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Vieram da Cisjordânia e trazem a Portugal a peça ‘15, 16 Years Old’, com apresentações entre 19 e 27 de Setembro.

São cinco, têm entre 14 e 16 anos, e fazem parte do The Freedom Theatre, grupo de teatro de Jenin, na Cisjordânia. É a primeira vez que estão fora do seu país: nunca viram o mar, nunca viram a paz. Mas esta sexta-feira, 19 de Setembro, estreiam-se em Portugal, no Teatro Miguel Franco, em Leiria, com o espectáculo 15, 16 Years Old – Stories of Children Who Never Grow Up, que transforma o medo, o luto e a violência quotidiana em resistência colectiva. Aws Abu Aita, Mohammed Toobasi, Mohammed Abu Alhayjaa, Nadim Lahlouh e Tareq Alhassan. É como se chamam os jovens actores, que também vão subir a palco a 22 de Setembro, n’O Teatrão, em Coimbra; a 23 de Setembro, no Clube Fenianos Portuenses, no Porto; e nos dias 26 e 27 de Setembro, no Teatro da Barraca, em Lisboa.
A Cisjordânia está sob ocupação de Israel desde 1967. No norte, Jenin – bastião da resistência armada palestiniana – é um importante centro agrícola do Estado da Palestina, mas foi invadida durante a Operação Escudo Defensivo, em 2002, e as forças armadas israelitas continuam a realizar incursões regulares ao local. Em Janeiro deste ano, o campo de refugiados foi evacuado e a sede do The Freedom Theatre transformada numa base militar. Todos os habitantes, incluindo os intérpretes de 15, 16 Years Old, foram forçados a abandonar as suas casas e a viver dispersos, privados dos seus bens e do território onde nasceram e onde faziam teatro desde 2006, ano em que o artista Juliano Mer-Khamis deu continuidade ao legado revolucionário da sua mãe, Arna Mer, que criara espaços seguros durante a Primeira Intifada, para o desenvolvimento artístico e social das crianças do campo.
“Eu estava em Jenin quando a peça foi apresentada pela primeira vez, a 4 de Outubro de 2023”, recorda a realizadora Diana Antunes, que acompanha e documenta o trabalho do The Freedom Theatre desde 2018, ainda que interruptamente, uma vez que os vistos são de apenas três meses. “Foi o primeiro trabalho como encenador do Mahmoud Aita, que queria dar a conhecer histórias de crianças que foram mortas dentro do campo de refugiados, no decorrer de invasões militares [por parte de Israel]. E eu tive a ideia de os trazer a Portugal para, por um lado, os motivar, para que continuem a fazer teatro; e, por outro, dar-lhes oportunidade de partilhar as suas histórias com o mundo, mas acima de tudo de experienciar outra realidade”, diz, antes de nos confessar que tem sido, naturalmente, um processo muito difícil. “Mas finalmente tivemos resposta positiva.”
A equipa chegou a Lisboa na quinta-feira, dia 18, às 22.00, e a Leiria esta sexta-feira, dia 19, às 02.00. “Foi uma loucura”, conta. “Tivemos horas e horas parados dentro de autocarros, nas fronteiras. Estamos completamente exaustos. Foram dois dias bastante intensos, até porque foi a primeira vez que eles andaram de avião e não conseguiram dormir. Estavam com muita adrenalina e com muito medo também. Perguntaram-me ‘mas o piloto sabe para onde queremos ir?’. Depois no hotel queriam telefonar aos pais e tiveram de lhes explicar que não dá para fazer chamadas internacionais. Hoje acordámos, tomámos o pequeno-almoço, descansámos e começámos a ensaiar para a estreia.”
Como é que se transforma a dor em arte? É a pergunta que não conseguimos calar. Diana não hesita em responder, porque – como quem vive ou já esteve na Palestina sabe – a vida privada de liberdade leva a um certo automatismo. “Em 2018 e 2019, apesar de haver memória do massacre de 2002 – durante o qual Israel destruiu 80% do campo de Jenin e matou muitos habitantes –, a situação estava bastante calma e eu não tive contacto com violência nem com resistência armada. Mas em 2023 voltei para um universo completamente diferente, em que semanalmente se invadia o campo e havia muitas mortes. Infelizmente é de tal maneira rotina que para estes jovens [pensar na morte e na perda e falar dela] é hábito. Agora que o campo foi evacuado sinto muito mais depressão.”
Actualmente, dos cinco jovens, apenas um deles frequenta a escola, partilha Diana. Os outros não têm dinheiro nem forma de lá chegar, e estão pela primeira vez longe dos amigos. Essa perda – do sentido de comunidade – é maior do que a morte. “A morte é o dia-a-dia deles. Eles estão a fazer o luto e no dia a seguir há uma nova invasão. Quando estás constantemente neste ciclo, não tens tempo para pensar, e eu acho que nenhum deles processa realmente o que lhes acontece, porque não têm tempo para isso.” Em Portugal, talvez tenham, e isso preocupa-a. “É difícil fazer acompanhamento psicológico e o meu receio não é tanto pelo choque de realidade, mas pelo tempo que vão estar fora da Palestina. De repente, têm tempo para processar. Isso é o que me assusta mais. E eu disse-lhes, assusta-me que, no meio do silêncio, voltem a reviver tudo.”
Em palco e no cinema, não se vão ver as invasões nem a violência, mas como é que a vida continua apesar disso. “Como é que eles seguem a resistir com tudo o que está a acontecer. Porque a verdade é que eles têm uma forma leve, porque de facto não há outra maneira de lidar”, diz Diana, que também já perdeu amigos em Jenin. “Um foi cinco minutos depois de eu ter saído da sua casa. As forças especiais chegaram e mataram o meu amigo. Ao mesmo tempo, havia várias pessoas a ligar-me porque achavam que eu ainda lá estava”, relembra, antes de confessar que desenvolveu um transtorno de stress pós-traumático e precisa de medicação para controlar a ansiedade. “Apesar disso, não faria nada diferente do que fiz até hoje.”
O desejo – de Diana e dos actores palestinianos – é que Portugal fique a conhecer um pouco melhor a realidade de Jenin. Os diálogos do espectáculo são interpretados em árabe, mas há legendas em português. No final de cada sessão, haverá tempo para uma conversa entre os actores e o público. A receita de bilheteira, assim como eventuais donativos e apoios adicionais, será destinada a cobrir custos da viagem, do alojamento e da alimentação dos jovens, revertendo o excedente para a reconstrução do trabalho do The Freedom Theatre. “A força, a garra e a esperança caracteriza muito os palestinianos. Nós temos muita dificuldade em ver a luz ao fundo do túnel, mas isso foi sempre uma coisa que admirei bastante e que sempre me motivou a avançar com o projecto. Sentir ‘pá, como é que é possível que estas pessoas levem porrada o dia todo e continuem a levantar-se todos os dias’. Mas, hoje em dia, o único objectivo das pessoas de Jenin é voltar para o campo.”
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