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ModaLisboa: distopias, memórias de infância e uma história do Arco da Rua Augusta

Ao fim de quatro dias e 20 desfiles, muito se pode dizer sobre o maior evento de moda da cidade. Num museu ou em plena Baixa, do mais ao menos vestível, eis os destaques de mais uma ModaLisboa.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Arndes, ModaLisboa
Luís Miguel | Arndes, ModaLisboa
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Entre quinta-feira e domingo, mais de 30 designers e marcas apresentaram as suas propostas para a próxima estação quente. Numa edição que se dividiu entre o Pátio da Galé e o MUDE – e ainda fez uma perninha no Museu do Tesouro Real –, ficaram claras as intenções dos criativos nacionais. A introspecção é um estado partilhado por muitos, enquanto outros se desafiam com novas viragens e colaborações improváveis.

Sexta-feira, arrancou mais uma edição do concurso Sangue Novo. Dez candidatos apresentaram micro colecções, por sua vez avaliadas por um júri de profissionais da área. No final, cinco finalistas passaram à próxima fase – Elio, Francisco Martinho, Granatum, Marta Amorim e Ronni. A final do concurso está marcada para a próxima edição da ModaLisboa, em Março de 2027. Até lá, fique com os destaques do último fim-de-semana de moda, em Lisboa.

Pompons, faixas e laços – a anatomia do chapéu nazareno

“Tentei que fosse uma colecção de peças que eu usaria, em qualquer situação. A escolha do preto é por causa disso – eu sempre usei imenso preto. No início, quando a marca começou, foi aquele universo todo muito colorido. Isso foi super importante para construir a base, mas agora já não sinto a necessidade de trazer a Nazaré inteira para a sala. Estas peças são a nossa realidade.”

Joana Duarte

Béhen, ModaLisboa
Alexandre AzevedoBéhen, ModaLisboa

Sobriedade ou realismo? Joana Duarte, a mente criativa por detrás da marca Béhen, tem feito o seu percurso entre bordados, upcycling de toalhas e colchas, explosões de cor, incursões pontuais aos códigos do streetwear, mas sempre de olhos postos no património indumentário português. A colecção que apresentou no MUDE para a próxima Primavera/Verão não haveria de ser excepcional nesse campo. Destacou-se, isso sim, pela vontade de explorar peças bem mais quotidianas do que os minivestidos que continuam a sair que nem pão quente do seu estúdio, na Rua do Sol ao Rato.

Vimos camisas – devidamente adornadas com bordados, contas cintilantes, botões e faixas –, saias ao nível do joelho – uma delas de confecção extraordinariamente morosa, por envolver “beijinhos” feitos com restos de tecido e duas técnicas de crochet – e preto, sobretudo preto, opção que a criadora já traz da estação anterior (tal como o traje nazareno). Desta vez, focou-se no chapéu típico da vila piscatória, dissecou-o e espalhou os elementos pela roupa. Vimos desfilar o próprio chapéu, mas também laços e pompons.

Vestido de festa ou peça de museu?

“É precisamente esse o objectivo: fazer com que as pessoas questionem. Não há uma designer, não há uma artista e as pessoas têm de encarar isso e até ficar confusas se for o caso. É usável? Não é usável? Nós a modos que não respondemos a essa pergunta de forma clara. Num dia, vais ver isto num desfile, amanhã talvez vejas isto num museu ou numa sala de estar.”

Constança Entrudo

AD HOC, ModaLisboa
Alexandre AzevedoAD HOC, ModaLisboa

O que a designer apresentou na noite da última quinta-feira, num dos espaços mais emblemáticos do MUDE, a Sala dos Cofres, não foi uma colecção de pronto-a-vestir. AD HOC é o encontro de Entrudo com a artista têxtil Marie Hazard, uma junção criativa resultante da residência artística da dupla no bairro do SoHo, em Nova Iorque – mais um atestado da fluidez disciplinar de Constança Entrudo e do seu desejo de explorar as fronteiras entre moda, ofícios manuais e artes visuais.

Em 18 coordenados, o encontro de ambas as linguagens. À feltragem manual, imagem de marca da criadora portuguesa, juntaram a borracha de pneu, que Hazard utiliza num árduo processo de weaving. A selar esta colaboração estiveram os estampados – em particular, uma capa da revista New York, de 1989. É apenas um dos muitos vestígios de reportagem e crítica de arte que encontraram na casa e atelier da escultora Jackie Winsor (1941-2024), o local da residência. Foi no mesmo espaço que redescobriram o Ad Hoc Committee of Women Artistas, um grupo com mais de 100 artistas que se reunia no SoHo em resposta à sub-representação de mulheres na Whitney Biennial, e que apresentaram este corpo de trabalho, em Maio.

AD HOC não foi um acto isolado. A parceria orgânica entre duas velhas conhecidas (Constança e Marie foram colegas na Central Saint Martins) vai continuar.

Não há moda como a do campo

“Quando era miúdo, costumava brincar em campos de flores e tenho essa imagem de apanhar flores, fazer colares e correr. Portanto, é esta imagem um bocado turva das flores com o vento, que me levou ao estampado. E daí surgiu todo o conceito: brincar com as laçadas nas camisas, nos bolsos, a construção dos blazers com silhuetas muito mais descontraídas e fluídas, os fatos perderam um bocadinho a estrutura e ficou tudo muito mais leve.”

Luís Carvalho

Luís Carvalho, ModaLisboa
Alexandre AzevedoLuís Carvalho, ModaLisboa

A fechar o segundo dia de desfiles, na sexta-feira, Luís Carvalho trocou a habitual passerelle do Pátio da Galé pelos interiores contemporâneos do Museu do Tesouro Real. Em torno da grande caixa dourada, fez desfilar Wildflower, uma parada de silhuetas familiares para quem conhece os códigos do designer, adaptadas a uma inspiração campestre, intimamente ligada a memórias de uma infância passada em Vizela.

Motivos florais, um azul-céu, o verde da relva e até o vichy da toalha de piquenique foram a face mais visível de um postal idílico. Nas lapelas e nas costas de casacos e camisas, as laçadas replicaram as pétalas de flores. A alfaiataria, indissociável do trabalho do designer, surge menos rígida do que nunca. Paralelamente, Luís Carvalho reincidiu na criação de uma linha de jóias – brincos e colar em prata, numa segunda colaboração com a Topázio, foram o pairing perfeito.

O príncipe do povo

“Quando falei com a ModaLisboa, demonstrei interesse em fazer um desfile na rua, para o povo. E gostava muito que fosse com esta vista do Arco Triunfal – é um símbolo histórico e de grandiosidade.”

Carlos Gil

Carlos Gil, ModaLisboa
Alexandre AzevedoCarlos Gil, ModaLisboa

A Baixa parou. Culpa da Maratona de Lisboa, que tinha meta instalada mesmo ali ao lado, no Terreiro do Paço, mas também de Carlos Gil. O designer do Fundão desceu a Lisboa para apresentar as propostas para o próximo Verão no MUDE. A passerelle não tinha 42 quilómetros, mas percorreu todo o piso térreo do museu, bem como o troço da Rua Augusta imediatamente em frente. Convidados, imprensa e transeuntes viram passar 60 coordenados e outras tantas referências multiculturais, que o designer misturou na que provavelmente será a sua colecção mais exigente até à data.

A diversidade começou desde logo na lista de materiais – ganga, seda, plumas, renda, vidrilhos, brocados, franjas e até ráfia. Cromaticamente, outra viagem intercontinental – amarelos canário e flúor, azul cobalto, fúcsia, laranja, verde. Na técnica, outros 500, com fotografias convertidas em lantejoulas, estampados exuberantes, flores aplicadas, franzidos e bordados.

No final, Carlos Gil agradeceu e acenou – ao público na sala, aos que assistiam colados às janelas do museu e aos que, na parte de fora, pararam para ver o desfile. Mais uma prova de resistência, desta vez para a estacaria pombalina.

Menino da mamã

“O exercício foi pensar no que é que a minha mãe usaria hoje se vestisse Gonçalo Peixoto. Então fui buscar referências dela – 20 ou 30 fotografias. Por isso, o que aconteceu nos últimos seis meses foi uma conversa com a minha mãe. Ela ia ao escritório, ia apontando, tirando coisas. Foi a musa desta colecção.”

Gonçalo Peixoto

Gonçalo Peixoto, ModaLisboa
Alexandre AzevedoGonçalo Peixoto, ModaLisboa

Folhear o álbum de família pode muito bem ser um desbloqueio criativo. Que o diga Gonçalo Peixoto, que se deixou embevecer pelas fotografias da mãe nos anos 90 – pelas camisas, pelos fatos, pelas saias e penteados. Uma inspiração que transpôs para o presente e interpretou segundo os códigos da marca homónima. A combinação revelou-se frutífera. Salvo raras excepções, as saias desceram todas abaixo do joelho. A explosão floral foi real (um dos tecidos foi escolhido também por Luís Carvalho). As camisas riscadas e o cinza dos fatos reforçaram a eterna dicotomia do jovem criador – uma mulher todo-o-terreno: pronta para trabalhar de manhã, profissional em divertir-se à noite.

Ao início da noite de sábado, a sala de desfiles encheu-se de vedetas para ver desfilar o criador mais adorado das redes sociais. Do clã Patrocínio a Margarida Corceiro, já se habituou a ver todo o séquito na primeira fila. E é precisamente com o impacto mediático de Corceiro que justifica o recente boom de vendas na Austrália e nos Estados Unidos. É caso para dizer que as peças de Gonçalo Peixoto nunca estiveram tão longe de casa.

Que presente é este?

“Quando pensamos em distopia pensamos num futuro próximo. E acho que neste momento estamos todos a viver uma grande distopia. A moda é um reflexo daquilo que se passa no mundo e não me sentia confortável a tentar arranjar uma realidade utópica para transpor aquilo que faço enquanto designer.”

Valentim Quaresma

Valentim Quaresma, ModaLisboa
Alexandre AzevedoValentim Quaresma, ModaLisboa

Foi com o esboço de uma nova humanidade que o designer trouxe a distopia do presente para o centro da passerelle. Através de peças de joalharia escultórica, propôs uma fisionomia de contornos fantásticos ou alienígenas, as silhuetas de uma nova ordem emergente. A espectacularidade de elmos, head pieces e objectos metálicos que serpenteavam sobre o corpo podem ter roubado as atenções, mas também no vestuário Valentim Quaresma quis enfatizar a ideia de actualidade irreal. O trabalho de atelier passa por manipular tecidos de deadstock – fibras sintéticas e naturais aquecidas e moldadas a altas temperaturas, outras queimadas – criando silhuetas fluidas e orgânicas.

Num momento em que tantas coisas parecem estar “por um fio”, o negócio de Quaresma segue sólido. A maior fatia das vendas está, actualmente, nas mãos de clientes nacionais. Para o designer, o desfile na ModaLisboa continua, por isso, a ser o principal montra do seu trabalho criativo.

A terra, o luto e a infância: a vida num poema

“Quis que cada coordenado fosse uma espécie de verso e que nos fizesse lembrar alguma coisa. A mim, vão sempre lembrar-me memórias da minha vida. Há muitos looks negros que, para mim, obviamente, representam o luto, algo que eu vivi muito cedo, com nove anos.”

Dino Alves

Dino Alves, ModaLisboa
Alexandre AzevedoDino Alves, ModaLisboa

No Poema de Dino Alves cabem memórias de uma vida inteira. O luto, a terra – referência à paisagem e ao mundo rural onde cresceu –, os nós sobre os ombros que o remetem para as capas de heróis das brincadeiras de infância, as fantasias que normalmente não têm lugar no guarda-roupa do dia-a-dia, materializadas nos volumes criados com barbas e tule.

Fiel à sua diversidade cromática, o designer fechou uma vez mais o calendário de desfiles, numa parada de silhuetas facilmente reconhecíveis, baloiçando entre a explosão e a contenção.

Workstation: a moda nacional a outro ritmo

Ao longo do fim-de-semana, seis jovens criadores mostraram o seu olhar sobre o mundo e sobre a moda no Pátio da Galé. Em três desfiles, apresentaram exercícios técnicos notáveis, partilharam memórias pessoais na forma de vestuário, desmontaram normas e celebraram o encontro entre a moda e expressões artísticas. Com colecções mais pequenas e um ritmo que convém à nova geração, são a garantia de futuro e renovação da própria ModaLisboa.

Para Ana Rita de Sousa, a designer por detrás da marca Arndes, foi altura de fugir ao registo habitual. A manipulação e desconstrução de peças pré-existentes esteve presente na colecção, ao mesmo tempo que uma nova elegância e feminilidade tomaram conta do desfile. A saia, quase sempre abaixo do joelho, foi a peça em destaque. Através de um jogo constante de transparências, trouxe os conceitos de intimidade e conforto para o centro do desfile. Na imagem de um vestido de seda enrodilhado sob tule, a criadora mostra também estar aberta à experimentação de novas técnicas e materiais. A cor, tantas vezes ausente, surge em jeito de ironia. De tantas vezes ter sido questionada sobre a monocromia do seu trabalho, Ana Rita de Sousa trouxe o vermelho para a conversa.

Arndes, Ariana Orrico e Mestre Studio, ModaLisboa
Alexandre AzevedoArndes, Ariana Orrico e Mestre Studio, ModaLisboa

Para Ariana Orrico, o momento foi de estreia na plataforma Workstation. Depois de ter sido uma das vencedoras da última edição do concurso Sangue Novo, em Março, com o Prémio ModaLisboa x Burel Factory, a jovem designer apresentou uma colecção em que o vestuário doméstico – também conhecido como loungewear – é levado para a rua. Do recato do lar para um menswear urbano que combina cores e texturas, o burel assumiu protagonismo, após uma residência na fábrica de Manteigas. Pela passerelle passaram retalhos de mantas, micro calções e casacos híper confortáveis.

Um ano depois do último desfile, Diogo Mestre voltou à ModaLisboa para apresentar a sua maior – e “melhor” – colecção até à data. O criativo do Mestre Studio deu provas de evolução, combinando algumas das suas peças estrela, como é o caso dos calções e tops de tricot, com um vestuário mais urbano. Uma opção que o designer justifica com uma nova consciência da vestibilidade do seu trabalho. Quer vê-lo ser usado na rua e não apenas na passerelle. Ainda assim, há coisas que nunca vão mudar. Numa colecção que bebeu de memórias de infância, em particular na figura da avó, continuamos a encontrar as camisolas de malha – de ar fofo e aconchegante – e os micro calções tricotados. Com esses clássicos do Mestre Studio vamos poder sempre contar.

O já habitual clima de festa instalado por Francisca Nabinho, muito por culpa dos amigos e fãs que se deslocam ao Pátio da Galé, voltou a verificar-se. Sempre com referências das belas-artes a pairar sobre a roupa, a designer, licenciada em História da Arte encontrou no pontilhismo de Georges Seurat um ponto de partida para a colecção Point sur Point. A predominância de saias e vestidos, os folhos e paillettes, mas também os laços e os botões forrados, confirmam-na como a mais romântica e girlie da sua geração.

Francisca Nabinho, Bárbara Atanásio e Çal Pfungst
Alexandre AzevedoFrancisca Nabinho, Bárbara Atanásio e Çal Pfungst

No extremo oposto, vimos Bárbara Atanásio reafirmar uma rebeldia ao estilo grunge. Entre gangas tingidas e xadrezes, o menswear ganha um toque de transgressão ao mesmo tempo que a camisa volta a ser a peça central do desfile – ora oversized, ora desconstruída. Para o próximo Verão, a vencedora do Sangue Novo em 2024, deu ainda uma amostra do que podem ser silhuetas mais justas ao corpo. Falamos de tops assimétricos que piscam o olho aos ravers.

Quem também voltou a passar pelo Pátio da Galé foi Gonçalo Pereira, mais conhecido como Çal Pfungst. Na colecção, predominaram as cores primárias, as proporções exageradas, as riscas, os desenhos infantis e as pinceladas sobre os tecidos.

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