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Não era um concerto de rock, mas fez muito barulho. Com novos talentos que procuram definir o futuro da modalidade, a WWE provou que o interesse dos portugueses está longe de ser uma moda passageira.

Em 2025 publicámos um artigo a explicar porque é que o Wrestling é outra vez fixe. Esta quarta-feira, 3 de Junho, tivemos mais uma confirmação: estamos perante algo mais do que uma moda passageira. A MEO Arena recebeu fanáticos e curiosos e transformou-se no epicentro de uma energia electrizante que há muito não se sentia em solo nacional. Bastava chegar perto dos corredores da sala de espectáculos para ouvir gritos ensurdecedores e pés a bater que faziam todo o espaço tremer. Não, não era um concerto de metal ou de uma estrela pop. Foi assim que Portugal recebeu a maior empresa de entretenimento desportivo do mundo, a WWE, que já não visitava Portugal há nove anos. O produto que agora apresenta está substancialmente diferente – já lá vai o tempo de John Cena e Batista a dominar os ringues –, mas o público, embora um pouco nostálgico, mostrou que tinha muito interesse em ver os lutadores do futuro e provar que a paixão por este desporto nunca desapareceu, gerando ao longo de toda a noite um ruído ensurdecedor, comparável ou superior ao de um grande concerto de rock.
Os tempos mudaram drasticamente desde a última visita da comitiva a Lisboa, que ainda contava com lutadores como Triple H e AJ Styles, entretanto reformados (o primeiro até acabou por se tornar director de conteúdo da empresa).
Uma das maiores provas desta mudança é o espaço e o destaque hoje concedidos à divisão feminina. Onde outrora víamos combates curtos e a um menosprezo a estas atletas, hoje assistimos a autênticas batalhas e estrelas que definem o rumo da modalidade. O combate feminino foi responsável por inaugurar a noite e opôs as Fatal Influencer, trio composto por Jacy Jayne, Fallon Henley e Lainey Reid, às carismáticas Rhea Ripley, actual campeã da WWE, Charlotte Flair e Tiffany Stratton, detentora do título dos Estados Unidos. As três saíram vencedoras, mas foi Rhea Ripley quem se assumiu como a verdadeira protagonista da noite. Ovacionada de pé, a lutadora recebeu uma das maiores reacções de todo o espectáculo.
Apesar de ter sido o único combate feminino da noite, com talentos como Iyo Sky, Becky Lynch, Liv Morgan ou Sol Ruca a ficarem de fora dos planos, foi uma boa amostra de como os tempos estão a mudar.
A renovação do plantel da WWE tem estado em grande evidência nos últimos tempos, especialmente após a reforma de atletas como John Cena, Goldberg, o acima mencionado AJ Styles, ou o afastamento de nomes como Asuka e Brock Lesnars. Uma vaga de novos talentos esteve presente em peso a demonstrar a sua agilidade e técnica, sendo bem recebidos pelo público de Lisboa, que levava a lição bem estudada, conhecendo os cânticos de entrada até dos atletas mais recentes.
Num desses momentos, o jovem Je'Von Evans enfrentou Ethan Page num combate que colocou frente a frente a agilidade pura contra a técnica refinada. Ambos os lutadores foram recentemente chamados para o plantel principal da WWE, depois de anos a conquistar fãs e a ganhar experiência na NXT (programa televisivo da empresa de luta livre destinado para lutadores mais jovens desenvolverem as suas capacidades). Evans, que impressiona pelos seus ataques aéreos e é apontado como um dos grandes nomes do futuro da empresa, conquistou a vitória em Lisboa e celebrou com os fãs, empunhando a bandeira de Portugal.
Também Carmelo Hayes e Trick Williams mereceram uma recepção calorosa num combate renhido de ameaça tripla pelo título dos EUA, que envolveu ainda Sami Zayn. Trick Williams – que despertou uma das reacções mais efusivas com os fãs a acompanharem a sua música de entrada com “Whoop that Trick” – saiu vitorioso, mas "Melo" provou ser altamente subestimado, arrancando muitos aplausos e demonstrando que o público luso sabe apreciar a qualidade no ringue.
Faltou apenas trazer um grande trunfo para o futuro da empresa: Oba Femi, lutador nigeriano de 1,98 metros e que é apontado como a próxima grande estrela da WWE.
O resto do alinhamento da noite dividiu-se entre grandes batalhas, mas também momentos de puro entretenimento e comédia.
O título Intercontinental esteve em disputa entre dois lutadores de sangue mexicano: o campeão Penta e Dominik Mysterio, que, apesar de ser filho do adorado luchador Rey Mysterio, é um dos atletas mais arrogantes e apupados da actualidade. Com um ambiente absolutamente louco, a arena uniu-se em cânticos de apoio a Penta, que acabou por vencer o combate com um Mexican Destroyer. No final, visivelmente emocionado, declarou ao microfone: "A minha casa é o México, mas agora também é Portugal".
O popular LA Knight derrotou Austin Theory, colega de equipa de Logan Paul, seguido pelo confronto entre Solo Sikoa e Damian Priest, combate vencido pelo último, mantendo a tendência de os “bonzinhos" vencerem todos os combates.
O momento mais cómico e teatral da noite ficou reservado ao combate entre The Miz e Danhausen. Miz, que nem sempre recebe o respeito merecido pela sua longa carreira, tentou assumir o papel de vilão insultando o público (em português), afirmando que "odeia Portugal" e acusando os fãs de serem "E+estúpidos". Numa exibição curta, mas extremamente eficaz da faceta mais divertida do wrestling, Danhausen acabou por "amaldiçoar" Miz e arrecadar a vitória para delícia dos fãs.
A brutalidade subiu de tom no Lisbon Street Fight que opôs Bron Breakker à lenda Seth Rollins. Os fãs dividiram-se entre ladrar em apoio a Breakker e cantar a plenos pulmões a icónica música de entrada de Rollins. O combate rapidamente se transformou num caos, com os atletas a lutarem por todo o lado da arena, utilizando cadeiras e até um kendo stick. A plateia pedia mesas e Rollins tratou de trazer este “arsenal” para o ringue. A dada altura, Theory tentou interferir, mas, no clímax da luta, Rollins conseguiu esquivar-se e Breakker acabou por projectar o seu próprio colega através de uma mesa, permitindo a vitória a Seth Rollins.
O evento principal trouxe a disputa pelo Título Indisputável da WWE entre o campeão Cody Rhodes e o temível Gunther. A MEO Arena perdeu a cabeça por completo assim que ecoaram os primeiros acordes da música de Cody, cantada em uníssono por milhares de vozes. Gunther apresentou-se na sua forma mais física e bruta, castigando o campeão. No entanto, num final polémico, Cody Rhodes aproveitou o facto de o árbitro estar inconsciente no chão e atingiu Gunther com o próprio cinto do título na cabeça, garantindo a contagem de três assim que o juiz recuperou.
Apesar da vitória controversa, a festa foi de arromba. Cody convidou uma fã que trazia a cara pintada como Stardust – uma antiga personagem caricatural que Rhodes usou no passado e que motivou a sua saída da WWE, mas que ali foi recordada com carinho e respeito – para o ringue e ofereceu-lhe um cinto personalizado, aceitando em troca uma bandeira de Portugal.
Com o microfone na mão e perante uma ovação monumental, Cody Rhodes lançou o desafio final. "Quero que o Triple H e o Nick Khan [CEO da WWE] vejam isto. Querem que a WWE volte a Portugal? E com um espectáculo maior? Então façam o máximo de barulho que conseguirem!". Os fãs responderam com (ainda mais) gritos ensurdecedores. Antes de deixar o microfone, o campeão deixou uma promessa: "Não vai ser a última vez que me vão ver".
Depois do que se viveu em Lisboa, parece claro que o wrestling não só recuperou o seu espaço em Portugal, como deixou a porta aberta para um regresso muito breve, quem sabe com um evento transmitido para todo o mundo. Basta saber se o campeão e companhia vão manter a sua palavra.
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