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Com o número de opções para viajar sem voar a aumentar, testámos o mais recente autocarro-cama de luxo da Europa, o Twiliner.

Quando alguém me pergunta quanto tempo vou demorar a chegar à Suíça esta semana, respondo: cerca de 35 horas. A reacção, compreensivelmente, é de absoluto espanto.
Desde a idade de ouro dos voos low cost, viajar para o estrangeiro para uma escapadinha urbana tornou-se muito mais acessível e rápido. Fazer o que estou a fazer agora, reservar dias só para chegar ao destino, está a voltar a estar na moda, mas continua a provocar muitos olhares de estranheza. A slow travel é, claro, impulsionada por uma maior consciência da pegada de carbono e do impacto do turismo excessivo, mas também passa por viver mais experiências durante o percurso. A minha viagem até à Suíça, que envolve um comboio, um ferry nocturno e uma viagem no novo autocarro-cama de luxo da Europa, sem falar em paragens em várias cidades, é prova disso mesmo.
A primeira etapa é um comboio Transpennine Express de quatro horas, da minha casa em Liverpool até Newcastle. Tecnicamente, é na direcção errada em relação ao destino final, mas vou até North Shields para apanhar o ferry Newcastle-Amesterdão, um clássico da slow travel entre o Reino Unido e a Europa. Enquanto o Eurostar recebe toda a atenção, para muita gente do Norte de Inglaterra e da Escócia o custo de ir até Londres ultrapassa largamente qualquer tempo perdido na travessia nocturna de 15 horas, promovida como um mini-cruzeiro.
Ao entrar a bordo deste gigante, percebe-se facilmente como pode servir de cruzeiro de iniciação para muitos. O serviço diário no Mar do Norte tem cinema, bar, discoteca, lojas duty free e música ao vivo. A partida é às 17.00, hora do Reino Unido, o que dá tempo para se instalar, explorar, jantar num dos dois restaurantes, beber um copo e ir dormir nas cabines pequenas mas funcionais.
O ferry atraca em IJmuiden, nos arredores de Amesterdão, às 9.30, e a DFDS oferece aos passageiros um shuttle directo até ao centro da cidade, com paragem mesmo à porta da estação central. Na minha travessia, particularmente agitada, havia muitos rostos esverdeados, já que o ferry estava mais cheio do que o habitual devido ao mau tempo em Amesterdão. Ainda assim, essa é outra vantagem dos ferries: enquanto Schiphol e várias linhas ferroviárias pararam, o ferry do Mar do Norte continuou imperturbável.
Ao chegar ao centro de Amesterdão, coberto de lama, gelo e neve das tempestades de início de Janeiro, apanho o ferry gratuito para Amesterdão-Noord para fazer check-in no elegante e sustentável Bunk Hotel. Instalado numa antiga igreja, é um sítio singular, no coração do bairro trendy de Amesterdão-Noord.
Depois de um dia e meio a explorar cautelosamente Amesterdão por ruas empedradas escorregadias, continuo a minha odisseia sem avião a bordo dos novos autocarros-cama Twiliner. Muito longe dos autocarros desconfortáveis a que estou habituada, estes sofisticados veículos de dois andares, com apenas 21 lugares, têm assentos reclináveis até ficarem completamente horizontais, ao estilo da classe executiva. Foram concebidos por fornecedores da indústria da aviação, especificamente pensados para conforto, flexibilidade e segurança em estrada.
De momento, só existem duas rotas. Uma liga Zurique a Barcelona, via Girona, e a que experimentei vai de Amesterdão a Zurique, passando por Roterdão, Bruxelas, Luxemburgo e Basileia. Pensado para oferecer transporte confortável através da Europa a quem não quer voar, o Twiliner entrou no mercado em Novembro como uma alternativa premium, ao estilo classe executiva, aos autocarros de longa distância. Pense num comboio-cama, mas sobre rodas.
Os bilhetes rondam os 150 francos suíços (cerca de 163 euros) por trajecto. Não é barato, mas fica muito abaixo do que se pagaria por uma viagem de luxo de comboio na Europa. Segundo o co-fundador e CEO Luca Bortolani, o Twiliner é sobretudo sobre viajar com conforto e ter espaço para dormir bem enquanto se está em movimento, algo que, diz ele, não devia ser considerado um luxo.
Embora seja verdade que os autocarros Twiliner não tenham todas as mordomias de um voo em classe executiva, contam com comodidades impressionantes a bordo. Chá, café e água engarrafada gratuitos, um mini-frigorífico com vinho, cerveja e refrigerantes, snacks disponíveis via QR code, wi-fi fiável e tomadas USB em cada lugar. Há ainda um compartimento escondido para os sapatos debaixo do assento da frente, para manter tudo arrumado.
Mal me sento, começo a carregar nos botões. A reclinação do assento pode ser interrompida em qualquer ponto até atingir a posição totalmente horizontal. É preciso tirar as malas do chão para não serem empurradas pelo apoio de pés que se eleva automaticamente, mas fora isso, a transição é fluida.
À entrada, também nos dão um saco com roupa de cama para tornar o assento ainda mais confortável quando chega a hora de dormir. Para me preparar, vou até ao vestiário. Sim, este autocarro tem um vestiário, separado da casa de banho, e ambos os espaços estão equipados com produtos de higiene premium. Não se encontra isto num Megabus.
Dormir deitado com cinto de segurança não é isento de desafios. Por motivos de segurança, há ainda um saco de dormir adicional, uma espécie de saco em rede que se prende aos encaixes do cinto e chega até às canelas. É preciso algum jeito para encontrar a posição ideal entre o saco, o apoio de pés e o cinto. Com um metro e 55 centímetros de altura, estou no extremo mais baixo do espectro dos passageiros.
Ainda assim, depois de algum contorcionismo inicial, adormeço. O movimento constante das principais auto-estradas europeias acaba por embalar, embora acorde sempre que chegamos a novas cidades. As paragens nos semáforos e as curvas apertadas não ajudam quem tem sono leve. Apesar disso, acordo ao som do despertador já nos arredores de Zurique, sentindo-me descansada.
No que toca a transportes nocturnos, este é, como Luca pretendia, um modo confortável e espaçoso de viajar. Pode não ser a opção mais barata, mas com bagagem de mão e de porão incluídas de forma standard, e a possibilidade de acordar noutro país de forma ecológica e bem descansada, isto pode muito bem ser o futuro do transporte sustentável na Europa.
Rebecca Crowe viajou como convidada da Transpennine Express, DFDS, Bunk Hotel e Twiliner.
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