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Museu Nacional da Música abre com obras multimédia, falsos instrumentos e uma porta secreta

Inaugura este sábado o aguardado Museu Nacional da Música, instalado no Real Edifício de Mafra. Com cerca de 500 peças, o novo projecto expositivo fala "mais de música e menos de instrumento musical".

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Museu Nacional da Música
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De uma estação de metro para uma jóia do barroco português, o trajecto recente do Museu Nacional da Música é, no mínimo, ascendente. Com abertura marcada para este sábado, às 14.30, mais de dois anos depois de ter fechado portas na estação do Alto dos Moinhos (dentro da estação de metro), onde funcionou por quase três décadas, o novo museu ocupa uma área palaciana do Convento de Mafra. O investimento de sete milhões euros reflecte-se agora numa área que ronda os 2000 metros quadrados, onde o design expositivo deixa brilhar as peças e o fio condutor e centenas de objectos do acervo são redescobertos à luz de novas narrativas.

"Há várias diferenças face àquilo que existia no Alto dos Moinhos. Uma das diferenças fundamentais tem a ver com o programa expositivo. Nós procuramos falar mais de música e menos de instrumento musical. Claro que o instrumento musical continua a ser a parte mais eloquente e mais surpreendente da colecção, porque é constituída por estes objectos incríveis, extremamente decorados, que maravilham os nossos olhos. Mas, na verdade, um instrumento, como diz a própria palavra, é um instrumento. Ou seja, é um meio para fazer qualquer coisa. E a música é o fim primeiro e último da existência do instrumento musical. Portanto, a nossa grande preocupação foi tornar o museu mais sonoro, mais musical", explica Edward Ayres de Abreu, director do museu.

Museu Nacional da Música
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Uma nova estratégia, possibilitada, em primeiro lugar, pelo espaço e pela sua configuração. As salas, mais de uma dezena, sucedem-se – ou não estivéssemos nós num palácio real do século XVIII, mandado construir por D. João V. No centro de cada uma, os expositores albergam cerca de 500 peças, no total. Exuberantes e aparatosas, bizarras e intrigantes, familiares ou nunca antes vistas, mais do que aspectos formais ou uma narrativa cronológica, surgem agrupadas por afinidades insuspeitas.

"Enquanto disciplina, a organologia foi extremamente importante no início do século XX, mas hoje era pouco para aquilo que podíamos fazer num museu de música. Depois de um trabalho colectivo, junto da nossa equipa nuclear, mas também de um amplo conselho científico, chegámos a este resultado final, que foi reagrupar os instrumentos em função de algumas possibilidades contextuais de prática musical em que estiveram envolvidos", continua o director do museu, que salienta a diversidade da colecção, no que toca a contextos históricos e sociais, às trajectórias dos próprios objectos, às espeficidades técnicas e tecnológicas e à proveniência geográfica. "É por isso que é uma exposição de contrastes, de mistura, que cruza épocas e regiões muito diferentes. Esta relação pode parecer insólita, mas o nosso desafio é isso mesmo – é provocar a curiosidade e suscitar vontade de descobrir mais sobre a colecção."

O percurso está dividido em três partes. Na primeira, ainda no átrio, fala-se da história do próprio museu e da sua colecção. Na segunda, problematiza-se o conceito de música. Na terceira, o acervo é exibido em todo o seu esplendor, destacando tesouros nacionais, como o Stradivarius que pertenceu a D. Luís I ou o virginal duplo, datado de 1620 e intervencionado mesmo a tempo de figurar na nova casa do museu, mas também um vistoso objecto da autoria de Leopoldo Franciolini, artesão italiano condenado por comercializar instrumentos antigos, muitas vezes produzidos com recurso a fragmentos de diferentes objectos.

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Em todas as salas há pelo menos um instrumento que pode ser manipulado pelos visitantes. Girar a manivela de uma pequena caixa de música pode ser simples, mas pegar numa tuba de 13 quilos já pode apresentar alguns desafios. A interactividade não fica por aqui. Através de um ecrã táctil, os visitantes vão poder dar o seu contributo para a playlist mensal do museu. "É uma forma de fazermos ver que todos nós somos coleccionadores. Mesmo quem não tem uma playlist, terá pelo menos uma colecção de memórias", remata o director.

O museu conta ainda com uma mediateca e com um salão imersivo. Este último foi pensado para receber gravações de todos os instrumentos da colecção a serem tocados, documentários sobre música e até concertos. Para já, as 22 colunas e os quatro ecrãs gigantes destinam-se a uma das obras multimédia encomendadas para o momento inaugural do museu, da autoria da compositora Fátima Fonte e da realizadora Adriana Romero. A tecnologia faz parte do novo projecto museológico. Graças à união de esforços da NOUS e do artista chileno Nico Espinoza, e com a ajuda de uns headphones, é possível ouvir os instrumentos expostos com uma simples passagem diante deles.

No final do percurso, já paredes-meias com a imponente biblioteca do palácio, chegamos à última das salas. É aqui que uma porta secreta nos separa do acervo documental, instalado nas antigas latrinas do convento, mas também que brilham duas telas de José Malhoa nunca antes expostas pelo museu. Ao centro, estão duas das jóias da coroa da colecção – o Cravo Taskin, encomenda de Luís XVI para a sua corte, adquirido pelo Estado, e o piano de cauda Bechstein, fabricado em 1936, que pertenceu a Luís de Freitas Branco. Dois instrumentos vivos, que podem hoje continuar a ser tocados. "Esta foi a mensagem que também quisemos reforçar. A exposição que se vê aqui foi desenvolvida e acarinhada por figuras importantíssimas da nossa história, mas a colecção é viva. É viva porque somos também participes dessa grande aventura que é pensarmos o que é a música no passado, o que é a música hoje e o que é a música no futuro", remata Ayres de Abreu.

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A visão contagia a agenda do próprio museu, que se propõe a acolher concertos e outros momentos de fruição cultural em torno da música e da colecção. Tal como nesta quinta-feira, dia em que a Fundação Gaudium Magnum promoveu um concerto da cravista francesa Béatrice Martin – no cravo Antunes, um tesouro nacional de 1758 –, no auditório do museu e com composições de Carlos Seixas, Domenico Scarlatti e António Pinho Vargas, ao abrigo do projecto A Bússola Barroca, outros nomes passarão pelo novo museu. Já este fim-de-semana, tocam os carrilhanistas Ana Elias e Abel Chaves.

No dia 27 de Novembro, o concerto é dedicado a árias de ópera do barroco português. A 12 de Dezembro, o auditório recebe a violoncelista franco-belga Camille Thomas. No dia 18 desse mesmo mês, há concerto de Natal na capela do palácio. A agenda do Museu Nacional da Música pode ser acompanhada aqui.

Terreiro D. João V (Mafra). 91 349 1610. Qua-Seg 09.30-17.30 (última entrada 16.30). Entrada livre até 30 de Novembro (após essa data, museu integrado no regime dos 52 de gratuitidade implementado pelo Ministério da Cultura)

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