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Fotografia Triunfo, no número 69 da Rua do Poço dos Negros, é uma das últimas casas do género em Lisboa. Vai fechar portas em Abril, por pressão do senhorio.

"Aos meus clientes e amigos, é com muita tristeza que passo a dar esta informação: a Loja com História vai deixar de fazer parte da história de Lisboa." Assim começou por anunciar Adriano Filipe, nas redes sociais, o fecho da Fotografia Triunfo, loja fundada em 1952, onde trabalha desde os 12 anos e que gere há cerca de 40. Podemos sempre corrigi-lo, alegando que o estúdio de fotografia por onde passaram figuras como a poeta Natália Correia, o ex-primeiro ministro António Costa, o escritor Mia Couto, o ex-deputado João Semedo ou o actor Henrique Santana será sempre parte da história da cidade. Mas não viverá de novos capítulos, uma vez que Adriano Filipe apronta-se para encerrá-la de modo definitivo. "Fico até ao final de Abril, mas na última semana já vou estar de portas fechadas, a arrumar e a organizar tudo", conta à Time Out.
O fecho prende-se com a pressão, "já há algum tempo", por parte do senhorio para que o fotógrafo abandone o espaço. Proprietário de todo o número 69 da Rua do Poço dos Negros, consta que se desfez dos andares superiores "e agora também quer fazer negócio" com o rés-do-chão. O mesmo foi acontecendo, nos últimos anos, a vários prédios vizinhos, de onde desapareceram lojas de electrodomésticos ou mercearias, para dar lugar a "espaços de comida e bebida modernos", sobretudo. "Moradores antigos já há muito poucos", atesta Adriano Filipe, que pelo Natal até colocou os retratos de alguns deles nas montras, com o intuito de gerar conversa na vizinhança. "Alguns ainda vieram cá dizer: 'Olha, fulano tal. O que é feito dele?' Sempre conversei com as pessoas do bairro, foi uma vida aqui", relata o fotógrafo.
Adriano Filipe tem 76 anos, está reformado, mas continuou na Triunfo "por gosto". Quando se iniciou na casa, trabalhava para o seu fundador, Américo Tomás da Silva, até assumir a liderança do espaço. Pelo meio, em 1966, tirou a carteira profissional pelo Sindicato Nacional dos Tipógrafos, Litógrafos e Ofícios Correlactivos do Distrito de Lisboa, organismo entretanto extinto. Na parede da Triunfo, lá está a cédula número 24768, a atestar a profissão – fotógrafo – e as especialidades – operador e retocador. "Hoje já não há nada disso. E os estúdios de fotografia como este estão a desaparecer. Sem contar com as casas grandes, devo mesmo ser o último", acredita.
Não fossem a pressão e a proposta do senhorio e na Triunfo continuar-se-ia a fotografar até 2027, ano até ao qual a loja estaria protegida contra despejos ou aumentos de renda pelo programa Lojas com História. Adriano Filipe não ficaria "muito mais tempo" e os dias do estúdio, apesar de tudo, estavam contados. Descendentes interessados em ficar com o negócio não existem. Os filhos "até percebem de fotografia" – "passaram cá muito tempo comigo" – mas tiraram os seus cursos superiores e seguiram outras áreas. Ao mesmo tempo, os estúdios de bairro entraram em decadência, desde que as fotografias oficiais passaram a ser tiradas em locais como as Lojas de Cidadão ou embaixadas e desapareceram das escolas, ao mesmo tempo que aumentou o poder de compra, que apareceram as câmaras digitais e os telemóveis.
"Há uns anos isto era uma área onde havia muita concorrência mesmo. Havia estúdios na Calçada do Combro, no Bairro Alto, na Calçada da Estrela, muita coisa aqui à volta. Todos os anos, em Setembro, era uma correria para tirar as fotografias dos miúdos para a escola. Isto, no fundo, era um serviço de que toda a gente precisava." Até a Assembleia da República, cliente fiel da Triunfo muito pela proximidade, o que justifica a quantidade de fotografias de políticos no arquivo. "A Natália Correia vinha aqui mas reclamava muito da rua, que era difícil de caminhar. Depois sentava-se ali, a fumar a sua cigarrilha, enquanto eu tratava das fotos", recorda Adriano Filipe.
Para lá do balcão, uma porta leva até ao estúdio onde ainda pendem sobre o tecto os vários cenários utilizados nos retratos individuais ou de família, do clássico azul-céu ao "florestal". Perto das fotos tipo-passe ampliadas do jovem António Costa ou do antigo deputado do Bloco de Esquerda João Semedo, há um bebé nu emoldurado. Nas vitrines, estão em exibição várias câmaras fotográficas, que aqui chegou a viver um mini-museu em construção. No móvel do balcão, estão os álbuns onde Adriano Filipe guardou os retratos de gente que o acompanhou ao longo de décadas. "Estas vou levar comigo. São pessoas que vi crescer", diz. Já o restante arquivo, com milhares de negativos (incluindo o espólio da extinta Lusart, que ficava no Corpo Santo e que foi comprado por Adriano Filipe aquando do fecho da casa), câmaras e outro aparato fotográfico, será vendido.
"É claro que tenho pena [de fechar a Triunfo]. Foi uma vida aqui. Mas tinha de ser, tem de se andar para a frente", remata Adriano, depois de 64 anos a fotografar gente na Rua do Poço dos Negros.
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