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Eduard Titov e Jurate Plungyte criaram uma app para promover a socialização offline. A ideia é descobrir, organizar e participar em eventos locais.

Estávamos em 2022 quando Anastasiya Liakh se mudou para Vilnius, na Lituânia, longe de saber que conheceria o seu futuro marido, Artsiom, por causa de uma nova rede social. “Havia um grupo a organizar uma viagem à Grécia e criaram um evento para que todos se pudessem conhecer antes. Eu nem sequer planeava de facto juntar-me, participei apenas porque estava livre naquela noite e achei que seria uma boa forma de conhecer gente nova”, conta-nos sobre a experiência com a Joiner, que chegou a Portugal neste mês de Março e permite descobrir, organizar e participar em eventos locais. A ideia é do lituano Eduard Titov, que apresenta a aplicação como “uma alternativa ao Tinder”: “Quando somos novos na cidade e ainda não conhecemos ninguém, é difícil fazer amigos e socializar. Eu próprio senti isso, é um problema global, a solidão urbana, e foi por isso que decidi juntar uma equipa para criar uma aplicação que promovesse a socialização offline sem a pressão das relações um-para-um”.
A proposta, que contraria a lógica do swipe infinito, não se baseia em avaliação de perfis, mas sim na organização e descoberta de actividades colectivas a partir de interesses em comum. No fundo, incentiva os utilizadores a fazer o que se fazia antes da Internet, a tomar conta das nossas vidas: sair à rua e procurar a nossa tribo no mundo. “Isso é algo que aprecio muito na Joiner, não há pressão nem expectativas. Podes simplesmente aparecer, fazer parte do momento e ver o que acontece”, diz Anastasia, que continuou a encontrar-se com Artsiom em diferentes eventos até que, um ano depois, tiveram finalmente “um encontro a sério”. “Mas, sinceramente, não parecia nada um primeiro encontro. Não houve constrangimento, nem pressão para nos impressionarmos um ao outro, porque já tínhamos estado juntos várias vezes. A partir daí, as coisas evoluíram bastante rápido. Em poucos meses, fomos viver juntos e, pouco tempo depois, ele pediu-me em casamento.”
Não há nada que saber, diz-nos Titov. Basta descarregar a aplicação, criar um perfil focado nos nossos interesses e começar a descobrir eventos por georreferenciação e preferência linguística, desde caminhadas na natureza a festas temáticas, ou até assumir o papel de anfitrião. Quem cria actividades – em venues públicas ou privadas – poderá consultar o perfil de quem manifestar interesse em juntar-se ao grupo, incluindo contas de Instagram associadas, e decidir se aceita ou não. A morada exacta só é revelada aos participantes aceites, que passam também a ter acesso a um chat dedicado, onde é possível conversar antes do encontro presencial. “É uma forma de reforçar a segurança e permite um maior controlo sobre a dinâmica do grupo. Não temos de aceitar se acharmos que a pessoa não se vai enquadrar”, explica. “Ver o perfil antes ajuda-nos a perceber, por exemplo, se já participaram noutros eventos ou se têm os mesmos interesses que nós.”
Artsiom, o marido de Anastasiya, é um dos utilizadores mais activos da Joiner. Nos últimos 18 meses, participou em mais de 200 eventos e organizou mais de 50, desde encontros informais a viagens internacionais a destinos como Itália, Estónia e Portugal. “Eu também gosto de organizar eventos, mas de uma forma um pouco diferente – por exemplo, organizo grandes festas de aniversário e celebrações de Ano Novo, que reúnem 50 pessoas ou mais”, partilha Liakh, que acredita que a app lituana não só “elimina a pressão associada às aplicações de encontros” como os ajudou a criar “um círculo social forte”. “Quando se vai a um evento de grupo, não se está lá com a expectativa de encontrar um parceiro ou de impressionar alguém. Vamos apenas para nos divertirmos, e isso cria um ambiente muito mais descontraído e natural e proporciona ligações autênticas porque baseadas em interesses reais comuns.”
Kristine Saralidze sente exactamente o mesmo. Natural de Tbilisi, na Geórgia, mudou-se para Lisboa em Setembro de 2025, depois de uma temporada em Budapeste, e não podia estar mais satisfeita com a sua experiência com a Joiner. “Sinceramente, quem me dera ter tido o Joiner quando vivia em Budapeste. Acho que teria facilitado muito a minha adaptação por lá. Comparando as duas experiências, vejo claramente que já melhorou a minha estadia em Lisboa”, diz-nos. “Trabalho em engenharia de software, e as pessoas na minha área tendem a ser bastante introvertidas, por isso construir uma rede de contactos apenas através do trabalho ou da universidade nunca foi realmente suficiente. Tive sempre de procurar noutro lado – eventos de meetup, grupos sociais, esse tipo de coisas. Mas isso torna-se cansativo. A maioria dos eventos não é gratuita e parecem muito aleatórios – conhece-se muita gente, mas raramente se chega a conhecer alguém a um nível mais profundo. O que adoro no Joiner é que elimina essa aleatoriedade.”
Como a plataforma não permite a criação de perfis comerciais, não há publicidade directa nem conteúdos promocionais, mas é possível monetizar iniciativas locais, uma vez que, ao assumir o papel de anfitrião, também é possível criar eventos pagos. A aplicação, que neste momento é totalmente gratuita, ainda não integra transferências de dinheiro, mas a ideia é que, ao gerar tráfego real para os espaços através dos eventos organizados, a equipa da Joiner também receba comissões. “Por enquanto, não nos intrometemos. As pessoas fazem os pagamentos fora da plataforma. Mas, mesmo quando for possível pagar directamente na app, a ideia é que os eventos sejam criados por pessoas reais. Por exemplo, tenho um amigo que se tornou influencer na Joiner e no outro dia telefonou-me a agradecer-me, porque tinha ganhado 250€. ‘Foi o dinheiro mais fácil de ganhar da minha vida’, disse-me. ‘Telefonei a um bar e perguntei-lhes se partilhavam a receita da noite comigo se eu conseguisse lá levar 200 pessoas’. Basicamente, organizou uma noite de karaoke.”
Há ainda uma vertente de gamificação. “Queremos construir uma espécie de jogo social, que seja divertido e que incentive ao uso da plataforma. Funciona com desafios – cria um evento, participa numa actividade, segue pessoas, adiciona fotografias ao teu perfil, e por aí fora. À medida que fores completando tarefas, vais ganhando estrelas, que te permitem subir de nível. Quanto maior o nível, mais popular és. E, no futuro, também permitirá desbloquear ferramentas adicionais”, desvenda Titov. “De momento, tudo é gratuito e ilimitado, porque queremos que as pessoas se familiarizem com a aplicação e consigam perceber todas as suas potencialidades. Por exemplo, é possível conversar um-a-um dentro da plataforma, mas só com pessoas que nos seguem e nós seguimos de volta – se não for mútuo, não é possível, só dá para conversar dentro dos chats dos eventos.”
A Joiner foi lançada na Lituânia há mais de um ano, mas só agora começou a expandir-se internacionalmente. A decisão foi tomada em Novembro do ano passado, após uma visita a Lisboa durante a Web Summit. “Apaixonámo-nos pela cidade e temos vindo cá muitas vezes”, confessa Jurate Plungyte, co-fundadora da Joiner e antiga directora de marketing da Uber na Lituânia. “Lisboa é muito dinâmica, há muitos eventos a acontecer a toda a hora, e há muitos estrangeiros à procura de uma solução como esta, porque são quem mais dificuldades tem a encontrar a sua comunidade.” Para suportar o lançamento em Portugal, estão a investir-se mais de 300 mil euros na contratação de equipas locais nas áreas de marketing e tecnologia, para que o país possa funcionar como base operacional da estratégia de crescimento da plataforma – o próximo passo será a expansão para Espanha – Jurate vive em Málaga – e para a Chéquia, ainda em 2026. “O Brasil também é uma prioridade e esperamos entrar no mercado norte-americano até 2030”, revela-nos.
No futuro, haverá um modelo de subscrição premium. A ideia é que utilizadores regulares possam usufruir de maior visibilidade, vantagens exclusivas e acesso a eventos restritos. Já para quem organiza eventos, estão previstas ferramentas avançadas, como análise de dados das comunidades e opções de promoção de eventos. “O objectivo é criar um ecossistema em que todos beneficiam. Os espaços ganham clientes, os influenciadores rentabilizam a sua capacidade de mobilizar pessoas e a plataforma captura valor ao facilitar estas interacções”, diz Titov. André Gomes, que se apresenta como “curador de boas vibes em Lisboa”, não podia concordar mais: “A Joiner tem-me ajudado a alargar a minha rede de contactos, a conhecer pessoas de diferentes origens e a criar mais oportunidades de interacção através de experiências. Em vez de ter de organizar tudo sozinho, posso aproveitar o que já está a acontecer e reunir as pessoas em torno disso. Por isso, tem ampliado realmente tanto a minha vida social como o projecto que estou a construir.”
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