Notícias

Mais sagrado do que profano, Cabrita Reis expõe quase 200 obras inéditas no MAAT

Ainda a comemorar o 10.º aniversário, o MAAT abre a Galeria Oval a um conjunto de obras (quase todas inéditas) de Pedro Cabrita Reis. Com a História da Arte no centro, o artista vagueia entre cenas bíblicas, erotismo e os grandes mestres.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
"com o coração livre de cuidados", Pedro Cabrita Reis, MAAT
Bruno Lopes | "com o coração livre de cuidados", Pedro Cabrita Reis, MAAT
Publicidade

Aos 70 anos (feitos há pouco mais de uma semana), Pedro Cabrita Reis ocupa pela primeira vez o MAAT com uma exposição individual. "com o coração livre de cuidados", uma espécie de antecipação da sinopse fúnebre, não é uma retrospectiva, mas sim um conjunto de obras produzidas maioritariamente durante os últimos dois anos, já a pensar no convite feito pelo museu e pelo seu director, João Pinharanda, que é também o curador da exposição.

A pintura ganha destaque, juntamente com a evocação de cenas bíblicas. Terá Cabrita Reis enveredado pelos caminhos da fé? O próprio esclarece que não. A sua fé na História da Arte, essa sim, segue inabalável. "Aquilo em que acredito verdadeiramente é no poder de transformação da arte. E essa arte, em mim, hoje, agora e nos últimos anos, tem sido um retomar de um processo de aprendizagem directa sobre o território de fé que é, unicamente, a História da Arte. Quando me debruço sobre uma temática formal e conceptual, aparentemente ligada às interrogações que decorrem da análise dos textos da liturgia ou dos evangelhos, de narrativas que vão desde a mitologia de Adão e Eva até, enfim, à Pietà, na verdade, o que me interessa é olhar para a forma como, ao longo da história, os que me precederam abordaram esses temas. Não faço aqui um exercício de devoção. Faço daqui uma transformação daquilo que é, para mim, a origem", contextualiza o artista.

O calvário, a pietá e o pecado original – os evangelhos segundo Cabrita Reis

"No princípio era o verbo, diz-se no início dos textos litúrgicos. No princípio era a pintura, era a História da Arte", remata. As representações de episódios bíblicos esperam-nos no centro da Galeria Oval. São obras produzidas entre 2025 e 2026, a começar por 3=1, três estruturas de alumínio, especulação abstracta sobre o dogma da Santíssima Trindade. De Descend from the cross, um tríptico escultórico, a narrativa católica continua em Doppia Pietà, três telas em que o artista se desvia da iconografia sacra, duplicando elementos.

"com o coração livre de cuidados", Pedro Cabrita Reis, MAAT
Bruno Lopes"com o coração livre de cuidados", Pedro Cabrita Reis, MAAT

A horas da inauguração da exposição, que teve lugar na última terça-feira à noite, Pedro Cabrita Reis adicionou mais uma série de pinturas à exposição. Em 13 telas figuram Cristo e os 12 apóstolos. Vão enfileirar-se numa das paredes da galeria. A inspiração pode ter vindo do apostolário de El Greco, mas a ordem será a de da Vinci, em A Última Ceia. Da vontade de adicionar verticalidade ao circuito expositivo, surge Adam and Eve, mais uma obra tripartida de grande escala. Nas telas, o artista reverte a ordem em que Adão e Eva surgem historicamente representados. Eva surge à esquerda, posição de força e dominação no cânone pictórico.

No encalço dos grandes mestres

Cabrita Reis fala numa "aparente dicotomia" entre a "representação da natureza e a representação do corpo" como uma nota de topo para entender a exposição. A dicotomia de que fala tem nas séries Nymphaea Redux e Le Musée secret a sua demonstração perfeita. A primeira é composta 28 quadros – pinturas a óleo sobre madeira de carvalho –, com o artista a empregar métodos pouco ortodoxos. Toda a série foi pintada com esfregonas. "Não sei pintar devagar, só sei pintar muito depressa", exclama. A série é, na verdade, o olhar o artista para os nenúfares de Claude Monet, traduzido numa nova panorâmica.

Na mesa que já se avista no centro da galeria estão 110 desenhos. Em Le Musée secret, Cabrita Reis limitou-se a registar "a mão solta" cada um dos desenhos de modelos nus que Rodin deixou num álbum secreto, descoberto postumamente e publicado com esse mesmo título. Partindo da ideia do "livro como modelo", Cabrita Reis desenhou várias das silhuetas femininas em poses eróticas – um reduto profano, no meio de tantas alusões ao sagrado.

"com o coração livre de cuidados", Pedro Cabrita Reis, MAAT
Bruno Lopes"com o coração livre de cuidados", Pedro Cabrita Reis, MAAT

A exposição abre ao público esta quarta-feira, 16 de Setembro, e já conta com uma programação para as próximas semanas. No dia 4 de Outubro, haverá uma performance de ópera pela Associação Setúbal Voz, às 16.00 e às 18.00, com entrada gratuita. Para o mesmo dia está agendada uma conversa com o curador João Pinharanda e com o maestro Jorge Salgueiro. É às 17.00.

As visitas regulares à exposição acontecem todos os sábados e domingos às 10.00. Diariamente, há visitas flash gratuitas, às 13.00 e às 17.00.

Avenida de Brasília (Belém). Qua-Seg 10.00-19.00. Até 15 de Fevereiro. 11€

🎭 Mais cultura: arte, livros, música, teatro e dança em Lisboa

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias
    Publicidade