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Será que as crianças aí de casa sabem o que é a Constituição? Sara Rodi e Sofia Cardoso explicam tudo num livro que se lê com dados à mão.

A Maria e o João não sabem o que é a Constituição, mas essa palavra “comprida e esquisita” é uma das mais importantes do dicionário. E é isso mesmo que os irmãos vão descobrir quando o exemplar que têm em casa – escondido no sótão, junto de outros livros de capa dura do bisavô – ganhar vida e os sugar, tal como acontece em Jumanji (o original, de 1995, com jogo de tabuleiro), para dentro do ‘Jogo da Constituição Portuguesa’.

Elaborada em 1976, após uma maratona de dez meses e 132 plenários, a Constituição da República Portuguesa faz 50 anos no próximo 25 de Abril. E claro que Sara Rodi e Sofia Cardoso não podiam deixar passar a data em branco. Vai daí juntaram-se para fazer nascer A Constituição Explicada às Crianças, uma introdução adaptada que nos fala de direitos e deveres, mas também de democracia e liberdade, para se ler com dados à mão.
“É um tema sobre o qual, à partida, não me lançaria – foi um convite da nossa editora, Ana Margarida Pinheiro, com quem até então ainda não tinha trabalhado –, mas pareceu-me um desafio interessantíssimo, e comecei logo a pensar como é que poderia ser feito. Acho que muito poucas pessoas conhecem de facto a Constituição e tanto se fala nela hoje em dia”, diz-nos Sara Rodi, com quem nos encontramos na Almedina da Fontes Pereira de Melo, para a primeira apresentação do livro. A seu lado, a ilustradora e designer Sofia Barbosa, que foi essencial na construção dos diferentes jogos incluídos. “Já ilustrava livros e também já tinha ilustrado jogos, mas um livro-jogo foi a primeira vez”, confessa, entre risos. “Foi muito divertido.” E esperam que os leitores sintam o mesmo.
Este é um livro pensado para juntar gerações. A que sabe o que é viver numa ditadura, sem direito a dizer o que pensa ou a escolher quem dirige o país, e a que só conhece uma sociedade democrática, onde todos podem votar, sem distinção de etnia, sexo, religião ou riqueza. É, aliás, por isso que não há páginas de soluções e que muitas vezes o próprio livro convida os mais novos a perguntar aos mais velhos. “A ideia é que se leia em família, em conjunto. É também o que fazem os jogos de tabuleiro, agregam, por norma, à mesa”, reforça Sara. Sofia – que criou dois moldes para dados, que os leitores encontram nas páginas finais, para recortar ou aprender a recriar – acrescenta: “O que queríamos era que fosse lúdico, que despertasse o interesse de maneira envolvente destes temas que podem, à primeira vista, parecer mais chatos.”
Ao todo, o livro propõe sete jogos – há um oitavo, que de forma indirecta incentiva os mais novos a aprender a jogar xadrez –, como uma sopa de letras para aprender os “princípios fundamentais da constituição”, como o “sufrágio universal” e a “separação de poderes”, por exemplo; e palavras cruzadas com conceitos relacionados com a economia portuguesa, como “imposto”, “cooperativa” e “pecuária”.
“Obviamente que comecei por ler a Constituição. Foi a primeira vez que a li do príncipio ao fim. Eu tinha a original, de 1976, e encomendei a revisão mais recente, de 2004, para perceber também o que foi alterado”, revela a escritora. “No livro tentei abordar as grandes questões, porque estamos a falar de um documento com mais de 30 mil palavras e até é mais interessante incentivá-los a procurar qualquer coisa que queiram aprofundar ou criarem diálogo com quem sabe.”
De 1976 até agora, já foram feitas sete revisões à Constituição, que foi originalmente aprovada apenas com o voto contra do CDS e instaurou princípios basilares do actual regime democrático, bem como direitos fundamentais – como o direito à vida, à integridade pessoal, à liberdade de expressão, à habitação, à saúde e à educação. “Foi uma discussão muito interessante e eu acredito que os avós tenham acompanhado, e que o nosso livro possa proporcionar momentos com os netos”, sugere Sara, que destaca a forma como Sofia deu vida à história e incorporou “muitos elementos que os pais e os avós reconhecem como seus”, como detalhes de jornais antigos e jogos como o da Glória. “Não foi imediato, porque às vezes as ideias não são fáceis de traduzir visualmente, mas fomos construindo.”
Depois do lançamento do livro em Lisboa, que decorreu no passado dia 29 de Março, Sara e Sofia têm apresentações a 4 de Abril na Almedina do Estádio da Cidade de Coimbra, e a 18 de Abril na Almedina Braga Centro. Mas esperam que a viagem com A Constituição Explica às Crianças não fique por aqui. Gostavam muito de chegar às salas de aula. “Tenho falado com várias professoras do 3.º e 4.º e, como ando a fazer um doutoramento em Educação, tenho pensado muito no que se pode fazer nas escolas”, conta Sara, sem esconder o entusiasmo. “Nós sabemos que os livros têm o seu caminho próprio, mas por enquanto está a correr muito bem e o que nós queremos, não é que ele seja intemporal, até porque agora corremos o risco de uma nova revisão, mas ajudar a que estejamos todos mais conscientes sobre o essencial da Constituição, consciencializar.”
A Constituição Explicada às Crianças, de Sara Rodi e Sofia Barbosa. Edições Almedina e Minotauro Júnior. 40 pp. 10,90€
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