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O destaque do espaço na zona da Estefânia vai para a ficção de pequenas editoras, com foco em histórias surrealistas, feministas e do grotesco.

Numa outra vida, Maria João Santos e Armando Cabral viveram em frente à Tate, em Londres. São ambos engenheiros, mas sempre tiveram “olho” para o belo e adoram passar horas infinitas a ver arte. Uma vez, já em Lisboa, cruzaram-se com Cristina Guerra, entretanto amiga íntima, e daí até começarem a coleccionar foi um instante. Em 2019, abriram as portas da Rialto6, onde têm convidado artistas, nacionais e internacionais, a expor individualmente o seu trabalho. Agora, transformam a sala de exposições do piso -1 numa livraria, tão ambiciosa e idiossincrática quanto a própria galeria. A comandar as hostes, está a filha, Teresa Cabral, que antecipa uma selecção “estranha”, no melhor sentido da palavra, de maravilhamento. Filipa Sousa, doutorada em Filosofia, é a especialista na casa nos livros de arte.
A entrada faz-se pelo 6A da Rua Conde Redondo, um rés-do-chão. Quando a porta se abre, ouvimos o som de um sino de vento, uma peça vinda da loja de Cristina Siopa. Estamos mesmo por cima da livraria, que conseguimos ver através do vidro debaixo dos nossos pés. A decorar esta antecâmara, através da qual temos acesso ao subterrâneo, destaca-se “Toda su Segunda Vida” (1990), uma pintura e serigrafia sobre dois panos de entretela de Eugenio Dittborn. Trata-se daquilo a que o chileno chamou de “pinturas aeropostais”: obras maioritariamente sobre papel, material plastificado ou vídeos, que depois são enviadas para o destino dobradas, ou embaladas, dentro de envelopes, juntamente com um sobrescrito com informações sobre todos os lugares por onde passaram.
“A ideia da Rialto6 surge, enfim, de várias coisas, mas sobretudo de uma conversa com o João Maria [Gusmão] e o Pedro Paiva. Na altura, estávamos a adquirir um conjunto de filmes deles, de 6mm. Foram eles que o propuseram, perguntámos porquê e disseram-nos ‘isto dava uma exposição’. Nós tínhamos o piso 1 disponível e foi assim que a aventura começou”, recorda Maria João, entusiasmada pela retrospectiva. “Foi um sucesso, tivemos mais de 400 pessoas na inauguração, e percebemos que, se calhar, poderíamos contribuir desta forma para o mundo da arte. Claro que temos a nossa interpretação do que é relevante, como qualquer coleccionador, mas como isto não é uma galeria comercial, a nossa intenção é permitir que os artistas façam coisas que não fariam noutro lugar.”
A produção fica toda a cargo de Maria João e do marido. Procuram receber como se estivessem em casa – há inclusive um frigorífico no piso 1, do qual as pessoas se podem servir. Quanto à programação, não está pré-definida; a ideia é desafiar artistas e curadores a desenvolver projectos inovadores e experimentais. Se não estiver a ser usado pela comunidade artística, com a qual mantêm um diálogo contínuo, e até afectivo, o espaço acolhe uma exposição de peças da sua colecção privada de arte contemporânea, com uma forte abertura, talvez mesmo um viés, para a fotografia, o vídeo ou a instalação, “obras de inspiração pós-conceptual e agência política”.
Na livraria, no piso -1, a ambição é mais ou menos a mesma. Não querem ser óbvios nem competir com outros projectos independentes. Além de livros de arte, com curadoria de Miguel Wandschneider, que foi durante mais de dez anos responsável pela programação de arte contemporânea da Culturgest, o destaque vai para títulos de artistas que já expuseram na Rialto6, por um lado; e a selecção de ficção e ensaios, com foco em histórias surrealistas, feministas e do grotesco, por outro. Teresa Cabral, que é quem nos guia pelo espaço, procurou destacar pequenas editoras, nacionais e estrangeiras, como as portuguesas Barco Bêbado e a VS, a britânica Peninsula Press e a checa Twisted Spoon.
“Queríamos trazer uma nova dinâmica para este espaço, que sempre foi uma sala de exposições desde que abrimos”, explica Teresa, antes de revelar o início de tudo: “Tenho um interesse muito grande pela livraria enquanto ecossistema”, diz a mestre em Literatura Comparada na Universidade de Glasgow. “Quando voltei do meu mestrado na Escócia, comecei à procura de emprego, mas não há muito dinheiro a circular em livrarias independentes. Ouvi muitas vezes que até há necessidade de mais um par de mãos, só não há como pagar. Obviamente que os meus pais acompanharam este processo e, como andavam paralelamente a falar sobre o quão exigente é estar a planear seis exposições por ano, decidiram que talvez esta fosse a solução para diminuir o passo.”
O catálogo é todo escolhido a dedo e esta é, não há pudor em assumir, “uma livraria de nicho”. Teresa sabe que é um risco e está relativamente confortável com isso. Acredita que uma curadoria é, por definição, reflexo de quem a faz. “O que aqui se encontra anda muito à volta do que é o estranho, do surrealismo, do grotesco”, partilha. “Por exemplo, esta mesa [de destaques] é absolutamente obscura. São tudo livros em inglês, de uma editora checa que traduz literatura eslava para inglês. O único autor reconhecível é, talvez, o [Franz] Kafka. E é incrível ter oportunidade de tomar este risco, até porque estas edições são maravilhosas, são também objectos de arte, e eu sou uma admiradora da literatura eslava, a corrente de surrealismo deles é muito interessante.”
Há uma estante dedicada a “premiados”, com títulos como A Vegetariana, de Han Kang, e Orbital, de Samantha Harvey, para que as pessoas tenham “um ponto de referência”, mas a aposta é, sem dúvida, no inesperado. “Estamos rodeados de livros que vemos muito pouco em Portugal, então é importante haver um sítio por onde começar”, explica, antes de deixar claro que a organização é sempre dinâmica, no sentido em que, com a circulação, poderá sofrer alterações. “Depois, claro, há temas pelos quais tenho um carinho especial.” O horror da fúria feminina, por exemplo. “É uma resposta a uma tradição muito antiga que pinta à mulher como frágil ou louca.” Mas se pudesse recomendar apenas um livro é provável que mencionasse logo Diário de Um Génio, de Salvador Dalí, uma edição da Fulgor Quotidiano. “Era uma pessoa muito peculiar e nem sempre no melhor sentido”, observa.
Há ainda uma zona de estar, com cadeirões, onde nos podemos sentar a folhear os livros, e uma pequena selecção de títulos para a infância, por enquanto todos da Orfeu Mini – a primeira excepção, que deverá chegar em breve, será Joopie, um álbum ilustrado do artista Gabriel Abrantes, editado pela Humores Artificiais em 2020, e que é muito difícil, senão impossível, de encontrar noutro sítio. “Curiosamente, temos muitas pessoas que trazem os filhos para ver as exposições, muitas vezes até crianças e bebés”, partilha Maria João, que aproveitou para decorar o espaço da livraria com peças de arte, incluindo uma série de fotografias de João Maria Gusmão e um print de “From Hand to Mouth”, uma escultura em relevo de Bruce Nauman.
A inauguração aconteceu a 21 de Fevereiro, foi um sucesso. Agora, a livraria será o que as pessoas fizerem dela, isto é, não há grande expectativa, senão a de que a comunidade a abrace. Se assim for, gostavam de pensar programação, como lançamentos e conversas. “Não pretendemos propriamente ganhar dinheiro, mas esperamos que seja sustentável, que pague pelo menos as pessoas que cá estão. O nosso objectivo é, no fundo, tal como na galeria, proporcionar encontros inesperados, neste caso com livros”, garante a coleccionadora, que está muito contente com a selecção que a filha reuniu. Teresa não poderia concordar mais: “Agora é percebermos a vivência. Sou, acima de tudo, uma leitora. Isto também é novo para mim.”
Rua Conde Redondo, 6A (Estefânia). Qui-Sáb 14.00-19.30
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