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Gira de Santa Clara: Emel quer travar vandalismo com sensibilização mas em quatro meses ainda não começou

Estações Gira em Santa Clara estão inactivas desde Outubro, na sequência de actos de vandalismo. Emel diz que está a "encetar contactos" para diálogo com associações, mas, quatro meses depois, nada aconteceu.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
Azinhaga da Cidade
Rita Chantre | Azinhaga da Cidade
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Depois de "repetidos e recorrentes actos de vandalismo", a Emel decidiu desactivar, em Outubro, as estações Gira da freguesia de Santa Clara, não existindo ainda uma data para a reabertura. Além de danos nas estações, mais de 100 bicicletas foram roubadas ou destruídas entre Abril e Setembro, situações que conduziram a "elevados prejuízos, tanto a nível financeiro como operacional", explica a empresa, numa declaração por escrito enviada à Time Out, como resposta a um pedido de entrevista com vista a apurar detalhes sobre o sucedido.

Os actos foram alvo de queixas à PSP e, até Outubro, a Emel repôs o serviço "de forma sistemática" e "com a maior celeridade possível", detalha. Depois, decidiu alterar a metodologia. "A Emel está a encetar um conjunto de contactos, e a preparar um trabalho de proximidade com associações locais, promovendo o diálogo e o envolvimento da comunidade como forma de incentivar condutas mais responsáveis, em especial junto das camadas mais jovens", pode ler-se na nota informativa, enviada a 28 de Janeiro.

Contactado pela Time Out, José Almeida, presidente de uma das mais activas associações da zona, a ARAL – Associação de Residentes do Alto do Lumiar, afirma, porém, não ter recebido nenhum contacto da Emel. "Também não tenho conhecimento de que alguma associação desta área, e tenho permanente contacto com várias, o tenha sido ou mesmo que esteja a decorrer alguma acção", afirma o dirigente. Da mesma forma, as vizinhas associação Raízes, que apoia crianças e jovens em Santa Clara, e a Associação de Moradores do PER 11 afirmam não ter sido contactadas pela Emel. "Nunca falaram connosco, nem agora nem antes. E o vandalismo é uma coisa que acontece em todo o lado, sempre aconteceu", declara Gerson Gomes, da direcção da PER 11.

Santa Clara
Rita ChantreSanta Clara

O presidente da ARAL, associação que esteve vários anos na linha da frente da reivindicação de bicicletas e estações Gira para a Alta de Lisboa, refere, ainda, que nunca concordou com as opções tomadas pela Emel quanto à localização de estações. Num plano geral, defende que "toda a faixa Norte da cidade, como o Lumiar, Ameixoeira, mas também algumas partes de Benfica, por exemplo, é esquecida". "Mesmo a outras zonas as Gira levaram muito tempo a chegar, o que nos deixou sempre muito desagradados, sobretudo tendo em conta que o Alto do Lumiar não é uma zona muito bem servida de transportes, portanto, as bicicletas permitiriam deslocações até ao metro", acrescenta. Olhando para o mapa actual das Gira nas freguesias do Lumiar e de Santa Clara, José Almeida sublinha que a Emel nunca teve em conta a participação da ARAL. "Há uns dois anos, fomos sondados pela Junta de Freguesia, que deduzo que terá sido contactada pela Emel, para darmos a nossa opinião sobre a localização das novas estações. Nós demos, mas eles tiveram outro entendimento e escolheram outras, como a do Parque Oeste, que é um lugar de muito pouca frequência à noite, o que poderá dar azo a este tipo de situações", analisa o responsável.

Junto ao Parque Oeste (ou do Vale Grande), as novas residências universitárias terão sido um dos motivos para a implantação das Gira pela Emel. Porém, a iluminação pública na zona é deficitária, o que se replica perto do metro da Ameixoeira, na Azinhaga da Cidade, situações às quais alguns moradores associam aos actos de vandalismo direccionados para as Gira.

Azinhaga da Cidade
DR via EmelAzinhaga da Cidade

Na visão de José Almeida, "o entendimento da Emel é que esta é uma área que tem zonas problemáticas e que, por isso, não dá para fazer certas coisas", como promover o uso de um sistema de bicicletas partilhadas. A empresa de estacionamento e mobilidade, no entanto, afirma que "mantém todo o interesse em reabrir estas estações", mas que primeiro deve "assegurar a salvaguarda do interesse público, nomeadamente a segurança e sustentabilidade dos equipamentos, garantindo uma correcta utilização pela comunidade".

Vandalismo não é de agora

O responsável da ARAL concorda que uma atitude preventiva, que envolva o diálogo não só com associações locais, mas também com a gestão das residências universitárias e com a polícia, "que tem uma esquadra a 200 ou 300 metros", possa fazer a diferença. "Se não há uma reacção aos actos de vandalismo, as pessoas sentem-se impunes", acredita. Mas é contra o fecho das estações. "Discordamos que por existirem actos deste tipo, todas as pessoas sejam impedidas de recorrer às Gira. Além de que teriam de aplicar a mesma regra a outras zonas da cidade", nota José Almeida, chamando a atenção para ocorrências semelhantes no centro de Lisboa ou em Carnide, que não resultaram, ainda assim, no fecho de estações.

Bicicleta Gira vandalizada, 2021
DR via EmelBicicleta Gira vandalizada, 2021

Já em 2021, a Emel dava conta de várias situações de vandalismo na zona do Lumiar, referindo na sua página que os actos em si não poderiam "lesar os cidadãos e cidadãs que todos os dias utilizam este meio de transporte, prático e rápido, para as suas deslocações utilitárias". Em Agosto do mesmo ano, apontou para a ocorrência de 100 actos de vandalismo no espaço de 15 dias, sobretudo nas estações da Gare do Oriente, do Centro Comercial Vasco da Gama, da Praça do Município, do Terminal de Cruzeiros de Lisboa (Avenida Infante Henrique), do Largo Frei Heitor Pinto, da Rua do Arco Cego, da Avenida 5 de Outubro e da Avenida da Igreja. "Os custos devidos a estes actos rondam os 200 euros por bicicleta", estimava, na altura, a organização.

Na sequência do fecho das estações de Santa Clara, a vereação do PCP em Lisboa pediu esclarecimentos ao presidente da Câmara, Carlos Moedas, no final de Janeiro. "A opção de encerramento das estações, por questões de vandalismo, não vai ao encontro do objectivo determinado pela Emel de uma visão 'centrada nas pessoas', pelo contrário. Numa freguesia em que parte da população já se sente esquecida, negar o acesso a este serviço não é salvaguardar o interesse público, mas sim penalizar toda a população", defendem, acrescentando que os actos de vandalismo "não são exclusivos desta freguesia nem são os responsáveis pelo mau funcionamento desta rede". O partido aproveitou para criticar as "estações vazias, por falta de bicicletas" e avariadas em "várias freguesias da cidade", bem como "uma app que não funciona" e "recorrentes promessas por concretizar de uma nova aplicação como solução para alguns destes problemas".

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