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Esta peça quer falar sobre isto (e isto é tudo o que podemos perder)

A nova peça de Catarina Sobral fala-nos de palavras e sentimentos, e das palavras que às vezes nos faltam para falar de certos sentimentos. Falámos com a ilustradora.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Mar Bandeira
© Enric Vives-Rubio | 'Perder', de Catarina Sobral
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Como é que falamos sobre coisas grandes com pessoas pequenas? “Com um grande respeito por quem nos está a ouvir. Porque a diferença entre as crianças e os adultos, não é o que elas entendem mas como vêem e experienciam o mundo”, diz-nos a premiada ilustradora Carolina Sobral, que voltou a fazer das suas e criou um novo espectáculo no LU.CA. Em cena entre 6 e 21 de Dezembro, Perder fala-nos, e desafia-nos a falar, sobre o que é isso de perder – ao jogo, claro, é um clássico, mas sobretudo na vida –, e como umas vezes é bom perder, até pode ser uma aventura, e outras vezes é só muito, muito, muito triste. É difícil nomear essas vezes, mas Clarice, a nossa pequena protagonista interpretada por Mar Bandeira, vai tentar.

“Foi um convite [da Susana Menezes, directora artística do teatro] e a ideia para o espectáculo nasceu por causa do que está a acontecer em Gaza, por causa do genocídio [na Palestina]. Comecei a pensar no que poderia dizer às crianças em Portugal quando a vida delas é tão diferente e tão privilegiada, e eu só conseguia pensar nas crianças em Gaza e no que elas estão a perder: pessoas, casas”, partilha Catarina. “Portanto, eu sabia que tinha vontade de falar sobre sentimentos e sobre este abismo entre experiências, porque temos de nos aproximar do resto do mundo, não podemos isolar-nos do que está a acontecer.”

Catarina Sobral
© Enric Vives-RubioCatarina Sobral

As inspirações, essas, são diversas. Catarina – que contou com o apoio à pesquisa de Catarina Hébil – nomeia desde um projecto pessoal engavetado, que falava sobre uma criança migrante, até ao filme O Sítio das Coisas Selvagens e a sua própria experiência do que é ser uma criança e ter sentimentos explosivos, que vão do 0 ao 100 muito rápido. Mais ou menos como acontece com Clarice, a protagonista desta peça, que nos cumprimenta aparentemente animada – diz que vai acampar com a avó e já preparou tudo, até a lanterna para encontrar coisas perdidas no escuro –, mas termina a sua apresentação a nomear a tristeza que, afinal, lá admite, está a sentir.

“As crianças são, provavelmente, o melhor público para histórias de ficção. Havia um autor que dizia que as crianças são quem consegue saltar mais depressa o muro entre a realidade e o faz de conta, e o Mac Barnett, outro autor de livros infantis, diz que elas conseguem mais: conseguem estar com um pé em cada lado ao mesmo tempo, e acho que é isso que faz com que sejam capazes de ouvir qualquer história e entrar nela com toda a sua imaginação e com todo o seu sentido de descoberta, mais do que nós, os adultos. Por isso, é nosso dever – quem produz conteúdos para a infância – mostrar toda a variedade do mundo, porque esconder-lhes uma parte vai fazer com que sintam que os objectos artísticos não mostram o que elas sentem, vêem e sabem que existe, e até fazê-las sentir-se culpadas por verem e sentirem essas coisas.”

Catarina Sobral
© Enric Vives-RubioIlustração de Catarina Sobral

Palavras e sentimentos – e as palavras que às vezes nos faltam para falar sobre certos sentimentos. É disto que Catarina nos quer, no fundo, falar. Para isso, cruza texto e ilustração, e faz mais: brinca com a palavra «perder» e com os diferentes pesos que lhe atribuímos. Perder a paciência não é o mesmo que perder as meias ou o lugar de estacionamento, e perder coisas não é igual a perder pessoas. “A Clarice diz que as coisas grandes não se perdem, mas eu – que sou a sua amiga imaginária, que é o seu próprio fluxo de consciência – mostro-lhe que se podem perder coisas grandes como pessoas e casas”, revela a ilustradora, que se estreou na criação teatral em 2018, com Impossível, um espectáculo sobre a origem do universo.

Pensada para crianças a partir dos quatro anos, esta nova peça dura apenas 35 minutos e inclui música ao vivo, interpretada por Kent Queener, que toca melódica, piano, tambores, serrote e ukelele. “A peça tem várias camadas – eventualmente nem todas as crianças vão perceber o que acontece no final, mas vão entender que ela está triste –, e isso parece-me interessante, porque faz do espectáculo universal e convoca o espectador a tornar a história sua”, remata Catarina Sobral, que destaca ainda “as relações narrativas entre cenário, som e dramaturgia”. “As minhas ilustrações vão estar a ser projectadas no espaço, mas o cenário já não é, como era no meu primeiro espectáculo, bidimensional.”

Catarina Sobral
© Enric Vives-RubioExposição no Piso 1 do LU.CAS

Com autoria e direcção artística de Catarina Sobral e apoio à criação e encenação de Miguel Fragata, Perder conta com música original e sonoplastia de Kent Queener (que também sobe a palco), figurino e cenografia de Maria João Castelo, desenho de luz de Tasso Adamopoulos e interpretação de Mar Bandeira. Depois da temporada em Lisboa, o espectáculo segue para o Porto: estão marcadas sessões para o Teatro Municipal do Porto, entre os dias 15 e 17 de Dezembro, e o bilhete vai custar apenas 2,50€ – no LU.CA fica a 7€ para os adultos e a 3€ até aos 18 anos.

Haverá livro, claro, mas Catarina não sabe dizer quando. “Ainda não o consigo imaginar, porque o texto foi mesmo pensado para palco, então vou ter de adaptar”, explica, antes de desafiar as famílias a ver o espectáculo, mas também a explorar a exposição de entrada livre “Philosophiæ Naturalis da Professora Clarice”, que se encontra no entrepiso e no Piso 2 do LU.CA. “É interactiva. A ideia é que as crianças procurem dez coisas perdidas famosas”, conta-nos Catarina, referindo-se às ilustrações de óculos, meias, comandos da televisão, chaves e até gatos que se escondem dentro das ilustrações de diferentes “habitats de coisas perdidas”, como debaixo da cama, nos bengaleiros, nos passeios e nos caminhos, entre as almofadas do sofá, na máquina de lavar roupa, no caixote do lixo e nos autocarros.

LU.CA – Teatro Luís de Camões (Belém). Peça: 6-21 Dez, Sáb 16.30, Dom 11.30/ 16.30. 3€-7€. Exposição: Até 21 Dez, Seg-Sex 10.00-13.00/ 14.00-17.00, Sáb-Dom 10.30-13.00/ 14.00-17.30. Entrada livre

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