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Como é que se garante a renovação de uma semana de moda? E como é que se consegue um ecossistema de marcas e designers vibrante? Ao abrir espaço para designers emergentes, a ModaLisboa, mais do que antecipar tendências, projecta o seu próprio futuro.

Em quatro dias de desfiles e apresentações, a 65.ª edição da ModaLisboa juntou o trabalho de veteranos do design nacional com as propostas de jovens criadores. À procura de um espaço próprio no panorama da moda portuguesa, seis nomes integraram o calendário da Workstation, plataforma focada no desenvolvimento e consolidação de criadores de moda emergentes, que dão os primeiros passos para a construção de marcas próprias.
São estruturas unipessoais que laboram nas horas vagas para expressar uma criatividade individual. Durante o último fim-de-semana, em três momentos, percorreram a passerelle do Pátio da Galé com pequenas colecções, feitas à escala de cada um. Principiantes por agora, é com eles que a semana de moda conta para garantir a própria renovação.
“É uma plataforma-chave”, nas palavras de Joana Jorge, directora de projecto da ModaLisboa. “Para nós, é um espaço híbrido, que permite aos designers explorar. Identificámos há alguns anos que, acabando o Sangue Novo, onde têm imensa projecção e ganham notoriedade, esta fase a seguir é muito difícil e exigente. É preciso encontrar fornecedores e a escala certa para produzir pequenas quantidades, é preciso reforçar e aproximar uma comunidade de clientes. Não têm de fazer colecções grandes, inicialmente nem tinham de passar pelo formato de desfile, isso surge por vontade dos próprios designers. Por isso é que é um espaço de exploração, onde eles têm alguma protecção e ainda podem arriscar. Não têm de estar logo a vender ao fim de uma estação ou duas. Alguns deles, naturalmente, vão passar mais tempo nesse projecto, outros menos”, afirma Joana Jorge.
Nesta edição, que decorreu entre os dias 2 e 5 de Outubro, a Worksation cresceu, integrando um total de seis designers. Três deles foram seleccionados pela ModaLisboa e por um dos seus patrocinadores, a cadeia de cabeleireiros Jean Louis David, para receberem um apoio financeiro de 2500€ para o desenvolvimento da colecção e das suas marcas. Para essa escolha foram tidos em conta critérios de inovação, sustentabilidade e de maturidade das colecções propostas. Arndes, a marca de Ana Rita de Sousa, Bárbara Atanásio e Mestre Studio, de Diogo Mestre, foram os projectos apoiados nesta edição.
Num espaço que se quer de incubação de futuras marcas, a margem para acolher novas perspectivas sobre o que é um projecto de moda de autor é larga. “Temos consciência de que começar uma marca nos dias de hoje é um desafio enorme. Tentamos acompanhar, mas não é um processo que se possa forçar nem condicionar, tem de ser orgânico. E se calhar nem todos os designers querem fazer colecções muito grandes ou desfiles. Os designers procuram outras linguagens e outras abordagens. Pode até acontecer que, ao fim de algumas edições, percebam que o caminho acabou ali”, remata.
Na última edição, o Sangue Novo elegeu cinco finalistas. Adaka Baio, Ariana Orrico, Mafalda Simões, Mariana Garcia e Usual Suspect regressam na próxima temporada, altura em que um deles se sagrará vencedor. O concurso tem sido a primeira etapa para dezenas de aspirantes a designers de moda. Alguns, vencedores ou não, dão o passo mais lógico rumo à consolidação de uma carreira – integram a Workstation, espaço híbrido onde apresentam pequenas colecções e cimentam uma linguagem e identidades próprias.
Ana Rita de Sousa foi uma das vencedoras do Sangue Novo, em Março de 2021. Arndes, a marca que a representa desde o primeiro dia, passou a partir daí a apresentar-se duas vezes por ano. A desconstrução e reinterpretação de itens clássicos do guarda-roupa feminino levam-na a expor a anatomia das peças, a revelar avessos e a misturar materiais tão diferentes como o cabedal e a seda – e tudo isto sem quase nunca fugir a uma paleta fria, composta por branco, preto e bege, promovendo a transformação de peças e a utilização de tecidos de deadstock.
Técnica e autoria parecem estar cada vez mais aprimoradas, o que tarda é o passo seguinte, aquele em que Ana se estabelece como designer em nome próprio e em exclusivo. “Tenho um trabalho a tempo inteiro, trabalho na minha marca à noite e aos fins-de-semana. Mas eu acredito que trabalhar com outras pessoas é a melhor forma de aprender, sobretudo no mundo da moda. Esse tem sido o meu objectivo: ganhar maturidade, manter-me na ModaLisboa e, quem sabe, chegar a um patamar mais alto”, admite a designer.
Sem perspectiva de conseguir viabilizar financeiramente a sua marca de moda, Ana usa a Workstation para o exercício da sua criatividade individual. Como ela, outros designers não se comprometem com metas a longo prazo. “Portugal tem uma falta de marcas muito grande. Falta um ecossistema para gerar novos negócios, que se calhar em outras áreas é mais ágil. Para um designer que está a criar uma marca, há poucas lojas, há pouca distribuição. Sentimos que os que estão mais bem posicionados são os que são mais inteligentes a gerir isso”, comenta Joana Jorge.
Diogo Mestre não ganhou o Sangue Novo, mas as suas peças tornaram-se suficientemente apetecíveis para fazê-lo ganhar confiança na sua continuidade na ModaLisboa. Sob a marca Mestre Studio, tem-se apresentado como um designer da nostalgia, absorvido pelas memórias de uma infância passada no Alentejo e pelo universo iconográfico tão próprio que elas acarretam. Rapaz dado às malhas, aos elementos kitsch e do streetwear. Estação após estação, as propostas vão sendo afinadas em função do que procura a clientela.
“Aproveitei o facto de alguns protótipos terem corrido bem para fazer uma pequena produção, ou seja, algumas destas peças vão estar disponíveis em breve. Por outro lado, gostava que as peças mais especiais continuassem a ser feitas por encomenda”, anota este director criativo em part-time.
Já Bárbara Atanásio, outra das jovens criadoras da Workstation, prefere chamar-lhe “bebé dos tempos livres”. Ao terceiro desfile, a vencedora do Sangue Novo (2024) continua a dividir-se entre o trabalho no estúdio da dupla Marques’Almeida e a marca homónima, na qual, desde o início, brincou com elementos do grunge dos anos 90 em silhuetas do streetwear contemporâneo. “Fico contente porque as pessoas já olham e dizem: aquilo é Bárbara Atanásio. Quer dizer que realmente existe uma linguagem”, reflecte.
Com planos para lançar uma loja online até ao final do ano, a jovem criadora sabe bem o que quer – e as preocupações com o impacto ambiental da moda estão no topo da lista –, mas também sabe que está inserida num pequeno mercado, difícil de furar. “Não quero ter stock. Não quero estar a produzir peças que não vão ser vendidas. E depois é ter disponíveis as peças que sei que consigo produzir. Mesmo com deadstock, se tivermos 50 metros [de tecido], dá para fazer várias peças”, explica.
A provar que é possível a uma nova geração de designers vingar, há duas criadoras que, nos últimos seis anos, abriram espaço, não apenas no calendário da ModaLisboa, mas no próprio cenário criativo nacional. Joana Duarte, directora criativa da Béhen, apresentou-se ao mundo como um ás do upcycling. As peças feitas a partir de colchas e toalhas correram mundo e chegaram aos armários de algumas estrelas internacionais. Hoje, todos querem um pedaço da marca que construiu e que entretanto evoluiu para mais do que uma fórmula criativa de reconverção têxtil.
A Béhen é hoje um projecto autoral também com um pé no pronto-a-vestir. Ainda assim – e porque a procura por peças de atelier tem crescido –, Joana quis aproximar a marca da alta-costura e criou, para isso, a envolvente perfeita. No passado sábado, numa sala do MUDE com capacidade para algumas dezenas de pessoas, realizou um desfile pausado e narrado, tal como faziam as casas parisienses em meados do século passado.
“Sobretudo desde a última colecção, temos tido muitos pedidos para casamentos, para pre-parties, after-parties, clientes internacionais que querem vestidos com bordados únicos, vestidos bordados de raiz”, desabafa. A resposta foi uma montra do que de melhor se faz no recém-inaugurado atelier do Rato. Vestidos sem estação, curtos, longos, bordados com motivos tradicionais de Viana do Castelo, mas também com bordado da Madeira. Trabalho que desenvolve em simultâneo com as peças produzidas em fábrica, vertente que ajuda a suster o negócio e que poderemos ver regressar à passerelle na próxima estação.
Outro notável e refrescante momento desta ModaLisboa ficou por conta de Constança Entrudo. Uma semana depois de levar um Globo de Ouro para casa, a designer voltou a contornar o formato desfile e ocupou uma pequena loja junto ao Miradouro de Santa Luzia. Em colaboração com a Castle Hi Hi Hi e a Humana, apresentou uma colecção cápsula inspirada nas fantasias infantis, com reaproveitamento de alguns designs emblemáticos da marca, mas que também é feita a partir de um processo de upcycling. Largados nos armazéns da loja de roupa em segunda mão, designer e equipa criaram novas peças.
“As nossas peças exploram sempre arquétipos do vestuário, por isso há sempre uma análise muito clínica, uma desconstrução das peças para depois as reinterpretarmos. Senti que a marca estava a crescer, que estávamos a fazer cada vez mais colecções. Então, fazia sentido termos um momentos de experimentação divertido no estúdio. Fomos à Humana, onde cada pessoa fez a sua interpretação de uma peça”, explica a designer.
Entre donuts e tutus, a apresentação da colecção-cápsula foi também uma oportunidade de fazer compras, com as peças devidamente etiquetadas. O evento, marcado para domingo ao início da tarde, reflecte a vontade da designer de apalpar terreno. Ao mesmo tempo que quer explorar uma forma de trabalhar colaborativa (lançou recentemente uma pequena colecção dedicada ao documentário Paraíso), Constança Entrudo pretende continuar a aventurar-se no universo dos interiores. Em Lisboa, há pelo menos dois sítios para vê-la em acção – o Sofia, na Lx Facrory, e o Barbela, em Santos.
A renovação de ideias e perspectivas é vital para um evento como a ModaLisboa. Ao abrir a porta à instabilidade dos novos criadores, a estrutura permite-se à reinvenção. “É um gesto de confiança, mas também de esperança para o futuro. A moda precisa de novos ingredientes. Celebramos o trabalho de designers consagrados todos os dias, mas é com as novas gerações que vamos ganhar novos hábitos, novas dinâmicas e, daqui a dez ou 15 anos, estar com novos designers, mais nomes, para reforçar a imagem da moda portuguesa lá fora e cá dentro”, afirma Joana Jorge.
Aos 26 anos, Ana Margarida Feijão estreou-se na ModaLisboa. Fora do concurso Sangue Novo e à margem da plataforma Workstation, a designer algarvia viajou de Nova Iorque, onde estudou e actualmente trabalha, para apresentar parte da colecção “Liberdade é Nome de Mulher”. “Um dia, estava em casa, e senti esta vontade de ir ver uma série portuguesa, algo que me ajudasse a matar saudades de casa. Encontrei, na RTP Arquivos, uma série chamada Nome Mulher”, explica à Time Out.
A partir daí, nasceram peças à imagem e semelhança de uma mulher portuguesa – “forte e independente”, mas mergulhada na melancolia pelos anos de repressão. Ana vestiu esta mulher de negro, com espartilhos, mas também saias armadas inspiradas na silhueta das varinas.
Em vésperas de regressar a Nova Iorque, onde dá aulas e cria em nome próprio, partilha a vontade de cimentar o seu nome enquanto marca. “Não tenho muito interesse em criar uma marca com colecções vendáveis, com produção e distribuição em lojas. Gosto deste sistema em que faço as peças à medida que me pedem – não cria desperdício e tenho este contacto muito pessoal com as clientes”, completa. São maioritariamente mulheres ligadas à música e ao cinema que alavancam a carreira da jovem designer portuguesa do outro lado do Atlântico. Tão depressa não pensa em voltar a fixar-se em Portugal, mas espera, dentro de cinco meses, poder voltar a mostrar o que vale na ModaLisboa.
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