O novo filme do iraniano Jafar Panahi, Foi Só um Acidente, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o que o tornou num dos poucos realizadores a ter vencido os três mais importantes festivais de cinema do mundo, Berlim, Veneza e Cannes, juntando-se assim a Robert Altman, Michelangelo Antonioni e Henri-Georges Clouzot. Por ter produção francesa, a fita vai representar a França na candidatura à selecção do Óscar de Melhor Filme Internacional. Depois de ter estado preso entre 2022 e 2023, Panahi viu recentemente o governo iraniano levantar a proibição de rodar filmes (embora nunca tenha deixado de os fazer, clandestinamente) e de viajar, mas disse numa entrevista antes da estreia mundial de Foi Só um Acidente em Cannes, que continuava a trabalhar em segredo e com “uma equipa e um elenco muito reduzidos”.
Foi Só um Acidente apresenta-se como o filme mais explícito, mais “militante” e mais indignado de Jafar Panahi contra a teocracia que governa o Irão, e ao derrube da qual, inclusivamente, o realizador de O Círculo, Táxi e Aqui Não Há Ursos apelou, durante o Festival de Cannes. Rodado com um elenco quase totalmente composto por actores não-profissionais, o filme centra-se em Vahid, um mecânico que julga reconhecer, num homem que atropelou um cão quando seguia de carro com a família e vem à sua garagem pedir para reparar o veículo, Eqbahl, o seu torcionário da altura em que esteve preso, e que o deixou em sofrimento físico permanente. O ranger da perna postiça do homem, um som de que nunca mais se esqueceu, fez com que Vahid o identificasse.
O mecânico mete-se na sua carrinha, segue o homem, ataca-o e rapta-o, rumando para uma zona desértica onde pretende enterrá-lo vivo, como vingança de todos os horrores que ele lhe fez passar. Só que o raptado diz que não é o torcionário, que não faz a menor ideia do que Vahid está a dizer ou de quem está a falar, que perdeu a perna num acidente recente e não na guerra na Síria, como sucedeu a Eqbahl, que tem uma mulher grávida, quase a dar à luz, e uma filha pequena às quais tem que prover, e que nunca fez mal a ninguém. A dúvida começa a assaltar Vahid, que tem então uma ideia para conseguir a identificação definitiva daquele indivíduo que prendeu, vendeu, meteu numa cova e está já parcialmente coberto de terra.
Pega então nele, mete-o de novo nas traseiras da carrinha e regressa a Teerão, onde contacta um amigo, um livreiro ligado à oposição ao regime que esteve preso com ele e também sofreu às mãos de Eqbahl. Este recusa identificar o homem e está contra a vingança pensada por Vahid, mas indica-lhe uma amiga que também foi torturada por aquele, Shiva, uma fotógrafa. Esta está a fotografar um casal que vai contrair matrimónio dentro de dias, e a noiva, Goli, esteve igualmente presa e foi seviciada por Eqbahl, mas nenhuma das duas arrisca uma identificação sem a menor dúvida. Vão então todos na carrinha, mais o aflito noivo, à procura de outra pessoa, Hamid, que esteve também na situação deles.
Hamid, que ferve em muito pouca água, perde a cabeça quando vê o sequestrado, que para ele é Eqbahl sem a menor dúvida, e quer fazer justiça pelas suas próprias mãos, chegando mesmo a tentar fugir com a carrinha de Vahid. A confusão e a discórdia instalam-se entre o pequeno grupo, tanto mais que o raptado continua a negar peremptoriamente ser Eqbahl e a rogar que o libertem e devolvam à família, que deve estar já preocupada com a sua prolongada ausência. As coisas complicam-se ainda mais quando Vahid atende uma chamada no telemóvel do homem. É a filha pequena dele, a chorar e em pânico, a chamar pelo pai e a dizer que a mãe desmaiou, não dá acordo de si e o bebé pode estar para nascer. O que fazer? Ignorar o apelo da menina, ou ir ajudá-la e levar a mãe para o hospital?
Tendo uma acentuada dimensão de farsa negra, de tragicomédia crescentemente desesperada, Foi Só um Acidente é um filme cheio de raiva, de dor e de revolta, como nunca antes se viu antes numa realização de Jafar Panahi. E que são não só a raiva, a dor e a revolta do cineasta, como também representam a raiva, a dor e a revolta do povo iraniano em relação ao opressivo regime dos mollahs. Através do dilema moral posto a Vahid e ao pequeno grupo que o acompanha – arriscarem matar um inocente para satisfazerem o desejo de vingança e ficarem para sempre com a dúvida na consciência, ou tornarem-se tão cruéis e desumanos como o torcionário, no caso de se confirmar que o homem é mesmo Eqbahl e o eliminarem –, Panahi reflecte sobre a possibilidade do perdão a quem nos faz mal, e a legitimidade da vindicta. Um dilema que fica no ar mesmo até ao último plano de Foi Só um Acidente.
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