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O projecto “O Museu Fora do Armário” chega ao Parque Botânico do Monteiro-Mor. A partir do acervo do Museu do Traje, contam-se momentos da história do vestuário e da expressão de género.

Há um ano, o projecto "O Museu Fora do Armário" ganhava forma na Casa Fernando Pessoa. O intuito do mentor, o encenador e dramaturgo André Murraças, nunca foi ficar por ali. A partir deste fim-de-semana, há mais uma exposição para juntar ao portefólio – a partir do acervo do Museu Nacional do Traje, "Que género de roupa é essa?" fala da relação entre género e vestuário ao longo dos séculos e durante um agradável passeio pelo Parque Botânico do Monteiro-Mor.
Com o museu fechado à espera de obras, restou fazer a exposição ao ar livre. Não há peças, opção compreensível, mas sim dez telas que se debruçam sobre momentos da história e da moda, precipitando os visitantes para a reflexão. "Associamos certas peças de roupa exclusivamente aos homens ou às mulheres, mas a história da arte e dos trajes tem contado outras histórias, de que nem sempre falamos. A sexualidade e a questão das identidades existem desde sempre e os museus têm esses registos, só que tendem a contar uma história heteronormativa, branca, eurocentrista. Portanto, há também que contrariar essas histórias e dizer: não, os homens usavam saia desde a Antiguidade Clássica, ou o cor-de-rosa já foi visto como a cor dos senhores. Tudo isso está na nossa história e está obviamente documentado aqui no acervo do museu", André Murraças, aqui no papel de curador.
O percurso não segue uma ordem cronológica. O objectivo é que a livre fruição do parque dite o caminho a seguir, bem como o momento histórico em que a moda desafia as convenções sociais – as de cada época ou as dos nossos dias. As sufragistas abrem caminho, tal como o fizeram – de jaqueta e gravata – entre os finais do século XIX e o início do século XX. Daí, retrocedemos até à era vitoriana, onde os espartilhados trajes femininos contrastavam com a indumentária elegante dos cavalheiros. "Nesta altura, as orientações sexuais alternativas, por assim dizer, eram criminalizadas. Portanto, estas pessoas viviam vidas invisíveis e à margem. Há muitos registos dessas vivências. As senhoras eram extremamente reservadas, mas os homens, em Inglaterra, tinham acesso a bordéis só de homens. Há vários casos ligados à nobreza e à própria realeza, mas sempre tudo muito disfarçado. E aí o traje também ajuda a impor uma imagem de respeito", comenta o curador.
O percurso continua. Esbarramos em Marlene Dietrich, a envergar smoking em 1930, mas também em Gladys Bentley, a performer afro-americana que fez furor no Harlem dos anos 20 e 30, de smoking branco. "Isto levanta questões quanto à perspectiva que lançamos sobre estas transgressões. Porque é que, ao mesmo tempo que fazemos esta glamourização da Marlene vestida de homem, quando olhamos para um homem [vestido de mulher] a tendência é ridicularizar?", comenta André Murraças.
As contradições e paradoxos não acabam aqui. O cor-de rosa, outrora usado para trajes festivos masculinos ou para fardas de cavaleiros e arqueiros, é hoje um símbolo de feminilidade. O mesmo com os saltos altos, invenção de natureza militar para que os pés encaixassem nos estribos durante a monta. São atribuídos aos persas, embora tenham sido os franceses a popularizá-los no continente europeu e, mais tarde, a fazer deles um acessório de moda das elites – para homens e mulheres. A saia é outro exemplo. Fez parte do guarda-roupa masculino da Antiguidade Clássica ao Renascimento. Demasiados séculos de tradição não se apagam de um momento para o outro, que o digam o kilt escocês e a vestimenta dos Pauliteiros de Miranda.
O projecto "O Museu Fora do Armário" não vai ficar por aqui. Tal como até agora, André Murraças vai continuar a desafiar museus e a estudar os seus acervos. "É um trabalho principalmente feito por mim. E os museus têm sido muito abertos e generosos – os que têm aceitado – e as equipas têm logo imensas ideias e materiais que há muito queriam mostrar", denota o curador. No Museu Nacional do Traje muita coisa ficou de fora, material que verá a luz do dia com o lançamento de mais uma edição da revista Marginália, que tem acompanhado cada etapa do projecto e que será apresentada na inauguração da exposição, este sábado.
Depois da Casa Fernando Pessoa, do Palácio Pimenta e do Museu Nacional do Teatro e da Dança, onde o projecto assumiu a forma de visitas guiadas temáticas, o ano não termina sem uma última saída do armário. Em Novembro, inaugura mais uma exposição, desta vez no Museu do Teatro Romano, em torno dos amores e desamores, entre pessoas do mesmo sexo, na mitologia grega.
Largo Júlio Castilho (Lumiar). Ter-Dom 10.00-13.00, 14.00-18.00. Até 7 Dez. Entrada livre
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