[category]
[title]
Ambientado em Inglaterra, o novo filme do polaco Jan Komasa centra-se num jovem delinquente que é raptado e posto a ferros por uma família que o quer ressocializar, dê por onde der.

Há filmes que aparecem de vez em quando (embora cada vez menos) que parece que foram metidos numa máquina do tempo no passado e enviados para serem vistos na nossa época. Good Boy – Terapia de Choque, do polaco Jan Komasa, rodado na Polónia e em Inglaterra, é um desses filmes. Ajudará talvez dizermos que por trás dele está o veterano dramaturgo, actor e realizador polaco Jerzy Skolimowski, um dos nomes maiores do cinema de Leste. Quase à beira dos 90 anos e ainda activo, Skolimowski é o autor de fitas como Adolescente Perversa, O Uivo (um dos filmes de culto da década de 70), Moonlighting, Quatro Noites com Ana ou EO, Prémio do Júri do Festival de Cannes em 2022.
Good Boy – Terapia de Choque aparenta ter vindo directamente desses anos 70 abundantes em fitas originais, inquietantes, fora dos formatos convencionais, que desafiavam rótulos e classificações, e fugiam a identificações com tendências, escolas ou géneros bem específicos. O polaco Jan Komasa é o autor do muito bom Corpus Christi – A Redenção (2019), nomeado ao Óscar de Melhor Filme Internacional, sobre um jovem delinquente que sente uma vocação espiritual e vai para uma aldeia onde finge ser padre; ou do menos conseguido Anniversary – Mudança Radical, um thriller político rodado nos EUA. Foi o seu compatriota Skolimowski quem o abordou para lhe oferecer o argumento de Good Boy – Terapia de Choque, após ter visto, precisamente, Corpus Christi – A Redenção.
Juntamente com Jeremy Thomas, Jerzy Skolimowski é também o produtor do filme (e não teríamos estranhado se tivesse decidido realizá-lo). Este foi escrito em polaco e passava-se originalmente em Varsóvia, tendo sido adaptado para língua inglesa e ambientado no Yorkshire, quer por facilidades de produção, quer para apontar a um público mais vasto (a rodagem teve lugar na sua maior parte em Inglaterra, com alguns interiores na Polónia). Há sugestões de A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, em Good Boy – Terapia de Choque, e daí também a forte sensação que o filme transmite de pertencer a uma época que não a nossa.
Tommy (Anson Boon) é um rapaz de 19 anos completamente destravado e dado a todo o tipo de excessos e de comportamentos delinquentes, que filma com o telefone e depois partilha no Tik Tok. Uma noite, e depois de ter corrido uma série de discotecas, de ter bebido demais, inalado cocaína e ter insultado e enganado a namorada mesmo à frente dela, Tommy vai a cambalear para casa, quando é raptado. Horas depois, acorda numa mansão algures no campo, em cima de um colchão na cave e acorrentado. Na casa vive uma família composta pelo seu raptor, Chris (Stephen Graham), a mulher deste, Kathryn (Andrea Riseborough), e o filho de ambos, Jonathan (Kit Rakusen), com dez anos. Há ainda uma empregada, a macedónia Rina (Monika Frajczyk), que vai lá fazer as limpezas duas vezes por semana.
Chris, um adepto da segurança nas estradas e dos valores familiares tradicionais, explica então a Tommy que o raptou porque ele é um péssimo exemplo para a sociedade, e que por isso o vai reeducar e reabilitar à força, com a ajuda da mulher e do filho. Se o rapaz se portar bem, mostrar progressos e se arrepender da sua vida desregrada e renegar os seus comportamentos anti-sociais, irá tendo pequenas regalias pouco a pouco. Por exemplo, uma corrente mais longa presa ao pescoço, e que lhe permite ir à casa de banho, mais liberdade de circulação pela casa, oportunidades de convívio com a família – incluindo comer com ela à mesa – e até mesmo deixar a cave e ter um quarto só para ele.
Dizer mais sobre o enredo de Good Boy – Terapia de Choque e a maneira como vai progredir é incorrer no risco de começar a alinhar spoilers. Mas sempre podemos adiantar que Tommy vai ter mais surpresas com os seus captores do que aquelas que poderia pensar, tal como os próprios captores com ele, bem como, muito naturalmente, os espectadores; e que, embora de uma forma insólita, arrevesada e desconcertante, este é um filme que defende a família e a sua importância. Das mãos de Jan Komasa saiu um genuíno OVNI cinematográfico, e não fazia mal nenhum se de vez em quando aparecessem nos cinemas mais fitas como esta, saídas da tal máquina do tempo.
📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn
Discover Time Out original video