástico. O destaque, no entanto, vai para o engenhoso sistema criado numa das salas, que permite levantar e manter as estantes suspensas. “A ideia é criar continuidade com o tecto falso.” É difícil de imaginar, mas à partida haverá oportunidade de o ver ao vivo. “Gostávamos de fazer eventos aqui.” Mas já lá vamos.

Livraria Gondwana
Fotografia: Rita Chantre/Time Out Lisboa

Um espaço de encontro e descoberta

A verdadeira viagem começa-se pelo início, à entrada. “Convidamos as pessoas a virar ou à direita ou à esquerda”, explica David, apontando para as estantes de cada lado. As capas estão todas expostas – “as bonitas e as feias” –, para aguçar a curiosidade. Mas, atenção: não há secções nem uma organização evidente. Misturam-se autores vivos e mortos, géneros literários e temáticas. Mariana Enríquez surge ao lado de Adolfo Bioy Casares, por exemplo. São ambos argentinos, mas enquanto Casares já é um clássico, Enríquez integra a chamada “nova narrativa argentina”.

“A ideia é apresentar o livro também como uma obra de arte, e há uma lógica na forma como os livros estão catalogados, mas deixamos à imaginação das pessoas, gostávamos que pensassem sobre isso, que tentassem descobrir a conexão entre os títulos”, acrescenta Walter, antes de nos desafiar a explorar o resto da livraria.

Livraria Gondwana
Fotografia: Rita Chantre/Time Out Lisboa

“Se pensarmos na primeira sala como o início da viagem, esta zona é uma espécie de antecâmara, de ponte”, diz David, que nos guia por um pequeno corredor. Aí, chama-nos a atenção para uma cómoda metalizada à esquerda, onde repousam livros de fotografia – entre eles, obras de Zanele Muholi, artista e activista visual sul-africana, conhecida pela série de auto-retratos Somnyama Ngonyama (“Viva a leoa negra”, em português), recentemente exibida no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto. “É um convite à contemplação. Depois prosseguimos.”

O espaço seguinte é quase tão amplo como o primeiro e alberga novamente duas estantes de cada lado. Entre os destaques estão os livros do escritor sul-africano J. M. Coetzee, Prémio Nobel da Literatura em 2003 e promotor do que chama “Literaturas do Sul”. “Para nós, é uma inspiração.” Por isso, têm toda a sua obra, incluindo títulos ainda não editados em Portugal. A vontade de David e Walter é que, ao mesmo tempo que promovem autores do hemisfério Sul, possam também incentivar à leitura em português. Ainda assim, quando um livro não está traduzido, preferem tê-lo na língua original.

Livraria Gondwana
Fotografia: Rita Chantre/Time Out Lisboa

“O português é a língua mais falada no hemisfério Sul, mas há muitos autores de uma nova geração da África do Sul e do Zimbabué, por exemplo — escritores talentosos de países da África Austral que nunca foram traduzidos e só estão disponíveis em inglês”, lamenta Walter. “Seria bom incentivar as editoras portuguesas a publicá-los. Queremos muito dar voz a estes autores que permanecem desconhecidos fora do mundo anglófono, especialmente escritores negros.” Um deles é Dambudzo Marechera (1952–1987), poeta e ficcionista do Zimbabué. “Mas também autores indígenas. Temos escritores australianos aborígenes que partilham, através da literatura, a experiência do colonialismo.”

Há muito por onde escolher. Se fosse fácil importar, mais haveria. “Importamos alguns livros, porque ainda não estão disponíveis em português, de Portugal ou do Brasil, mas às vezes é difícil, por causa dos custos, e os livros já são caros, não podemos vender um livro a 40€ ou 50€, que seria o preço que teríamos de cobrar”, revela Walter. “Mas é interessante que em Portugal há casas editoriais mais pequenas, independentes, como a Maldoror, que têm títulos de autores menos conhecidos. É muito importante porque tu entras numa livraria de uma cadeia como a Fnac, por exemplo, e a escolha é sempre igual. Infelizmente há muito pouco traduzido de autores da África do Sul, Austrália e Nova Zelândia.”

Livraria Gondwana
Fotografia: Rita Chantre/Time Out Lisboa

As “literaturas do Sul” são muito ricas, asseguram-nos. Destacam sobretudo as mitologias dos povos desse hemisfério, que se reflecte numa imaginação absolutamente fértil. Estão convictos que isso interessa às pessoas, e que a Gondwana poderá ser um local de descoberta. Para isso também irá contribuir a zona de cafetaria ao fundo, que inclui uma modesta esplanada num quintal. Assim que for possível, vão começar a servir café e vinhos. “Não haverá wi-fi, para não incentivar o scroll. Gostávamos que as pessoas conversassem entre si”, admite David. “Acreditamos que existe vontade por parte das pessoas de se desligar, e a ideia é facilitarmos essa intenção.”

A cereja no topo do bolo é estarem perto da Biblioteca do Palácio das Galveias e de outras livrarias, como a Good Company. Não têm medo nenhum da concorrência. Acham, aliás, que é bom sinal, e fazem questão de manter boas relações com outros livreiros independentes. “Estamos numa rota para leitores. Significa que há muitos por aí.

A 20 de Novembro, às 19.00, haverá lançamento de Lo que no vuelve, do argentino Mariano Tomasovic, que é um dos co-fundadores da revista portuguesa Limoeiro Real, também à venda na Gondwana. E, se tudo correr como o previsto, a agenda continuará a surpreender. “Quem sabe traremos até peças de micro-teatro. Faz-se muito na Argentina.”

Livraria Gondwana, Avenida Óscar Monteiro Torres, 40A (Campo Pequeno). Ter-Sex 11.00-20.00, Sáb 09.00-14.00

Notícia actualizada a 7 de Novembro, às 15.43, com nova informação relativa ao lançamento do livro de Mariano Tomasovic.

🎭 Mais cultura: arte, livros, música, teatro e dança em Lisboa

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias
    Publicidade