Escolha um lugar na esplanada e instale-se virado para o rio: vai começar o espectáculo. Um dos motivos para o Almadrava, no Campo de Santa Clara, abrir às 18.30 é o facto de, aqui, se comer também com os olhos. O Tejo está lá em baixo, qual fundo de um postal; o Panteão Nacional ergue-se mesmo em frente; o jardim Botto Machado fica do lado esquerdo; e, por volta da hora do jantar, o azul do céu vai mudando de tonalidade, dando lugar a tons de rosa ou laranja até o sol desaparecer e se instalar a noite.
É certo que tivemos sorte (escolhemos uma noite de Verão em pleno Outono), mas mesmo que a temperatura não permita estar na rua ou o céu esteja mais carregado, a vista continua a ser de tirar o fôlego vista através das portas grandes e envidraçadas do restaurante.
Aberto há pouco menos de dois meses, este é o segundo projecto de Frederico Frank e Rodrigo Braga (depois daTaberna Meia Porta), dois brasileiros apaixonados por Lisboa. O primeiro coordena a cozinha, o segundo trata da parte administrativa e financeira. Quando é preciso, também dá apoio à sala. É o caso desta noite, com a esplanada cheia e vários idiomas a misturarem-se no ar.
“Até agora, a procura tem sido bastante homogénea, com pessoas do bairro, mas também muitos turistas”, descreve Rodrigo. “Os portugueses gostam de se sentar, ficar à mesa a conversar e a curtir o momento. Os estrangeiros têm um roteiro definido: eu vou à Feira da Ladra [nos dias de feira o restaurante abre também para almoços], como por lá e visito o Castelo de São Jorge”, acrescenta Fred.
Durante 40 anos fizeram-se ali bifanas. Depois instalou-se um restaurante vegetariano. Esteve aberto durante sete anos, até os donos quererem fechar. Amigos de Rodrigo, pediram-lhe ajuda e conselhos. Acabaram por vender o espaço à dupla, que optou por fazer apenas uma renovação da sala, transformando-a ao estilo de uma peixaria — afinal, o que se come no Almadrava vem essencialmente do mar. Instalaram prateleiras em inox, compraram os candeeiros compridos e industriais num antiquário e resgataram cadeiras escolares com muitas dezenas de anos. O resto foi-lhes oferecido de bandeja. “Já tínhamos a esplanada, já estávamos na rua, perto do Panteão Nacional, com esta vista. O que pedir mais?”, explica Fred.
Em comum com a Taberna Meia Porta, só há o molho pica-pau que acompanha o bife de atum (21€), um dos pratos mais pedidos. “Tem o mesmo que vocês, portugueses, colocam: vinho branco, louro, pickles, cenoura, mostarda e cebola”, revela o brasileiro apaixonado por cozinha portuguesa. Porém, dá-lhe um toque extra: “Junto natas e curcuma para chegar a um tom de amarelo”.
A Caixa do Mar (32€) faz um pijaminha de marisco para que nada fique por provar. Tem ostras com pickles de malagueta, camarão com molho cocktail, patê de sapateira com tostas, mexilhão com escabeche e crudo de atum. É ideal para dividir. Mas há outros imperdíveis, como aamêijoa à bulhão pato(13€), cujo molho é para acabar com a ajuda do pão saboroso e crocante que vem da Bike Bakery; ou atiborna de requeijão com anchovas e biqueirão(10€). Os sabores do mar ligam igualmente bem com o Carpaccio de tomate e alho francês (12€), cuja frescura se destaca com gomos de laranja.
No futuro, quando a carta mudar ou for alargada, a ideia é ter mais opções de atum. Aliás, a palavra “almadrava”, que dá o nome ao restaurante, está ligada à pesca desta espécie. “Foram os fenícios que inventaram. São redes de pesca compridas que ficam presas com âncoras e criam uma espécie de labirinto. O atum acaba por entrar nesse circuito e fica lá preso. Os peixes pequenos passam porque os buracos são grandes, mas os atuns ficam cercados e são engordados na água. Ficam ali a nadar e criam essa gordura”, explica Fred.
Os pratos de peixe e marisco pedem um vinho fresco. O Ethos (30€), por exemplo, acaba de chegar da Beira Interior para se juntar à carta – mas há igualmente sugestões do Alentejo, de Lisboa, de Itália ou França, assim como sangria, cocktails e cerveja da Musa.
À sobremesa conte com uma terrine de chocolate com ginja (6,5€) para cortar o açúcar e garantir uma boa dose de frescura, ou o cheesecake com calda de goiaba vermelha (7€).
Frederico Frank mudou-se para Portugal há cinco anos porque queria que os filhos estudassem na Europa e, ao mesmo tempo, sabia que a sua área lhe permitiria trabalhar em qualquer sítio. “Sou de São Paulo, desisti da escola com 17 ou 18 anos e o meu pai disse-me que, se eu não queria estudar, tinha de me profissionalizar em alguma coisa.” Tirou um curso de cozinheiro, trabalhou com vários chefs, abriu os próprios restaurantes, morou em Londres, Nova Iorque e Paris. Em Lisboa trabalhou para outros, queria perceber o mercado, mas passado um ano conheceu Rodrigo Braga — que provou a comida de Fred e ficou encantando. O que começou como uma consultoria depressa se transformou em amizade. Em três anos, o Almadrava é o segundo espaço fruto desta parceria. “Acho que as nossas ideias encaixam na perfeição, somos despretensiosos e práticos. Isso funciona”, diz Rodrigo.
Pensaram uma carta virada para peixes e mariscos por vários motivos. “Sem dúvida que existem boas carnes em Portugal, mas venho de um país onde se come demasiada carne e já não era uma coisa que me estimulava. Por outro lado, o facto de encontrarmos aqui bom peixe, marisco fresco, facilita muito o trabalho e a inspiração”, justifica Fred. Ainda assim, quem tiver desejos de carne, não passa fome no Almadrava. No menu há a cachaço na carcaça com pickles e mostarda (12€) e presunto ibérico (24€ por 80 gramas).
Oito pessoas dividem-se entre a cozinha e a sala. Lá dentro há espaço para cerca de 20 pessoas. Na esplanada podem sentar-se outras tantas.
A imagem da casa – um atum sentado a beber vinho e a comer uma ostra – foi criada pelos dois sócios e tem chamado a atenção. “No outro dia, uma senhora disse-nos que ia tatuar o peixe, achei engraçado.” A caminho está uma linha de merchandise, com bonés, t-shirts e sacos – e, lá mais para a frente no horizonte, pode estar também um restaurante de comida brasileira. “Acho que se conhecem duas ou três coisas da cozinha brasileira, mas não a mais aprimorada”, garante Fred.
Mas, para já, para já, as atenções estão concentradas no Campo de Santa Clara, onde é impossível desviar a atenção da vista e do intenso cheiro a maresia que invade as mesas.
Campo de Santa Clara, 139. 214 063 902. Ter e Sáb 11.00-21.00, Qua-Sex 18.30-22.00
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