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Um jardim pode ser um bálsamo. Quem o diz é a rapper e escritora do Porto, que está de volta à literatura, com um título para toda a família.

Quem acompanha o trabalho de Capicua para a infância sabe que a porta de entrada é sempre a mesma: o ar livre. Foi assim quando criou a banda Mão Verde, quando deu vida a uma flor no seu livro de estreia, Cor-de-margarida, ou ao colocar um caracol a braços com a crise da habitação, em Como é que um caracol foge de casa?. Agora, em Herbário – Um passeio poético pelo jardim, a rapper e escritora do Porto volta focar a sua lupa no mundo natural, convidando grandes e pequenos a olharem para os jardins com atenção redobrada. Com ilustrações de Carolina Maria e consultoria científica da especialista em botânica Teresa Matos Fernandes, Capicua reúne 30 árvores e plantas – do abacateiro à urtiga, da buganvília ao rododendro – para falar de amizade, do espanto, do desejo e de tantos outros temas universais.
“Neste momento, vou mudar de casa e tenho a horta em stand-by, mas nos últimos anos, ter uma horta tem sido dos meus hobbies favoritos”, confessa a autora, que cresceu numa família “que gosta muito de árvores, e de botânica no geral”. O fascínio vem de longe: “Como passei todas as férias da minha infância e adolescência na mesma casa de campo, que é da minha família, sempre cultivei o interesse pelas ervas, plantas, flores e árvores. É um interesse que vem de miúda, de uma forma completamente amadora, ao contrário da minha irmã, que é arquitecta paisagista e fez disso profissão. No meu caso, o entusiasmo revela-se sobretudo no trabalho para a infância, na literatura e na música.”
A ideia nasceu numa caminhada inspiradora realizada há alguns anos no Jardim da Estrela, no âmbito da programação do festival literário 5L. Nesse encontro, a artista partilhou o espaço com a herbalista Fernanda Botelho: enquanto Fernanda desvendava a riqueza e o património botânico do parque, Capicua entremeava a visita declamando poemas. A partir daí, manteve o impulso criativo, continuando a observar e a escrever sobre a flora que habita “a casa de todos os Verões”, mas também outros jardins, como o da Estrela, que tantas vezes a acolheu em dias de maior calor.
“Estamos tão rodeados de estímulos digitais e de obrigações, ou por estarmos sempre no carro ou em ambientes fechados, que facilmente nos desligamos do que é natural. É raro irmos à floresta e facilmente passamos um ano inteiro sem ter essa ligação”, lamenta Capicua, que expressa ainda o desejo profundo de combater essa espécie de ‘analfabetismo botânico’. E, ao mesmo tempo, de incentivar tanto as crianças como os adultos a desacelerar, a aguçar a curiosidade pelos detalhes da natureza e a reconectarem-se com a terra e com os ecossistemas que os rodeiam.
“As plantas são espelhos do tempo”, reflecte. “Não só estamos a perder a relação com a sazonalidade, como estamos a destruí-la com o nosso impacto – basta irmos ao supermercado para percebemos que temos os mesmos vegetais e as mesmas frutas o ano inteiro –, por isso é que acho importante abordar estas questões da natureza, da ecologia, da agricultura. Até pela capacidade que a música e a literatura para a infância têm de atrair os pais e a comunidade escolar para estes temas.” Acredita que a arte é uma ferramenta de transformação colectiva, sublinhando que é urgente “limpar as lentes com que olhamos para a realidade”.
Em pleno contexto de emergência climática, em que se torna imperativo exigir aos decisores políticos novos paradigmas que diminuam a nossa pegada no planeta, Capicua defende que a cultura desempenha um papel determinante e tem o dom raro de furar a apatia em que vivemos. No caso dos livros e das canções para os mais novos, este poder multiplica-se. Quando uma criança se apaixona por uma história, essa semente germina por toda a parte. Funciona como um “cavalo de Tróia" afectivo: entra pela mão dos filhos para contagiar os pais, mobilizar os professores e pôr a comunidade inteira a conversar.
Neste regresso à literatura para os mais novos, a rapper e escritora fez questão de fugir a estruturas rígidas e de explorar contornos criativos mais soltos. “Eu não sofro a escrever. Eu quero divertir-me, é das coisas que mais me faz feliz, e quando escrevo para a infância gosto de libertar o meu lado lúdico, esse olhar atento àquilo que são as pequenas magias que encontro tantas vezes no quotidiano”, partilha.
“Também não me quis prender a fórmulas, porque eu escrevo canções e as canções já têm de ser muito certinhas. Aqui fui livre, até porque não tenho de provar a ninguém que sei rimar, isso é o que faço profissionalmente. Por isso, quando o poema me pede uma estrofe penteada, eu entrego; se me pede um cabelo ao vento, vai despenteado mesmo.”
Capicua destaca ainda as ilustrações de Carolina Maria, que são muito “bonitas e delicadas”, e o apoio da irmã, que depois resultou nas notas didácticas que acompanham os poemas e onde tentou dar conta, com alguma poesia e algum humor, sobre a dimensão cultural ou medicinal ou pequenas curiosidades acerca de cada uma das plantas. “Ao ler a nota, será natural perceber melhor os poemas, porque eu faço referências nos poemas a algumas características que estão melhor explicadas ou contextualizadas nas notas.”
Com o livro já a chegar às bancas e a conquistar os primeiros leitores, o calendário de apresentações promete levar este passeio poético a vários pontos do país. A festa de lançamento oficial está marcada para dia 3 de Outubro, num regresso simbólico ao local onde tudo começou: a Casa do Jardim da Estrela, em Lisboa. A viagem prossegue depois para o Norte, com uma passagem pela Galeria da Biodiversidade, no Porto, rumando em seguida até Óbidos para integrar a programação do festival Folio, nos dias 17 e 18 de Outubro, respectivamente.
Herbário – Um passeio poético pelo Jardim, de Capicua (texto) e Carolina Maria (ilustrações), com consultoria científica de Teresa Matos Fernandes (Nuvem de Letras, 80 pp, 15,95€) | Passeio botânico e apresentação na Casa do Jardim da Estrela (Praça da Estrela, Estrela): 3 Out, Qui 16.00. Inscrições através de e-mail (umteatroemcadabairro.cjardimestrela@cm-lisboa.pt). Entrada gratuita
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