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Guardam 8000 títulos, 62 mini-chapéus e a história da cidade. São os Amigos de Lisboa e querem renovar-se

O grupo fundado em 1936 por arquitectos, engenheiros, jornalistas e comerciantes da cidade mostra agora o legado numa exposição no Palácio Pimenta. Fomos conhecê-lo ao Bairro do Rego.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Exposição "Por Amor à Cidade"
EGEAC, Museu de Lisboa, Raquel Montez | Exposição "Por Amor à Cidade"
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Começou no Chiado, foi para o Palácio da Mitra e está desde 2003 num rés-do-chão do Bairro do Rego. As mudanças são geográficas, mas mostram também como foi soando a voz do Grupo Amigos de Lisboa (GAL) na cidade e que lugar lhe tem atribuído, por sua vez, o poder. Desde 1936, quando tudo começou, a associação publicou capas de revista de Almada Negreiros, levantou a voz quanto à proposta de reformulação da Avenida da Liberdade (Gonçalo Ribeiro Telles e Francisco Caldeira Cabral queriam aumentar o espaço verde e pedonal, o que o grupo considerou uma “devastação”, levando a sua avante), interveio no tema do restauro do Castelo de São Jorge e discutiu as cores planeadas para os edifícios e os planos de urbanização de Lisboa. Esse passado está hoje na exposição "Por Amor à Cidade - 90 Anos do Grupo Amigos de Lisboa", no Museu de Lisboa - Palácio Pimenta, que pode ser visitada até 27 de Setembro. Uma mostra que também serve para dar visibilidade a um grupo de voluntários com capital reduzido e muita vontade.

Mas o que faz hoje uma associação moldada há 90 anos com o intuito de formar "consciência pública", como descreveu Luiz Pastor de Macedo no manifesto de fundação do grupo? Concentra-se em partilhar conhecimento, através de simpósios e outros encontros, frequentados por investigadores, curiosos, mas também por "muitos guias turísticos". Sinal dos tempos. Todos os anos, organiza o Concurso de Quadras Populares de Santo António e não com pouca participação: no ano passado, receberam mais de 600 quadras. Na sede do Rego, guarda ainda um grande espólio, que inclui desde livros raros à maior colecção de chapéus em miniatura do país (já lá iremos). E tem um papel activo na toponímia da cidade. "No momento da reorganização administrativa das freguesias, por exemplo, o António Costa quis saber a nossa opinião. Fomos nós que demos a sugestão de chamar à junção das várias zonas da Baixa, Alfama e Castelo de Santa Maria Maior. Foi muito bem acolhida", conta a presidente do GAL, Salete Salvado, nascida no mesmo ano que o grupo. Já o braço da crítica política arrefeceu.

Exposição "Por Amor à Cidade"
EGEAC, Museu de Lisboa, Raquel MontezExposição "Por Amor à Cidade"

"Quando a associação foi criada era composta por muitos urbanistas, engenheiros, arquitectos", enquadra Salete Salvado, na sede do grupo. Hoje, é diferente. "Somos um lugar de memória. E a memória é algo que temos de cultivar, temos de ter com ela uma relação afectiva, de amor. Não podemos deixar de pensar que somos um resultado do passado. Nesse sentido, o nosso papel é incentivar o conhecimento", afirma.

Para os Amigos de Lisboa, a memória não é coisa de décadas mas de séculos, que os faz regressar a D. Afonso Henriques, a São Vicente, à cartografia da cidade no reinado de D. Manuel I ou às muitas vidas da colina de Santana. Já o futuro da associação a dirigente não consegue ver com clareza, sobretudo tendo em conta transformações como as associadas ao uso da inteligência artificial. "Gostaria que o grupo tivesse a capacidade de organizar cursos. Há várias temáticas de interesse, como a heráldica [estudo dos brasões] da cidade. Mas gostaria que o grupo mantivesse, acima de tudo, o seu pendor humano e pedagógico", remata, sem perder a visão da cidade. "Poderá haver um olhar mais crítico sobre a parte antiga da cidade, sem dúvida. O desaparecimento dos interiores da arquitectura pombalina, com a transformação em alojamentos locais ou outros fins, é bastante preocupante..."

Chapéus há muitos (e livros também)

Na sede do Rego, Salete Salvado escreve tudo à mão e pede à secretária para passar para o computador. O tempo aqui é outro, há móveis pesados, milhares de livros, retratos da paisagem lisboeta emoldurados por madeira maciça. Na programação que o GAL organiza ou apoia, estão fechados temas como "Anedotas Portuguesas e Memórias Biográficas da Corte Quinhentista" (conferência de Pedro Albuquerque no salão nobre da Junta de Freguesia das Avenidas Novas, a 13 de Maio); a arqueologia do Museu do Aljube (30 de Maio, na sede da associação); ou "O Tempo e a Gente", congresso onde cobrirão várias épocas e temas relacionados com a cidade. Para que a associação se renove, "tem de vir alguém com uma visão jovem e moderna" para a liderança, reconhece.

Exposição "Por Amor à Cidade"
EGEAC, Museu de Lisboa, Raquel MontezExposição "Por Amor à Cidade"

Olhando ao acervo, uma das maiores preciosidades é a biblioteca, de livre acesso e composta por cerca de oito mil títulos. "Desde os anos 30, muitos livros foram oferecidos pelos sócios e, depois, o grupo também começou a adquirir livros que fossem do seu interesse", enquadra Salete Salvado. Entre as raridades estão muitas primeiras edições de Júlio de Castilho, jornalista, poeta, escritor, político e um dos primeiros olisipógrafos, com um estudo vasto sobre os bairros de Lisboa. "Temos também uma colecção extraordinária de almanaques, desde o século XVIII, todos os números da nossa revista Olisipo, todas as obras do [engenheiro e olisipógrafo] Augusto Vieira da Silva...", continua a presidente.

Na Olisipo, saíram dezenas e dezenas de artigos de investigação. Em 2010, a revista deixou de ser publicada "por falta de dinheiro", já depois de um longo período sem periodicidade certa. Com as suas razões ou não, "a Câmara demorava anos a imprimir ou inventava coisas como 'sim, senhor, imprimimos, mas têm de pagar o papel'", critica a presidente do GAL.

Exposição "Por Amigos à Cidade"
EGEAC, Museu de Lisboa, Raquel MontezExposição "Por Amigos à Cidade"

Além do conhecimento transposto para o papel, sobressai à vista, num mostruário à entrada da sede, talvez uma das mais curiosas colecções do país. Em 1995, Júlio César Gonçalves doou um conjunto de 62 chapéus em miniatura, de diferentes modelos, ao GAL. "Vieram todos da Chapelaria Universal, que ficava no Corpo Santo, quando a loja fechou." Há exemplares a evocar os pauliteiros de Miranda, chapéus de feltro, de palhinha, "de senhora e dos chefes de Câmara", enumera Salete Salvado, que tem nos planos uma colaboração com o Museu do Chapéu, de São João da Madeira, para poder catalogar correctamente cada peça. "Depois, também temos muito boas gravuras, pinturas, móveis antigos e outros objectos", acrescenta a presidente.

Passados 90 anos, a exposição do Museu de Lisboa procura trazer um pouco de luz sobre tudo isto. "É preciso ver que todo o nosso trabalho é pro bono", salienta a presidente. Ao mesmo tempo, é um convite para que se conheça o resto do espólio, no espaço do Bairro do Rego, que é aberto a todos.

Exposição "Por Amigos à Cidade"
EGEAC, Museu de Lisboa, Raquel MontezExposição "Por Amigos à Cidade"

Voltando à memória, a 1936 e ao fundador Luiz Pastor de Macedo, aqui está "a principal razão da existência" dos Amigos de Lisboa: "Competir-lhe-á esclarecer e educar a população, pôr em confronto a vida de outras cidades, fazer a propaganda dos princípios modernos da administração municipal, dos planos renovadores, preparar os interessados na defesa da sua colectividade contra o interesse descabido de cada um". No ano seguinte, entre jornalistas, artistas, médicos, advogados, engenheiros, arquitectos e comerciantes (destaque para figuras como o cineasta Leitão de Barros, o engenheiro Álvaro Simões, o jornalista e editor da Orpheu António Ferro ou o pintor Jorge Colaço), o grupo contava com 119 sócios. Hoje, tem perto de 200, certamente o menor dos números, entre as páginas publicadas e os feitos conseguidos pela associação.

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