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Movimento Aqui Nasceu Lisboa quer salvar antigo celeiro da Ajuda com mais de 5000 anos

É o mais antigo "povoado estruturado" até agora descoberto em Lisboa e criou-se um movimento para tentar preservá-lo. Projecto para integrar circuito turístico está em cima da mesa.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
Travessa das Dores, Ajuda
DR | Travessa das Dores, Ajuda
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É considerada "a estação arqueológica pré-histórica mais importante escavada em Lisboa" e o "primeiro povoado estruturado" da cidade. A sua descoberta remonta a 2017, a partir de sondagens arqueológicas, mas, desde então, nada se fez para preservar e valorizar este lugar com mais de 5000 anos, do qual fazem parte os vestígios de hortas e silos onde se guardariam os cereais. Para lutar pela manutenção do local, foi criado o movimento Aqui Nasceu Lisboa, que em poucos dias juntou mais de 200 cidadãos e cerca de 25 organizações em torno da causa e vem "fazer barulho" para que este testemunho da história não caia no esquecimento nem seja coberto por uma nova construção, como conta à Time Out, por telefone, Álvaro Dias, professor do ISCTE na área de marketing e turismo e mentor da iniciativa.

"Havendo um projecto urbanístico para aqui, pode correr-se o risco de o sítio ser destruído ou de algo ser construído por cima", teme o professor, que conheceu o local em Junho, numa das visitas organizadas pelo Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL), e percebeu que uma parte das ruínas já tinham sido cobertas (sob a devida política de protecção) por um bloco de apartamentos, há cerca de dez anos. Em Setembro, o professor lançou assim as raízes do movimento Aqui Nasceu Lisboa, não só para chamar a atenção do local como para que este fosse o início da materialização de um projecto cultural, social e turístico a apresentar à Câmara Municipal de Lisboa (CML). "A proposta seria envolver outros espaços da freguesia, criando-se aqui um circuito que incluiria as ruínas, com um centro de interpretação, o Geomonumento do Rio Seco (conhecidas como as grutas do Rio Seco), o Mercado Municipal da Ajuda e o Palácio Nacional da Ajuda", explica o professor. Ao mesmo tempo, o terreno onde se situa a estação arqueológica com mais de 5000 anos, na Travessa das Dores, poderia ser transformado num espaço urbano de estadia, "devolvendo o local às pessoas que aqui moram". 

Travessa das Dores, Ajuda
DRTravessa das Dores, Ajuda
Grutas do Rio Seco
Ana Luísa Alvim / CMLGrutas do Rio Seco

"Se se pensar nisto de forma integrada, criam-se motivos para as pessoas, turistas ou não, irem até àquela parte da cidade. E quando temos um problema de overtourism em certas zonas de Lisboa, este seria um contributo. Modesto, mas ainda assim um contributo", explica. 

A ideia foi apresentada à Junta de Freguesia da Ajuda, que apoia o movimento e "está completamente aberta a colaborar", diz Álvaro Dias. Os próximos passos serão aumentar a massa crítica em torno da causa e apresentar o projecto à Câmara. O projecto está pensado a sete anos.

Nem tudo é visível

Quem for ao local, depara-se (como mostram as fotos) com alguns muretes de pedra no terreno. Mas, na verdade, os vestígios de maior valor encontram-se debaixo da terra, "o que acaba por ser uma protecção para ruínas que datam do final do Neolítico e do Calcolítico, ou seja, com mais de cinco mil anos", como deu conta a TSF, numa reportagem sobre o tema.

As escavações arqueológicas na Travessa das Dores foram coordenadas por Nuno Neto, em conjunto com Paulo Rebelo e Miguel Rocha, e confirmaram na altura a presença de vários silos onde se armazenariam cereais e fossos que serviriam de defesa. Junto ao celeiro, estariam também hortas urbanas. De acordo com o arqueólogo João Luís Cardoso, que colaborou numa publicação sobre as ruínas, trata-se de "uma situação única, mesmo a nível internacional".

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