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Morreu Jorge Palma, um dos maiores símbolos da canção portuguesa

O músico e compositor faleceu aos 76 anos, deixando para trás mais de meio século de uma carreira que ajudou a redefinir o rock e a canção de autor em Portugal.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Jorge Palma
© DR | Jorge Palma
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A música portuguesa perdeu, esta segunda-feira, 21 de Setembro, uma das suas figuras mais marcantes, tão indisciplinada quanto genial. O cantautor e pianista, Jorge Palma, que moldou a música contemporânea nacional, através de discos como Bairro do Amor (1989) ou (1991), ao longo de mais de meio século, morreu aos 76 anos, na sequência de uma paragem cardiorrespiratória. A notícia foi confirmada pela família e pela sua agência através das redes sociais, onde se pediu que o músico seja recordado "pelas suas canções e palavras".

A saúde do artista vinha a dar sinais de fragilidade desde o ano passado, quando se viu forçado a cancelar diversos compromissos nos palcos devido a complicações respiratórias – algumas das quais ao lado dos seus filhos, com quem partilhava o projecto 3 Palmas na Mão.

Em Maio do ano passado, em entrevista à Time Out, a voz de “Estrela do Mar”, em referência aos seus problemas de saúde, afirmou que não se deixava “afectar” por estas questões. “Já me sinto melhor, tanto que até já reagendei esses concertos que tive de adiar. Já tinha tido outros problemas de saúde, mas é algo que não me afecta muito. É sempre pior para as pessoas que estão à minha volta e gostam de mim. Eu ultrapasso rapidamente estes episódios, tanto que já estou na estrada outra vez e pronto para dar mais concertos”, afirmou na altura.

A morte motivou reacções imediatas, incluíndo do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, que destacou o legado intemporal de uma voz "única e inconfundível" que ajudou a transformar e a enriquecer a identidade cultural portuguesa.

O legado e as canções

Nascido em Lisboa, a 4 de Junho de 1950, Jorge Manuel de Abreu Palma revelou desde cedo uma ligação à música e aos teclados. Aos seis anos começou a estudar piano por incentivo da mãe e aos dez ingressou no Conservatório de Música de Lisboa, chegando a arrecadar um prémio internacional em Palma de Maiorca em 1963.

No entanto, o rigor da música clássica deu lugar ao apelo libertador do rock 'n' roll da adolescência. Rendido aos sons dos Beatles, Rolling Stones e Elvis Presley, trocou as pautas formais pela vida académica do Liceu Camões e pela vivência das garagens e bailes, integrando formações como os Black Boys e os Sindicato – com os quais actuou no histórico Festival de Vilar de Mouros em 1971.

A estreia a solo deu-se em 1972 com o single "The Nine Billion Names of God", gravado com a ajuda do maestro Thilo Krasmann e editado pela Arnaldo Trindade, e cujo pagamento foi liquidado em electrodomésticos.

Recusando integrar o exército para combater na Guerra Colonial, rumou à Dinamarca em 1973, onde subsistiu como funcionário hoteleiro antes de regressar a Lisboa após a Revolução dos Cravos. Na segunda metade da década de 1970, viveu em Paris, onde actuava no metro e nas ruas, alimentando-se de influências de folk e rock americano como Bob Dylan, Paul Simon ou James Taylor.

A sua discografia, inaugurada em 1975 com Como uma viagem na palma da mão, desdobrou-se ao longo de 14 álbuns de originais, cada um funcionando como um diário das suas vivências, leituras e amores. Nos anos 80, de regresso a Portugal, concluiu o curso superior de piano e, em 1991, lançou cujos temas, como "Bairro do Amor", "Estrela do Mar", "Deixa-me Rir" ou "Frágil", tornaram-se cânone na cultura portuguesa.

Ao longo dos anos 90 e 2000, Jorge Palma recusou fixar-se numa única linguagem, criando projectos como o Palma's Gang, ao lado de membros dos Xutos & Pontapés e Rádio Macau, integrou os Rio Grande e compôs para teatro.

Voltou aos originais em nome próprio com discos aclamados como É Proibido Fumar (2001), Norte (2004), Voo Nocturno (2007) — que incluía o êxito estrondoso "Encosta-te a Mim" — e Com Todo o Respecto (2011). O seu derradeiro trabalho de estúdio, Vida, chegou em 2023, ano em que encetou a reunião musical com os filhos Vicente e Francisco Palma.

A propósito do último lançamento da sua carreira, Palma disse ao jornal Sol que apesar de “nunca pensar a longo prazo” e de “gostar de viver o dia a dia”, nunca se preocupou com a longevidade da sua carreira. “Quando tinha vinte anos, dizia que não queria viver para lá dos quarenta. ‘Isso já é um gajo muita velho!’. Depois, à medida que vamos ficando mais velhos, a perspetiva vai mudando. Neste momento, com 73 anos, acho que os 90 anos são uma idade muito nobre (risos). Espero conseguir chegar lá com muita saúde.”

Comendador da Ordem do Infante D. Henrique e detentor de distinções como o Prémio José Afonso, o Prémio Pedro Osório e a Medalha de Mérito Cultural da Cidade de Lisboa, Jorge Palma recebeu em Abril de 2026 o Prémio Carreira dos Prémios PLAY. Na cerimónia, ostentando um cravo vermelho ao peito, proferiu um discurso em defesa do Serviço Nacional de Saúde e dos valores de Abril, instando o público a "reinventar o espírito de liberdade, justiça e democracia."

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