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‘Histórias Paralelas’: não espiarás os vizinhos

O novo filme do oscarizado cineasta iraniano Asghar Farhadi, ‘Histórias Paralelas’, inspira-se em Krzysztof Kieslowski, foi rodado em Paris e tem uma história cujo pivô é uma romancista e implica a realidade e a ficção.

Escrito por
Eurico de Barros
Histórias Paralelas
Carole Bethuel | Histórias Paralelas
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Asghar Farhadi, o realizador de Histórias Paralelas, que competiu no Festival de Cannes este ano, é um dos nomes mais importantes do cinema iraniano contemporâneo, autor de filmes tão admiráveis como Uma Separação (Óscar do Melhor Filme Estrangeiro, Urso de Ouro do Festival de Berlim), O Passado, O Vendedor (deu-lhe o segundo Óscar do Melhor Filme Estrangeiro) ou Um Herói (Grande Prémio do Festival de Cannes). Histórias Paralelas é o terceiro filme que Farhadi roda na Europa, e o segundo em França (após O Passado), tendo Todos Sabem sido feito em Espanha.

Em 2018, uma produtora norte-americana propôs a Farhadi realizar um remake de O Decálogo, do polaco Krzystof Kieslowski, como série de televisão, tal como o original, mas o cineasta recusou. Alguns anos mais tarde, começou a trabalhar numa nova versão em cinema do sexto episódio de O Decálogo, que se referia ao pecado mortal da luxúria. O filme ia passar-se nos EUA, mas Asghar Farhadi acabou por sentir que os ambientes norte-americanos não eram os mais indicados para a história, e em 2025 rumou a França para ali rodar a fita, que localizou num bairro de Paris.    

No referido episódio de O Decálogo, um jovem e tímido carteiro polaco espia, ao longo de vários meses, uma vizinha que vive num prédio junto ao seu, uma rapariga de comportamentos bastante liberais. Apaixona-se por ela e começa a pensar em esquemas que lhe permitirão abordá-la e cativá-la. Em Histórias Paralelas, a protagonista é uma mulher, Sylvie (Isabelle Huppert), uma romancista excêntrica e teimosamente individualista que espia um apartamento do outro lado da rua, num prédio quase em frente ao seu. Ali funciona um pequeno estúdio de efeitos sonoros para cinema e televisão, onde trabalham dois irmãos, Pierre (Vincent Cassel) e Christophe (Pierre Niney), e uma rapariga, Nita (Virginie Efira).

Histórias Paralelas
Carole BethuelHistórias Paralelas

Sylvie começa então a imaginar o enredo do seu novo livro, utilizando os três como personagens. Dá-lhes outros nomes e envolve-os numa história de adultério, que a certa altura toma contornos de policial. Ao mesmo tempo, Adam (Adam Bessa), o rapaz que a sobrinha de Sylvie, Laurence (India Hair) contratou para ajudar a tia nas tarefas do quotidiano (e que esta começa por tratar com duas pedras na mão, porque não gosta de ter estranhos em casa), fica fascinado por Nita. E não encontra outra maneira de chegar à fala com ela do que fingindo ser escritor, recorrendo, sem esta saber, aos manuscritos de Sylvie, que passa como sendo de sua autoria à rapariga, para ela ler e lhe dar depois uma opinião. Quando Sylvie descobre, fica furiosa com Adam, mas por essa altura a ficção já começou a influenciar a realidade, e o filme a contemplar ambas as histórias. 

Histórias Paralelas
Carole BethuelHistórias Paralelas

Histórias Paralelas é, assim, mais uma fita com características “meta”, em que a história ficcional urdida por uma escritora e as histórias reais das pessoas em que ela se inspirou acabam por se influenciar umas às outras, e afectar seriamente as vidas de todos que nelas participam. Asghar Farhadi, também autor do argumento, com o seu irmão e habitual colaborador Saeed Farhadi, e para as distinguir visualmente, filmou as duas linhas narrativas de forma diferente: as sequências “reais” com câmara à mão e mais espontaneamente, e as “ficcionais” com iluminação mais cuidada e Steadicams. Refira-se ainda que Catherine Deneuve tem uma pequena participação na fita, no papel da agente literária de Sylvie.

O próximo filme de Asghar Farhadi deverá ser rodado de novo fora do Irão, já que o realizador declarou no Festival de Cannes que não voltará a trabalhar no seu país enquanto não for anulada a obrigação do uso do hijab pelas mulheres nos filmes e nas séries de televisão. A França poderá assim, muito provavelmente, voltar a ser o cenário da sua fita seguinte.

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