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A primeira edição do Festival Ecoar acontece nos dias 10 e 11 de Novembro. O programa explora a forma como a língua portuguesa influenciou a cultura angolana.

O Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, vai acolher o Festival Ecoar. A ideia é pôr-nos a pensar sobre a relação entre o português e as línguas e dialectos tradicionais das antigas colónias. Nesta primeira edição, em alusão ao 50.º aniversário da independência de Angola, que se celebra a 11 de Novembro, a programação inclui um painel de discussão com a investigadora americana Marissa Moorman, o professor de línguas nacionais Wayami Sérgio e o músico angolano Victor Gama. “Esta iniciativa estabelece uma ponte entre Angola e Portugal, explorando de que forma a língua portuguesa influenciou a cultura angolana e como as línguas tradicionais estão a ser preservadas, reforçando a importância da língua, tanto na sua forma escrita como falada”, lê-se em nota da Câmara Municipal de Sintra, que apoia a organização do festival, produzido pelo Banga Colectivo.
O arranque oficial está marcado para segunda-feira, 10 de Novembro, mas o lançamento do livro Ecoar acontece antes, no sábado, dia 8, às 18.00, no Hangar, em Lisboa. A obra é uma reflexão sobre identidade, língua e memória no contexto pós-colonial dos países lusófonos e reúne contributos de nomes como Marissa Moorman e Victor Gama, a partir de entrevistas conduzidas pelo Banga Colectivo. “O Banga é fundado por cinco arquitectos e artistas angolanos, sediado entre Luanda e Lisboa”, explica à Time Out Lisboa Yolana Lemos, arquitecta e directora-geral do Festival Ecoar. “Desde 2020, a nossa missão tem sido pensar e reflectir sobre a arquitectura e cultura angolanas. Por estarmos na diáspora, percebemos que as questões que abordávamos eram transversais à lusofonia. Como sempre tivemos uma abordagem transdisciplinar e já produzimos eventos culturais, decidimos ampliar o foco e explorar como as línguas nativas dos países lusófonos se relacionam hoje, num contexto pós-colonial, com o português.”
O primeiro dia do festival começa às 18.00, no Centro Cultural Olga Cadaval (CCOC), com a inauguração da instalação “Universidade da Oralidade”, patente no foyer do segundo piso. “Explora a língua umbundu, falada pelos povos ovimbundu, em Angola, e nasceu de uma conversa com o actual Rei do Bailundo, Tchongolola Tchongonga (Ekuikui VI)”, conta Yolana. “Apesar de o título já não ter o peso político de outros tempos, mantém grande importância social. Essa conversa revelou uma preocupação real com a preservação da cultura angolana e a sua divulgação no exterior. Soube recentemente que será criada uma verdadeira Universidade da Oralidade, um espaço de partilha onde as pessoas do Bailundo poderão ouvir e praticar as suas línguas nativas. A instalação parte dessa ideia e reflecte sobre o umbundu e a sua relação com o português.”
A conversa principal do festival acontece no CCOC às 20.00, com a participação de Marissa Moorman, Wayami Sérgio e Victor Gama. Paralelamente, está também agendada para dia 10 uma oficina de língua kimbundu para crianças, às 16.00, na Escola Rainha D. Leonor de Lencastre. O kimbundu (ou quimbundo) é uma língua bantu falada sobretudo no noroeste de Angola e uma das línguas nacionais do país. “A oficina será dada por Wayami Sérgio, um jovem que aprendeu autonomamente a falar várias línguas nativas e hoje ensina kimbundu”, explica Yolana. “O que temos observado é que muitos angolanos vivem a sua cultura, mesmo na diáspora, mas as gerações nascidas após a independência – especialmente em Luanda – deixaram de falar línguas nativas. Durante o período colonial, quem vivia nos centros urbanos era obrigado a falar apenas português para ter acesso a direitos básicos. Essa separação entre assimilados e não assimilados levou muitos a afastarem-se das suas raízes culturais, um efeito que perdura até hoje. Em Luanda, por exemplo, aprender kimbundu é muitas vezes visto como perda de tempo. É por isso essencial documentar e promover o ensino destas línguas.”
Já na terça-feira, 11 de novembro, o CCOC recebe um concerto de Victor Gama, com participação da cantora Salomé Pais Matos. “O Victor constrói instrumentos inspirados na cultura angolana, mas com uma visão contemporânea e o uso de tecnologias actuais. Além disso, tem um projecto notável que mapeia artistas que ainda cantam nas suas línguas nativas em Angola”, partilha Yolana, que destaca ainda o mapeamento que está a ser feito dos artistas e comerciantes em Sintra que promovam a cultura angolana, como o restaurante Pitéu da Sogra e a modista OlloArt. “Estamos a tentar identificar estas pessoas porque sentimos falta de um espaço, sobretudo digital, onde esses projectos possam ser encontrados”, diz Yolana. “O nosso objectivo é dar visibilidade ao trabalho destas pessoas. Por exemplo, se quisermos encontrar um artesão que faça esculturas relacionadas com Angola, vamos ao Google e não encontramos nada, não há nada facilmente acessível online. Queremos reunir tudo num único site, para que seja mais simples descobrir e divulgar.”
A entrada é livre, mas a participação em algumas actividades exige inscrição prévia, no respectivo formulário, disponível no site do festival. “Nesta edição, focamo-nos na ponte cultural entre Angola e Portugal, mas queremos alargar o debate a outros países da lusofonia”, conclui Yolana. “Sabemos que, no caso angolano, as línguas nativas perderam espaço na diáspora, mas entre os cabo-verdianos, por exemplo, acontece o contrário: as línguas locais mantêm-se vivas. É um tema com muitas camadas e um enorme campo por explorar. É também um grande desafio, porque durante anos foram ensinadas a substituir a sua identidade por outra e, de repente, percebem: ‘se calhar não, se calhar temos de lutar por uma identidade própria’. Às vezes penso que só há 50 anos é que Angola é independente – a minha mãe viveu no contexto colonial até aos 18 anos. São questões muito recentes e acredito que a cultura e a arte têm um papel fundamental nisso, através da música, por exemplo”, diz. “Esperamos que esta primeira edição tenha sucesso e que o Ecoar possa crescer nos próximos anos.”
Festival Ecoar. Núcleo central: Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra. 10-11 Nov, Seg 18.00, Ter 20.00. Entrada livre, sujeita à lotação do espaço
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