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Este atlas evoca as “criaturas mágicas de Portugal”, das Jãs ao gigante Arraúl

São 71 figuras do imaginário popular português, entre almajonas e zorra berradeira. Falámos com Samuel F. Pimenta, que escreve, e Helena Soares, que ilustra.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal
Ilustração de Helena Soares | Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal
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Não há quem nunca tenha ouvido falar do papão, que se abeira das casas à procura de crianças mal-comportadas, ou do João Pestana, que personifica o sono e se aproxima devagar para trazer sonhos tranquilos, mas e das jãs, dos musaranhos ou do gigante Arraúl? No novíssimo Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal, Samuel F. Pimenta fala-nos destas e de muitas, muitas mais figuras do imaginário popular português, que têm arrepiado e encantado o nosso país ao longo de inúmeras gerações, e que agora ganham vida, também através do traço de Helena Soares, que assina a ilustração. Falámos com os autores, que convidam desde já as famílias a deixarem-se guiar de norte a sul – sem esquecer as ilhas, claro.

“É o meu primeiro livro para a infância”, partilha Samuel, que escreve há mais de dez anos, e também tem estado presente em colectâneas, antologias e obras colectivas, em Portugal e no estrangeiro. “Mas este é um tema com o qual estou bastante familiarizado porque, ao longo do meu percurso, sempre me interessei por mitos, lendas e aquilo que, no fundo, nos chega da tradição oral.” Como prova, dois romances seus – Iluminações de uma Mulher Livre e o mais recente Ophiussa –, têm inspiração no folclore português. “Como fiz bastante pesquisa para esses livros, também me fui deparando com criaturas mágicas, que na verdade já me tinham chegado na infância, porque me contavam histórias.”

Contar-nos histórias – as que lhe contaram quando era miúdo e as que descobriu já adulto – é precisamente o que Samuel se propõe a fazer. A ideia é, explica, que as criaturas de que agora nos fala venham a fazer parte da nossa imaginação e nunca sejam esquecidas. “Temos uma herança muito grande”, assegura-nos, antes de revelar que foi durante a pandemia que se cruzou pela primeira vez com um mapa da Escócia que identificava criaturas mágicas nas respectivas localizações dentro do território. “Achei muito interessante essa ideia, e pensei que poderia fazer semelhante para Portugal, até porque gosto muito de mapas e os atlas foram os primeiros livros com os quais tive contacto.”

Depois de propôr o projecto à Penguin, foi apresentado à ilustradora Helena Soares, que deu vida aos seus textos com um impressionante detalhe. “Fiquei desde logo muito entusiasmada, porque é um tema extremamente rico e inesgotável, muito propício à imaginação e à criatividade – algo que, enquanto ilustradora, me motiva particularmente”, partilha Helena, que também foi responsável pelo processo de design e paginação. “Procurei sempre criar composições abrangentes, quase cenográficas, onde as criaturas não surgem de forma isolada, mas inseridas num mesmo ambiente ou paisagem. Na maioria das duplas, aparecem três ou quatro criaturas e, muitas vezes, foi desafiante conjugar tudo: as diferentes escalas, o texto associado a cada uma, a acção que queria representar e o tipo de ambiente que cada uma pedia.”

Ao todo, são 71 figuras, distribuídas por nove regiões: Norte (12), Centro (12), Oeste e Vale do Tejo (10), Grande Lisboa (7), Península de Setúbal (6), Alentejo (6), Algarve (8), Açores (6) e Madeira (4). Mas atenção, o facto das criaturas surgirem associadas a uma localidade não significa que sejam estritamente daquele lugar, relembra Samuel, que descobriu, durante a sua pesquisa para este livro, que muitas das figuras – como é o caso das mouras encantadas, que tanto podem ser jovens e belas como velhas amaldiçoadas – se dispersam por todo o território português.

“Muita da pesquisa já estava feita, e os bestiários que tinha visto, e que são fantásticos, excluíam algumas criaturas que fazem parte de lendas e são muito próximas da nossa realidade, como um lobo, ou um cervo, ou uma ursa, isto é, animais que estão numa dimensão mais da fábula, do fantástico, mas que não são criaturas imaginárias, como os dragões ou as sereias. E, para mim, era muito claro que eu queria apresentá-las, porque também fazem parte e há histórias maravilhosas sobre elas. Por exemplo, a mula gigante do Cabo da Roca”, revela-nos Samuel, que foi reunindo informação “de fontes literárias [de nomes como José Leite de Vasconcelos, Fernanda Frazão e Gabriela Morais] e fontes orais”.

Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal
DRAtlas das Criaturas Mágicas de Portugal, de Samuel F. Pimenta e Helena Soares

A selecção escolhida poderia ter sido completamente diferente, claro. A principal preocupação foi haver representatividade – “que todas as regiões do país estivessem representadas” –, mas também diversidade. “Queríamos diferentes tipos de criaturas, das mais fantásticas às mais próximas da realidade, das mais mortíferas e assustadoras às mais benéficas e simpáticas”, conta-nos, antes de desvendar que, além do texto visível, “existe outro, que é o texto com as instruções que foram passadas à ilustradora para que pudesse construir a maravilha que, enfim, tem nas mãos.” Do património arquitectónico à fauna e flora, tudo isso foi escrito, partilha.

Para Helena Soares, tendo em conta a complexidade da empreitada, as indicações ajudaram certamente, até porque, apesar disso, teve espaço e liberdade “para interpretar e dar forma a cada criatura”. “Um dos aspectos mais interessantes deste livro é precisamente o facto de nos instigar a imaginar”, diz. “O processo passou, então, por idealizar estas figuras e perceber a sua relação com o território onde habitam.” Por outro lado, houve um trabalho contínuo de pesquisa, com a revisitação de bestiários, enciclopédias e livros dedicados a criaturas específicas, bem como de atlas e mapas ilustrados. “Sendo um livro centrado no território português, estive também atenta a formas de representação como o artesanato popular e a azulejaria, referências que, mesmo de forma subtil, acredito que acabaram por influenciar a construção das composições e das figuras.”

Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal
DRTexto de Samuel F. Pimenta e ilustrações de Helena Soares

Na Grande Lisboa, destaca-se Ofiussa. Metade humana, metade serpente, diz-se que era a rainha da cidade e que ela e as subdítas eram conhecidas por encantar os marinheiros, levá-los para o leito e engoli-los antes do amanhecer. Ulisses foi o único que lhe conseguiu escapar, fazendo-a acreditar que a amava e zarpando antes que ela desse por isso. Claro que Ofiussa ainda o perseguiu, mas felizmente para o herói grego, já era tarde demais. “E do rasto do corpo da serpente, ergueram-se as sete colinas de Lisboa”, assim reza esta história, que em página convive com outras três, incluindo a do Adamastor, gigante da tradição portuguesa, e a das Tágides, ninfas do Tejo celebrizadas por Camões n’Os Lusíadas.

“Eu gosto muito da Boa Hora e da Má Hora, duas mulheres que andam sempre juntas [e que no livro surgem representadas na região Centro]. A Boa Hora anuncia a chegada da Má Hora, para que as pessoas se preparem. Achei fascinante”, admite Samuel, que também gosta muito do gigante Arraúl, associado à criação da Ria Formosa, no Algarve, e poderia ficar horas a falar sobre criaturas mágicas. “São criaturas cultuadas, muito ligadas aos lugares, porque os lugares eram sagrados. Por exemplo, nos Olhos d’Água, que é a nascente do rio Alviela, hoje um dos mais poluídos do país, conta-se que aí vive uma moura encantada que chora. Isto faz-nos pensar que, em tempos, aquela nascente já foi um lugar de culto e hoje está em risco.”

Samuel espera que estas histórias sirvam para desafiar os mais novos, mas também os mais velhos, a olhar melhor para o território. Poderá, porventura, ser também um incentivo a cuidarmos melhor do nosso património natural. E não só. “A partir do momento em que somos convocados para os lugares, somos também convocados para o nosso próprio corpo, para a consciência, para a identidade. E, num mundo assolado pela rapidez das redes sociais, voltarmos ao lugar e ao corpo é um exercício de presença e de escuta activa. Isso dá-nos ferramentas para tomarmos melhores decisões. Quando conhecemos o nosso passado, conhecemos a história das nossas comunidades, dos territórios que ocupamos, das terras em que vivemos.”

Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal
DRPostal ilustrado com um papão

Já nas livrarias, o Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal – cada exemplar inclui um de quatro postais ilustrados, que poderá tentar coleccionar – tem lançamento marcado para 23 de Maio, às 16.00, na Casa do Jardim da Estrela, onde também se vai inaugurar uma exposição de ilustração. Depois disso, há encontro marcado no Porto, a 30 de Maio, às 16.00, na Papa-Livros; na Feira do Livro de Lisboa, a 4 de Junho, em horário a anunciar; e mais tarde em Santarém, de onde Samuel é natural, na livraria Aqui Há Gato. “A exposição – na qual estamos a trabalhar, a Helena está a adaptar algumas criaturas – será itinerante e, portanto, o objectivo é que também circule.”

Helena Soares remata: “É muito emocionante ver o livro finalmente em formato físico e nas prateleiras das livrarias. Agora, o principal desejo é que chegue às mãos dos leitores, de todas as idades, e que possa dar a conhecer, ou reavivar, muitas destas criaturas que fazem parte do nosso imaginário. Gostava que despertasse curiosidade e que contribuísse para manter vivas estas histórias e estes seres, que fazem parte da nossa identidade e do nosso património colectivo. Ao mesmo tempo, há também a expectativa de que o livro chegue às escolas e às bibliotecas, onde pode ser um ponto de partida para explorar o território, a tradição oral e a imaginação.”

Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal, de Samuel F. Pimenta e Helena Soares. Lilliput. 80 páginas. 16,65€

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