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Prestes a celebrar dez anos de carreira no Coliseu dos Recreios, os Ganso juntaram-se à conversa com a Time Out para falar sobre o percurso da banda até agora, o fenómeno no TikTok, a Cuca Monga e como se vêem daqui para a frente.

Dez anos depois de terem começado como um projecto entre amigos, com ambições que não iam muito além de tocar em pequenas salas lisboetas, os Ganso preparam-se para subir ao palco do Coliseu dos Recreios, naquele que vai ser um dos seus maiores concertos de sempre. É o culminar de uma década de carreira. Pelo caminho, a banda foi construindo uma discografia marcada pela constante evolução sonora, sucessos inesperados nas plataformas digitais e uma relação próxima com um público que se tem renovado entre gerações. Entre memórias dos primeiros espectáculos, várias reflexões sobre a transformação da cena musical lisboeta e pistas sobre o futuro da banda, o vocalista João Sala, o guitarrista Miguel Barreira, o baixista Gonçalo Bicudo e o baterista Diogo “Horse” Rodrigues (o teclista Luís Ricciardi não esteve presente) revisitam o percurso do grupo e falam sobre o que ainda está para vir.
Esta entrevista surge a propósito do vosso concerto que pretende celebrar dez anos de carreira. Na altura, quando começaram a banda, pensavam que ia durar tanto?
Gonçalo Bicudo: Há dez anos, era um cenário que nem nos passava pela cabeça. Nessa altura, só ir tocar ao Musicbox já era uma grande loucura e motivo para celebrar.
João Sala: Fazíamos planos de três meses em três meses. Não havia ideia daquilo que era uma carreira.
Agora, preparam-se para ir actuar ao Coliseu. Como é que isto vos faz sentir?
JS: É algo que me deixa muito contente, especialmente, porque estamos a celebrar a nossa longevidade. É complicado uma banda durar tanto tempo. Este tipo de projectos têm um prazo de validade mais curto do que artistas a solo. É algo que envolve conjugar os horários e vidas pessoais de várias indivíduos. Claro que o Coliseu é uma sala histórica, mas saber que atingimos este marco é algo que tem mais impacto em mim.
Quão diferente é Lisboa e a sua cena musical comparando quando começaram?
JS: Está completamente diferente. Hoje em dia, tirando espaços como a Casa Capitão – que é uma lufada de ar fresco na cidade – tens poucos sítios onde possas tocar. Mesmo no caso das bandas mais pequenas, é complicado conseguirem subir a um palco. Tens espaços como o Bota ou o Tóquio, mas são cada vez mais escassas.
Miguel Barreira: Em cada três salas que perdes aparece uma.
JS: Exacto. Há muito menos. Quando começámos, em 2015, fizemos uns quatro concertos em Lisboa, no mesmo mês, em salas diferentes. Hoje, isso é quase impossível de se fazer. Portanto, mudou para pior.
Um dos vossos primeiros concertos foi a abrir para a lendária banda de rock psicadélico brasileira Os Mutantes. Como é que foi para uma banda que estava a dar os seus primeiros passos actuar com um grupo tão importante?
JF: Foi incrível. Ouvia muito os Mutantes na altura, por isso, foi especial. Foi um dos primeiros concertos em que fomos uma banda de abertura...
MB: E a primeira vez que actuámos ao lado de uma banda tão grande [risos].
JF: Este concerto aconteceu num espaço que já não existe, que era o Armazém F. Tinha boas condições, comparado àqueles a que costumávamos ir tocar. Foi uma óptima experiência, mas, na altura não tive tanta noção do privilégio que era estar ali. Hoje em dia, estaria muito mais borrado para abrir para Os Mutantes [risos].
Houve algo que vos tenha ficado na vossa memória?
MB: Eles foram muito queridos e simpáticos. Sabiam, claramente, que estávamos a começar e éramos verdinhos, mas foram muito generosos connosco. Estivemos sempre com eles no backstage, depois do concerto. Não tinham a postura arrogante de algumas bandas grandes que se fecham nos camarins. Ainda tirámos fotografias com eles e bebemos umas cervejas.
JS: Até os adicionámos no Facebook e, todos os anos, costumávamos trocar mensagens de parabéns.
Estávamos a falar sobre como Lisboa mudou ao longo destes dez anos, mas os próprios Ganso também mudaram. Por exemplo, entre o Costela Ofendida e o Vice Versa existe uma diferença de som, de postura, de seriedade. Qual é que consideram ser as principais diferenças da banda actualmente em relação a quando começaram?
JS: Diria que é o nosso empenho e a nossa vontade de garantir que está tudo o melhor possível. Agora somos muito mais perfeccionistas e o nosso método enquanto amigos, pessoas e bandas está muito mais oleado e permite-nos fazer coisas melhores.
MB: E sim, existe uma mudança de tom. Na forma de escrever músicas e na lírica utilizada pelo João.
JS: Quando comparamos o Costela Ofendida e o Vice Versa, há uma mudança grande. É a diferença entre ter 20 e 30 anos. As coisas mudam em todos os sentidos.
MB: Sim, tu tinhas 19 anos quando fizemos o Costela Ofendida.
Sente que agora tem mais vergonha de fazer, por exemplo, um rap em cima de palco?
JS: [Risos.] Não, aliás, até fiz há pouco tempo – não com Ganso, foi com Zarco, no Alive.
São tempos diferentes. Na altura, estava mais em voga aquele revivalismo do rock psicadélico. Agora, há um panorama completamente distinto.
Diogo “Horse” Rodrigues: Acho que nunca nos interessou muito repetir o que os outros estão a fazer. Interessou-nos sempre mais quebrar e experimentar coisas diferentes. Ainda gostamos de discos que gostávamos na altura, tal como Os Mutantes, mas é mais interessante fazer coisas novas e não nos repetir. Às vezes, estamos a tocar coisas antigas e é... uma seca [risos]!
JS: Houve uma grande diferença. Nós gostamos sempre de ir mudando de som em relação ao disco anterior. Se calhar o primeiro álbum, Pá Pá Pá, estava mais colado ao Costela Ofendida, mas depois fizemos o Não Tarda, que se distanciou, e o Vice Versa igual. Agora, fizemos dois singles que também já estão a mostrar uma diferença renovada.
GB: Gostamos de comprar instrumentos diferentes e adoptar uma nova atitude em cada um. Isto ajuda-nos a progredir. Assim que usas, por exemplo, um sintetizador novo, isto permite utilizar uma “paleta de cores” nova.
JS: Nestas novas músicas tivemos um regresso, com a guitarra a ser um instrumento mais preponderante. Estávamos muito obcecados com os sintetizadores, mas decidimos, agora, usar arranjos mais minimalistas e as cordas acabaram por ter um papel mais importante.
Houve alguma motivação que vos tenha levado a procurar este som?
MB: Queríamos fazer música um bocado mais pesada. Acho que se sente específicamente na “Mal Vestido”, que é a nossa música mais pesada. Além disso, foi também a forma que encontrámos de fazer algo diferente.
Com uma década de carreira, sentem que, entre os vossos fãs, há mais “velhos do Restelo”, que querem que vocês façam música como antigamente, ou há mais pessoas interessadas e receptivas a ouvir coisas novas?
GB: Neste momento, temos um influxo bastante grande de fãs mais recentes e que estão mais interessados no nosso som mais contemporâneo. Claro, ainda ouvimos o ocasional “o Costela Ofendida é que era”.
MB: O nosso último álbum é o nosso álbum mais popular.
Tornaram-se um sucesso no TikTok. Foi uma surpresa?
MB: Completamente.
H: Continua a ser, nenhum de nós sabe mexer bem no TikTok [risos].
JS: Para mim, o TikTok ainda é uma rede social muito distante. Mas nota-se que muitos novos ouvintes surgem daqui e é também com quem temos mais interacções. Mais depressa um fã com 18 anos vem conversar connosco do que os fãs mais antigos, que vêm ao concerto e depois só pensam em ir para a cama [risos].
Este sucesso influenciou a forma como fazem música?
MB: Não, nem por um segundo pensámos nisso.
JS: Foi algo tão aleatório que é algo que nem seria possível replicar.
MB: Quando a “Sorte a Minha” rebentou, nós nem sequer tínhamos TikTok.
JS: Só soubemos disso mais tarde.
MB: Depois criámos porque percebemos que a nossa audiência estava lá. Hoje em dia, obviamente, tudo o que publicamos no Instagram vai também para o TikTok. Aquilo tem uma linguagem interessante, por ser mais despretensiosa do que o Instagram. Lá tens uma curadoria muito maior daquilo que é a tua imagem. No caso do TikTok, é criar uma grande quantidade de vídeos, por exemplo, a explicar como criaste uma música. Nós não fazemos isso, mas devíamos ter mais paciência para dedicar a isto. Há uma linguagem de contacto, de falar directamente com a câmara e de estar exposto, que não há tanto no Instagram. Faz sentido as bandas adaptarem-se a isto. E nós deveríamos fazê-lo também.
Ao longo destes dez anos, uma entidade que vos acompanhou sempre foi a Cuca Monga. Sentem que teriam conseguido durar tanto tempo sem o apoio deles?
H: Não dá para imaginar de outra forma.
JS: Eles foram e são importantíssimos. Dão-nos muitos conselhos, por exemplo, há dois anos, quando fomos tocar ao Capitólio, isto foi uma ideia deles. Estávamos a pensar ir tocar, outra vez, ao Musicbox, mas eles influenciaram-nos a tentar uma sala maior. Agora, com este concerto no Coliseu foi igual.
MB: Eles empurram-nos e incentivam-nos a dar estes saltos na carreira. Incentivam-nos a não ter medo.
GB: Também foram eles que lançaram a ideia de irmos gravar fora de Portugal.
JS: Foi o Domingos [Coimbra] que nos ajudou a produzir o Vice Versa. Eles incentivam-nos a pensar grande, sim.
Algum dia ponderavam fazer um trabalho fora do contexto da Cuca Monga?
JS: Estas últimas duas músicas foram feitas com o Carlo Corbellini, músico e compositor italiano, dos Post Nebbia, de quem somos grandes fãs. Foi a nossa primeira experiência com alguém completamente de fora. Neste caso até um desconhecido. Foi uma experiência muito boa porque, quando somos nós próprios a produzir, somos muito mais cuidadosos. Às vezes, não queremos arriscar tanto e tentamos ser mais perfeccionistas. Neste caso, ele ajudou-nos a ser mais espontâneos. É uma atitude difícil de ter quando estás a fazer as tuas próprias músicas.
O que é que aguarda o futuro dos Ganso?
MB: Dar mais concertos, gravar mais músicas.
JS: Já temos alguns concertos marcados para este ano, que ainda vamos anunciar.
H: À partida, teremos um disco ao vivo.
JS: No fundo, é uma bola de neve, queremos fazer músicas novas e depois tocá-las ao vivo.
E conseguem imaginar mais dez anos de Ganso?
GB: Neste momento, consigo imaginar mais facilmente mais dez anos de Ganso, do que tocar durante dez anos quando começámos a tocar [risos].
Coliseu dos Recreios, Rua das Portas de Santo Antão, 96 (Restauradores). 6 Mar (Sex) 20.30. 22€-35€
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