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Mais perto de António – 85 fotografias põem-nos na sala com o homem que casou Amares com Nova Iorque

Roupa à medida e em segunda mão, bijuteria da Feira da Ladra, pincéis de barbeiro e retratos do homem que marcou para sempre a iconografia e a pop portuguesas chegam ao MUDE.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
António Variações
Teresa Couto Pinto | António Variações
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"Meu nome António" inaugura a 3 de Dezembro, o dia em que António Joaquim Ribeiro faria 81 anos. Nada é por acaso nesta exposição, nem as datas. António é, claro, António Variações, o homem que saiu de Fiscal, Amares, Braga, Minho, cheio de ânsias. Cumpriu o serviço militar em Angola, foi, como tantos outros, à procura de uma vida melhor em Lisboa, viajou. "Rejeitou acabar num trabalho a apanhar caixotes. Pediu à irmã que o inscrevesse no curso nocturno d'A Voz do Operário", conta Teresa Couto Pinto, amiga, agente, fotógrafa e cúmplice do autor de "Estou Além".

Foi a ela que António rapou a cabeça no espaço unissexo É Pró Menino e Prá Menina, na Rua de São José, e é graças a ela que se montou esta exposição na Sala dos Cofres do MUDE. "Uma exposição de fotografia", como frisa Bárbara Coutinho, directora da instituição, mas que também inclui vídeo, "tops" improvisados, achados da feira e roupas feitas à medida (como o fato amarelo e verde com que dança em "O corpo é que paga"), chapéus, óculos de sol, brincos, pincéis de barbeiro. "Íamos à Feira da Ladra muito, muito cedo, porque ele queria apanhar as melhores coisas. Às vezes mesmo de noite, de lanterna", recorda a fotógrafa que assina as 85 imagens captadas entre 1981 e 1983, a cores e a preto e branco.

Além das provas de contacto (cerca de 300 negativos estão a ser digitalizados, num esforço pioneiro de preservação) e da câmara Olympus OM-1 que fazem o arranque da exposição, da casa de Teresa vieram também quase todas as outras peças. "Ele comprava pares de brincos, depois pegava num e dizia 'toma'. E eu ficava com o outro", conta, aludindo a uma das imagens de marca do artista. Apenas o casaco em tafetá axadrezado, Pierre Cardin, comprado num mercado de segunda mão no estrangeiro, e uns óculos de sol vieram de outro coleccionador.   

António Variações
Teresa Couto PintoAntónio Variações

A ideia de fazer uma exposição sobre o universo de Variações começou a ser discutida em 2020-2021, estava o museu encerrado ao público. "Estávamos a preparar a exposição do Portugal Pop e um dos artistas que íamos destacar era o António Variações", conta Bárbara Coutinho. Começaram, então, a pesquisa, os contactos e a colaboração com a produtora Terra Esplêndida, da qual partiu, aliás, a proposta e que procurava alguma instituição que quisesse mostrar este espólio de valor. O interesse do MUDE é óbvio: "Ele não seguia modas, fazia a sua própria moda. Misturava várias referências, do folclore à pop à art déco, nas peças que tinha e nas que mandava confeccionar. Sempre com grande autenticidade", resume a directora. "E fazia-o não para chocar ou para ser diferente, mas porque ele era assim", remata.

António Variações
Teresa Couto PintoAntónio Variações

O facto de ser "a primeira vez que algumas destas fotografias são vistas", como sublinha Rui Pereira, da Terra Esplêndida, é um dos grandes trunfos da exposição, sobretudo pelo facto de, nelas, podermos ver sequências, experiências e encenações entre António Variações e Teresa Couto Pinto. Mais de 40 anos depois. São fotografias que assentam em sessões para capas de álbuns, mas que também mostram António a experimentar diferentes visuais e expressões em frente à câmara, ele que "era um modelo fantástico", não só pelo trabalho físico e pelo elogio do corpo, como pela noção de pose, enquadramentos e luz, como conta a fotógrafa.

As célebres imagens das tesouras estão entre as preferidas da autora. E sobre elas Teresa recorda ter perguntado ao artista: "Queres melhor símbolo para ti do que uma tesoura aberta, que faz um A e um V, de António Variações?" Mas também há António na Fonte da Telha, António com o casaco militar, com o macacão, de tronco nu ao lado de um vestido salmão, António brilhante, António esquecido de que é Variações.

António Variações
Teresa Couto PintoAntónio Variações
António Variações
Teresa Couto PintoAntónio Variações

A exposição termina a 26 de Abril, o primeiro dia completo de liberdade (já havíamos dito que as datas não seguiam o acaso). Depois há-de ser publicado um livro com fotografias do homem alienígena, que encontrou a identidade, como dizia, algures entre Braga e Nova Iorque. "É importante manter o António uma figura viva", conclui a fotógrafa Teresa Couto Pinto.

Rua Augusta, 24 (Baixa). 4 Dez-26 Abr, Ter-Qui e Dom 10.00-18.00, Sex-Sáb 10.00-20.00. 11€ (entrada livre Sex 17.00-20.00/21.00 e Dom 10.00-14.00). Inauguração: 3 Dez, 19.00-20.00. Entrada livre

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