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Maro: “Este álbum nunca existiria se não tivesse saído de Portugal”

Gravado em apenas um mês, o mais recente disco de Maro mostra mais maturidade e uma artista em plena evolução. Em entrevista, a voz de “saudade, saudade” explica a origem de ‘So Much Has Changed’ – e antecipa mais três álbuns.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Maro
Louie Jacob | Maro
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Maro dá mais um passo decisivo na sua carreira, talvez o mais confiante até ao momento. Com So Much Has Changed, o oitavo disco da cantora mostra uma renovada maturidade e uma leveza que se reflectem tanto nas letras como nos arranjos. Entre temas como o luto, a reflexão sobre a vida e as pequenas epifanias do quotidiano, a artista consegue transformar experiências pessoais e universais em música com uma honestidade delicada. Em entrevista à Time Out, a artista fala sobre o processo de composição, a diferença entre este disco e o anterior, a importância de Portugal na sua trajectória e colaborações inesperadas que marcam o seu percurso internacional, incluindo o privilégio de trabalhar com Quincy Jones.

Como é que surgiu a ideia para fazer So Much Has Changed
Foi gravado em Junho de 2024 e, na verdade, foi nessa altura porque era o único mês que eu tinha livre da tour durante esse ano. Por isso, guardei esse mês para ir estar no estúdio e gravar. Fui com dez canções, nos primeiros dois dias escrevi oito novas [risos] e acabei por remodelar o conceito. O disco acabou por nascer aí.

É engraçada toda essa mudança, porque parece logo estar relacionada com o tópico do álbum. 
Exactamente.

Quando é que decidiu que o álbum se iria chamar assim?
A segunda faixa do álbum tem o mesmo nome e foi uma das canções que nasceu nesses dois primeiros dias. Foi imediata a sensação, quando terminei essa composição, que, realmente, era uma letra sobre como a minha perspectiva sobre a vida estava a mudar, e como estava a aprender a aceitar as coisas inevitáveis da vida e que vão chegar a um fim. Ou seja, um dia vou perder a minha avó e decidi escrever uma letra sobre isso. Foi nesse momento, em que essa canção nasceu, que eu percebi que isto é que seria o disco. Isto não é apenas uma canção. Este é o disco e o seu conceito.

Houve alguma mudança em particular que a tivesse impactado especialmente neste período? 
Fazer 30 anos [risos]. Quando estava em gravações, estava na recta final dos 29, e acho que é um período que deixa todas as pessoas a reflectir sobre o que se está a passar na vida delas. Para mim, sinto que entrar nesta nova década trouxe uma diferença de maturidade e uma maneira diferente de ver as coisas.

Para quem está de fora e olha para o que lhe tem acontecido, a sua vida parece uma montanha-russa. Começou por estudar para ser veterinária, mas depois troca de curso para estudar música nos Estados Unidos. De forma inesperada, vence o Festival da Canção. Esta imprevisibilidade também serve de catalisador para as suas músicas?
Sim. Acho que a vida no geral, até às vezes as coisas mais banais – que podem não parecer tão entusiasmantes –, serve de inspiração. É um conjunto de experiências que me dão vontade de querer continuar a escrever. 

Durante este processo de escrita e composição, já sabia que ia entrar em estúdio com esta nova postura e maturidade ou foi só depois de ver o processo final que percebeu que era uma pessoa diferente?
Foi durante o processo de escrita. Isto acontece muitas vezes com canções, só depois de serem lançadas é que, vendo de fora, consigo perceber melhor as emoções que estava a sentir. Colocar todas estas sensações por escrito ajuda-me a processar aquilo que está a acontecer dentro de mim. Obviamente, não é uma mudança notável, é algo diário e que vai acontecendo – no ano antes de termos começado a gravar já sentia algumas diferenças –, mas sim, de repente, quando estas oito músicas nasceram, ao longo de dois dias, é que percebi que tinha mesmo muita coisa para deitar cá para fora.

Este disco foi descrito como mais leve, quando comparado com o anterior, hortelã (2023). No entanto, existem muitas músicas com temas pesados, por exemplo, essa necessidade de falar sobre o luto. Como é que estes temas permitem fazer um disco com esta leveza? 
Acho que é exactamente por falar de todos estes temas, mas com a leveza de que é a vida e que temos apenas de aceitar. Portanto, parafraseando “So much has changed”: “One day we’ll lose grandma/ Real friends are few/ But you’ll know which ones are true”. No final das contas, vai sempre dar certo. A vida é curta e temos de aceitar o que nos acontece e continuar a chutar a bola para a frente. Mesmo os temas mais pesados sinto que são tratados com leveza. 

Então o segredo é aceitar e soltar todas estas amarras?
Eu acho que é exactamente isso. Essa postura é o que marca a mudança deste disco para o resto da minha carreira e vida pessoal. Temos de aprender a aceitar o bom e o mau, e tentar estar sempre presentes.

Essa sensação é traduzida nos instrumentais das canções. Há uma grande diferença com canções mais elaboradas quando comparadas com as faixas de hortelã, que eram mais despidas e acústicas. Como é que foi este processo de composição? 
Estava em estúdio com quatro amigos – grandes amigos –, o que também ajuda sempre a estar com mais disposição e vontade de fazer música. Já tinha os temas escritos, compostos e os arranjos feitos, mas depois, o processo em estúdio, com o Gabriel Altério, o Pedro Altério, o Tommaso Taddonio e o NASAYA, foi uma questão de gravar as várias camadas que ia imaginando e brincar um pouco com o instrumental. Foi assim que fomos gravando o disco.

Qual é a principal diferença entre gravar um disco mais intimista e minimalista em comparação com este novo disco, mais complexo e com mais sons?
São duas abordagens diferentes. Portanto, o hortelã foi gravado com a intenção de conseguir reproduzir, de alguma forma, a sensação de concerto. Foi algo que ensaiámos muito bem e depois, quando fomos para o estúdio, gravámos as três guitarras juntas, na mesma sala, ao mesmo tempo, sem estar a fazer pistas por cima, e a ideia era fazer num único take. Só depois gravei a voz, ao vivo. Queríamos aproveitar aquilo que saía. No máximo, fazíamos uma segunda tentativa para melhorar algum aspecto da gravação. O hortelã captura um momento específico, o momento da gravação. O So Much Has Changed, que é gravado por camadas, captura uma temporada. As três semanas em que estive em estúdio de peito aberto e com honestidade. São processos completamente diferentes.

Há muito que o seu percurso deixou de ser feito apenas em Portugal, é internacional. Se tivesse ficado sempre por Portugal teria conseguido fazer um disco igual? 
Igual parece-me difícil. Provavelmente, não iria escrever tanto em inglês e, claro, nunca teria feito os amigos com quem gravei este disco. Portanto, acho que sim, tudo o que fazemos tem consequências e este álbum nunca existiria se não tivesse saído de Portugal. 

Isto é aquela pergunta clichê, mas pondera fazer mais músicas em português? 
Continuo a escrever em português. Só porque um álbum está a ser lançado não quer dizer que eu não esteja a escrever 50 outras canções ao mesmo tempo. A parte da criação em estúdio e escrita nunca pára. Na realidade, tenho três álbuns que estão a ser finalizados e incluem muita música em português. 

O início do seu percurso estava muito ligado ao Youtube. Como é que foi passar de ser uma artista que publicava música na internet para alguém que está em estúdio e em cima de palco? 
É interessante porque, na realidade, foi algo que aconteceu ao mesmo tempo. Comecei a publicar estes vídeos de covers quando fui estudar para a Berklee, mas, paralelamente, estava a dar concertos na universidade, estava em estúdio a gravar, e, portanto, na verdade, sinto que foi algo que andou sempre de mãos dadas.

Houve algum momento que a tenha chocado, perante o sucesso que tem alcançado? 
Também não consideraria que estou a ter imenso sucesso lá fora [risos]. Sinto que tem sido muito passo a passo. Mas sim, todas as pequenas conquistas são super especiais. Por exemplo, abrir os concertos dos The Paper Kites, do Shawn Mendes, estas parcerias que me permitem conhecer e gravar com artistas que admiro imenso, como a November Ultra e a Charlotte Cardin. Todos estes momentos – que às vezes nem são partilhados em público – são muito especiais para mim.

Uma colaboração que imagino ter sido surreal, por exemplo, foi começar a trabalhar com o Quincy Jones, alguém que trabalhou com figuras como o Michael Jackson. Como foi essa parceria? 
Foi incrível. Apanhei o Quincy numa fase mais de final de vida, mas, quer dizer, o privilégio de o poder ter conhecido, de passar tempo com ele e ir à casa dele são experiências maravilhosas. Claro, na altura, senti que foi uma palmadinha no meu ombro. Fez-me sentir que estava no caminho certo e que devia continuar a fazer aquilo que gosto.

Alguma história com ele que a tenha marcado?
Assim em geral, acho que são as histórias que ele contava. Por exemplo, uma vez, disse casualmente: “Uma vez tomei o pequeno-almoço com o Picasso” [risos]. Fiquei a olhar para ele, incrédula. Ter a oportunidade de absorver todas estas informações de uma era que eu já ouvi muito falar, mas que não vivi, foi fascinante.

Só posso imaginar como seria entrar naquela casa e deparar-se com uma parede repleta de fotografias...
… com toda a gente [risos]. E Grammys, todos os seus 28 Grammys.

Estamos mesmo em cima do lançamento do disco, mas o que é que podemos esperar no futuro da Maro?
Mais discos [risos], muitos concertos e mais colaborações. Estou sempre com muita vontade de gravar e cantar e tocar com outras pessoas, espero que isso continue a acontecer.

Estava a dizer que já tinha uma série de discos prontos. Quando é que podemos ouvir estes novos trabalhos? 
Possivelmente, este ano, mas com calma [risos]. Estou com muita vontade de focar a energia agora no So Much Has Changed. Mas sim, quem sabe, talvez para o final do ano.

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