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"Kalabongó", a exposição para onde descemos às escuras até encontrar uma saída, como os palenques

O fotógrafo premiado Jorge Panchoaga mostra como uma comunidade afrodescendente usou a escuridão para se tornar no primeiro povo livre da América. E também "que coisas não se deveriam repetir."

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Kalabongó, de Jorge Panchoaga
Narrativa | Kalabongó, de Jorge Panchoaga
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Numa das imagens de Jorge Panchoaga vêem-se pirilampos. "Kalabongó" é a palavra para dizê-lo, em crioulo palenque. Na língua das plantas, ouvida pelos homens, eles existem no escuro, a única janela de afirmação destes insectos mágicos, em risco em diferentes partes do planeta. Foi talvez mimetizando-os que, em 1599, Benkós Biohó, negro, africano, escravizado, fugiu de Cartagena (Colômbia) a meio da noite com quatro homens, a esposa e outras três mulheres, em busca da liberdade. Eles e outros 30 escravos de outros lugares conseguiram afirmar os palenques como aquela que é considerada a primeira comunidade livre da América.

"Da primeira vez que fui a [San Basilio de] Palenque, [em 2017] não fiz fotografias. Fui apenas para conhecer o lugar, as pessoas", conta o multipremiado fotógrafo Jorge Panchoaga à Time Out, na galeria Narrativa, com o relógio ainda a marcar as 06.42 de Bogotá (em Lisboa, era quase meio-dia). Meses depois, o vencedor por cinco vezes do prémio Picture of the Year (POY) voltou à comunidade com equipamento fotográfico e uma leitura considerável sobre a história palenque. "Levava coisas na cabeça", como o imaginário das lutas com os soldados da coroa espanhola, as casas queimadas, "coisas desse tipo", explica. 

Kalabongó
Jorge PanchoagaKalabongó

Feito por temporadas, o trabalho prolongou-se até 2021 e resultou no livro Kalabongóapresentado em diferentes países da América e, este Verão, nos Encontros de Fotografia de Arles, França, onde foi descoberto por Mário Cruz, fundador da Narrativa. Antes de partir para o Paris Photo, onde está nomeada para Livro do Ano, a penumbra contadora de histórias de Panchoaga fica até Dezembro na galeria junto à Avenida de Roma, sob uma curadoria singular. O visitante desce à cave iluminada de vermelho, munido de uma lanterna (vão, no máximo, dez pessoas de cada vez, para que a intensidade da luz não perturbe a percepção), onde quase todas as fotografias (à excepção de uma) parecem ser a preto e branco à primeira vista. Apontando a luz para as imagens, onde estão pequenos animais e gestos do território palenquero, surgem os detalhes e a cor. 

Kalabongó
Jorge PanchoagaKalabongó

As lanternas são uma forma de "dar luz ao que eles, os palenques, também conseguiram dar", explica Mário Cruz. Mas "a última fotografia não vai mudar de cor", nota o curador da exposição. "As pessoas, às vezes, desligam a lanterna e voltam a ligar, para tentar perceber se está tudo bem. Ficam à frente da fotografia a ver se muda", descreve. Mas "Kalabongó" é também uma exposição para mostrar que os palenques conseguiram a sua liberdade há séculos, mas ainda existem muitos processos de violência, resistência e luta em curso.

Violência e afirmação, ainda hoje

Num salto até ao presente e, inclusive, à vida de Panchoaga, as pontes são fáceis de firmar. "O que une este trabalho ao meu trabalho em geral é a questão da resistência. Os meus pais foram líderes estudantis e presos políticos, foram torturados. O meu pai teve de fugir do país porque queriam matá-lo. Mataram o meu tio... Em 1985-86, eu era muito pequeno, a minha mãe [descendente de um povo indígena] foi ameaçada de morte e teve de fugir para outra cidade. Foi como viver na clandestinidade", conta o fotógrafo. A família acabou por conseguir fixar-se em Bogotá. Mas, como sublinha o autor, "na Colômbia, continuam a matar pessoas afro ou indígenas por defenderem o seu territórioMatam-nas, porque há operações de mineração ilegal ou narcotráfico associados. Ao mesmo tempo, é um país devoto em assinar tratados de paz para poder desarmar as pessoas e depois aniquilá-las. Por isso, de alguma maneira, falar do assunto [dos palenques] agora permite-nos entender que coisas não se deveriam repetir."

Kalabongó
Jorge PanchoagaKalabongó

Com muitos flashes e uma técnica exímia de captar as partículas da noite, entre pirilampos, morcegos, raízes, ramos e ervas, os dias de Panchoaga em San Basilio Palenque, reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2005, aproximam-nos também de uma vida e de um tempo onde a velocidade não é vantagem. Onde se pára para observar o que parece banal e se percebe, com o tempo, que há mais a contar. Numa das fotografias, por exemplo, saem sementes do cabelo de uma mulher. "Elas levavam-nas escondidas, para depois as poderem plantar", explica Mário Cruz. Porque quem foge não sabe se, para onde vai, existe comida. 

Rua Dr. Gama Barros, 60 (Roma). Qua-Sex 14.00-19.00, Sáb 14.00-17.00. Até 20 Dez. Entrada livre

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