Notícias

'Marilyn', de Andy Warhol, está viva por umas horas neste altar profano da Gare do Oriente

Depois da instalação criada na estação de Atocha, em Madrid, o suíço Thomas Hirschhorn voou para Lisboa com a peça que Warhol pintou em 1986. Para ver até às 18.00.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
'POP-UP-MARILYN', de Thomas Hirschhorn
Carolina Lopes | 'POP-UP-MARILYN', de Thomas Hirschhorn
Publicidade

Subidas as escadas rolantes da Gare do Oriente, vê-se um stand de promoção a uma conhecida marca de iogurtes. Do outro lado, está Thomas Hirschhorn, em velocidade furiosa, a montar um altar precário, cheio de mensagens e fotografias coladas em cartões, peluches de ovelhas, macacos e outros animais, oferendas de laranjas e maçãs, incenso e jarras com flores. "O que é isto?", pergunta uma transeunte. É a pergunta certa. "Isto" é um dos altares do artista suíço de 68 anos, radicado em Paris, desta vez dedicado a um dos artistas que mais o influenciou: o rei da pop art, Andy Warhol. Mas é também um sublinhar do ícone Marilyn Monroe, a partir da obra original criada em 1986 por Warhol, que viajou de Cáceres até Lisboa, para ocupar o centro do altar.

"Faz lembrar o passado, as festas que se faziam. Era tão saudável e bonito. Hoje as pessoas estão muito egoístas, não querem saber umas das horas", continua a transeunte, como que numa resposta a si própria. É este acto de questionamento, de confronto com quem passa, que procura Thomas Hirschhorn com as suas instalações cacofónicas no espaço público.

Ao mesmo tempo, também procura chamar a atenção para a forma como podemos mudar o curso dos dias e o espaço, para a efemeridade e para o carácter aleatório dos acontecimentos. "Escolho locais que não estejam no centro ou em pontos estratégicos de uma cidade, apenas qualquer lugar. Da mesma forma que as pessoas podem morrer em qualquer lugar. A maioria das pessoas não morre no meio de uma praça ou numa bela avenida; as suas mortes raramente acontecem num local estratégico, mesmo as pessoas famosas não morrem no 'centro'. Não existe uma hierarquia de localização entre pessoas anónimas e famosas. Existem locais inesperados", esclareceu o artista em 2003, sobre a sua série de altares. Na Gare do Oriente, entre pausas para entregar flyers a quem se cruza com a obra, acrescenta: "Sinto-me um pouco estúpido neste papel, mas uma parte da minha missão como artista é ter uma audiência não-exclusiva, o que nem sempre é confortável, porque as pessoas estão aqui para apanhar comboios e não para ver obras de arte. Mas, para mim, é importante o facto de não estarmos aqui sozinhos. Há outras pessoas ao lado, a fazerem o seu trabalho, a venderem seja o que for, por razões políticas ou não. E coabitamos todos o mesmo espaço", afirma Hirschhorn, apontando para o stand de iogurtes.

Montagem de 'POP-UP-MARILYN', de Thomas Hirschhorn
Carolina LopesMontagem de 'POP-UP-MARILYN', de Thomas Hirschhorn

POP-UP-MARILYN pode ser vista até às 18.00 desta quinta-feira, 26 de Fevereiro, na Gare do Oriente, trazendo para o espaço a imagética dos memoriais a vítimas de acidentes, atentados ou homicídios. Para os menos atentos, Marilyn será apenas um adereço no meio do caos, mais uma vez questionando a ideia de hierarquia e ainda o "estatuto de monumento". Mas entre os altares do artista, este é apenas o segundo a descontextualizar o habitat natural de uma obra original, os restantes fizeram-se com réplicas. Por outro lado, se para ser monumental o valor de mercado é critério, saiba-se que enquanto os primeiros prints de Marilyn, nos anos 60, não chegavam aos 300 euros, em 2022, Shot Sage Blue Marilyn foi vendido por 195 milhões de dólares num leilão. 

Um convite para ir a Cáceres

A segunda pergunta poderia ser: "Que raio de flyers são estes que aquele homem alto está a entregar às pessoas?" São um convite a celebrar o quinto aniversário do Museu Helga de Alvear (até 1 de Março), em Cáceres, e a ver a exposição antológica de Hirschhorn, "My Atlas # Our Atlas", até Maio, no mesmo museu. É nesse âmbito, aliás, que a instalação POP-UP-MARILYN, com Marilyn (1986) ao centro, conquistou espaço em Lisboa. "Desde que estou em Cáceres que quero trabalhar com Espanha, mas também estabelecer relações privilegiadas com Lisboa. Porque estamos mesmo no meio, entre Lisboa e Madrid. E esta é também uma forma de trazer o museu para fora", explica a directora do museu, Sandra Guimarães. 

 'POP-UP-MARILYN', de Thomas Hirschhorn
Carolina Lopes'POP-UP-MARILYN', de Thomas Hirschhorn
 'POP-UP-MARILYN', de Thomas Hirschhorn
Carolina Lopes'POP-UP-MARILYN', de Thomas Hirschhorn

Dois dias antes de ser construída em Lisboa, POP-UP-MARILYN foi erguida na estação de Atocha, em Madrid, com as mesmas peças, mas uma composição diferente. "Não é preciso estar perfeito. Não é isso que é importante. Mas há pequenas decisões que são importantes, como não deixar a Marilyn sozinha", explica à Time Out o artista, cujo trabalho faz parte de colecções como as do Centro Pompidou, do MoMA ou da Tate Modern, e que tem agora, durante umas horas, a primeira obra de arte pública exposta em Portugal. 

O mais recente altar criado pelo suíço foi uma homenagem a Kazimir Malevich, em 2024, a partir de uma obra original da colecção do Pompidou. Os altares, diz o artista, "servem para dar memória a alguém que morreu e que foi amado por alguém", mas o seu desaparecimento "é tão importante como a sua presença". "A memória do que é importante não precisa de um monumento", remata Hirschhorn.

Gare do Oriente. 26 Fev, Qui 11.00-18.00. Gratuito

🎭 Mais cultura: arte, livros, música, teatro e dança em Lisboa

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn 

Últimas notícias
    Publicidade