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Há uma nova livraria na cidade (e dá destaque aos autores lusófonos)

Chama-se Saudade e a maioria dos livros vem do Brasil. O projecto é de Jaime Mendes, português com sotaque do Rio de Janeiro.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Livraria Saudade
Fotografia: Rita Chantre/ Time Out Lisboa | Livraria Saudade
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“Cada vez é mais fácil fazer um livro e cada vez mais difícil que ele circule.” É Jaime Mendes quem o diz, mas o português com sotaque carioca tem feito de tudo para contrariar o diagnóstico. Há cinco anos, fundou a distribuidora Saudade, dedicada a democratizar o acesso à produção em língua portuguesa. Agora, com a abertura de uma livraria nas Laranjeiras, reforça a convicção de que livros precisam de gente — e a gente, de livros.

Este projecto é um duplo retorno, revela o editor, livreiro, historiador e “agitador” cultural. Nascido em Portugal, na vila de Condeixa-a-Nova, Mendes chegou ao Brasil aos nove anos, e por lá fez vida. Formou-se em História na Universidade Federal do Rio de Janeiro, teve três livrarias (a primeira, ainda na faculdade, chamava-se “Os Bruzundangas, como o romance de Lima Barreto”) e trabalhou como historiador no Arquivo Nacional. Até que um inesperado volte-face o trouxe de volta às origens: o país-natal e o ofício de livreiro.

Livraria Saudade
Fotografia: Rita Chantre/Time Out LisboaLivraria Saudade

“Eu trabalhava num grupo especializado em livros técnicos, de medicina e engenharia, e fiquei lá dez anos. Em 2019, convenci o meu chefe a mandar-me para Portugal, para tentar recuperar uma empresa de distribuição que tínhamos aqui”, conta. “Mas depois veio a pandemia e o meu chefe, que me ligou dizendo que tinham decidido encerrar, me perguntou se não queria ser eu o distribuidor. Assim foi. Em Outubro de 2020, nasceu a Saudade.” Começou como distribuidora e hoje é também livraria com porta aberta para a rua, cumprindo a missão de fazer os livros circular.

O espaço pertencia a José Miguel, fundador da rede de livrarias Bisturi, que já andava para se reformar há algum tempo. Com cerca de 50 metros quadrados, é – mais do que uma loja – um local de encontro e de partilha. A isso ajudam as duas poltronas, um tapete para crianças e uma área para receber até 30 cadeiras. Mas também a forma como se organiza o acervo por “assunto”. “Temos uma secção anti-racista, por exemplo. É difícil encontrar isso noutras livrarias”, lamenta Jaime. “Para nós não é só um negócio. É uma opção de como estar no mundo.” O “nós” de Jaime inclui a mulher, Bianca Vivarelli, que o apoia desde o início, e que haverá de trazer biblioterapia para o espaço. Até lá, tem estado atenta aos gostos dos clientes.

Livraria Saudade
Fotografia: Rita Chantre/Time Out LisboaLivraria Saudade

“Recentemente entrou um cliente interessado em livros de música, mas ainda não tínhamos muitos títulos e isso nos fez pensar ‘upa, precisamos de trazer mais diversidade nessa área’”, recorda Bianca, antes de nos revelar que só têm um exemplar de cada título nas estantes. A ideia é terem o máximo de representatividade possível. Em vez de terem muitos exemplares de um mesmo livro, têm poucos de muitas editoras, sobretudo brasileiras, como a Urutau e a Todavia, mas também portuguesas e internacionais, como a angolana Kacimbo, do escritor Ondjaki. O objectivo é garantir muitos autores, muitas áreas, muitos assuntos, para grandes e pequenos. “Não é só vender livros, é ter um espaço que convide a pensar, que abra janelas.”

Além do foco nas temáticas “que precisam de ser trabalhadas”, têm procurado destacar pequenas editoras, incluindo portuguesas, como a Snob, a Tigre de Papel e a Laika, por exemplo. “É claro que também temos autores publicados por grandes editoras de Portugal. Por exemplo, Clarice Lispector e Chico Buarque. Mas o mais importante para a gente é a questão da diversidade”, reforça Jaime. Importa também, claro, o contacto com o livreiro e com o universo do livro. Para isso, há agenda cultural: conversas, lançamentos, recitais de poesia e até um clube de leitura, onde também se têm lido os livros da Língua Mátria, a editora de Jaime e Bianca. “Chama-se Literatura Encorpada, porque oferecemos uma taça de vinho para todo o mundo, e quem dinamiza é a Patrícia Cerutti, do projecto Afeto Literário.”

Livraria Saudade
Fotografia: Rita Chantre/ Time Out Lisboa| Livros publicados pela Língua Mátria

A ambição maior, contudo, é promover a leitura em língua portuguesa. Ou melhor, “nas várias línguas em português”. “A língua que não muda é a que morreu”, relembra Bianca. Jaime completa: “No dia-a-dia as línguas se misturam e você enriquece. Uma vez, lendo um livro do Mia Couto, aprendi a palavra “machimbombo”. Eu nunca tinha ouvido, mas pelo contexto percebi que era “ônibus” no Brasil e “autocarro” em Portugal. E é muito engraçado que, às vezes, tem uns puristas do português que vivem falando palavras do inglês, e por aí vai. Mas se o português de Portugal desaparecer não é por causa do português do Brasil… É por isso que é tão importante valorizar a nossa língua, com todas as suas variantes.”

No horizonte, está a abertura de mais livrarias, claro. “Para o mercado editorial ser saudável, você precisa ter muitas pequenas livrarias, porque cada uma vai ter o seu público e o seu acervo específico. Isso não acontece com as grandes redes, em que o modelo de negócio, para facilitar o operacional, dita que entrar numa loja no sul ou no norte de Portugal é igual. Isso significa que não se leva em conta as pessoas que moram no entorno, mas as pessoas têm interesses diferentes. Se você oferece sempre a mesma coisa, você limita a visão do mundo, e a tendência é o pensamento ficar cada vez mais estreito”, alerta Jaime. “A tendência é o pensamento ficar cada vez mais estreito, e isso não é bom para nenhuma democracia. Por isso que queremos trazer à tona temas que afectam as pessoas no seu dia-a-dia.”

Livraria Saudade. Rua Melvin Jones, 6A (Laranjeiras). Seg-Sáb 10.00-13.00, 14.00-20.00

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