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MXGPU: “O nosso público sempre foi bastante internacional”

Moullinex e GPU Panic editaram o seu primeiro álbum enquanto dupla, ‘Sudden Light’. Em entrevista à Time Out, explicam como o espectáculo que estão a fazer à volta do mundo os inspirou a criar estas músicas novas.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
MXGPU vão se estrear no MAAT
Ana Viotti | MXGPU vão se estrear no MAAT
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Após percorrer Portugal de lés-a-lés, ir às ilhas e mostrar a sua música no estrangeiro, MXGPU, o novo projecto de música electrónica que junta Moullinex (Luís Clara Gomes) e GPU Panic (Guilherme Tomé Ribeiro), edita o seu primeiro disco de longa duração, Sudden Light, esta sexta-feira, 26 de Setembro. Em entrevista à Time Out, a dupla fala sobre uma colaboração "natural", tal como foi criar este trabalho, profundamente inspirado nos espectáculos que andaram a apresentar, e sobre os planos que tem para mostrar estas músicas novas ao mundo, nomeadamente em paragens como Nova Iorque e Los Angeles. 

Antes de surgir como MXGPU, já tinham colaborado por diversas vezes. Como é que surgiu esta ideia de colaborarem a tempo inteiro? 
GPU: Tive a sorte, em 2016, de receber um convite do Luís para tocar com ele ao vivo. Isto surgiu porque tínhamos um amigo em comum, o Ed dos Best Youth, que me recomendou para tocar como guitarrista. Desde aí, mantivemos uma relação super natural, criativa e de amizade. Se não estivéssemos em estúdio a fazer música, gostava de estar no estúdio a fazer música. Um ano depois, ele convidou-me para fazer uma música para o Hypersex [2017] e, mais tarde, acabei por fazer parte do Requiem for Empathy [2021] – participei em quatro músicas que compusemos juntos e onde, inclusive, cantei. Continuámos a tocar ao vivo juntos, a partilhar estúdio e ensaios. Continuámos a partilhar esta visão conjunta e o que poderia ser. Mais recentemente, ganhou um nome, MXGPU, que serve para continuarmos esta colaboração, mas com uma cara nova. 

Quando é que perceberam que estava na altura de lançar um álbum em conjunto? 
MX: Nós começámos a fazer música para tocar ao vivo enquanto Moulinex e GPU Panic. Experimentámos este formato novo logo a seguir à pandemia, no Jazz Cafe, em Londres, onde tocámos quase em 360º com a plateia, porque tinha o típico setup de clubes de jazz em que as pessoas estão todas sentadas à volta dos artistas. Decidimos que íamos continuar a fazer concertos neste estilo e começámos a fazer música para este formato. Quando nos apercebemos, tínhamos muitas demos na mão e pensámos: porque não fazer um álbum? Como soava a algo diferente de qualquer coisa que já tivéssemos feito, decidimos assinar com um nome diferente. Foi nesse momento em que ficou combinado fazermos este novo trabalho.  

Apesar de terem descrito este processo de trabalho como algo "natural", como é que foi fazerem o disco juntos? Ambos estavam habituados a fazer música em nome próprio ou em banda, como foi agora criar música enquanto dois produtores? 
GPU: Como fomos fazendo muita música juntos ao longo destes anos já estávamos muito habituados a trabalhar em conjunto. Além disso, como temos o nosso estúdio no mesmo edifício, ainda tornou tudo mais fácil. Para nós, de repente, o dia-a-dia de estarmos a fazer música em conjunto não foi sequer uma questão. Nem tivemos que marcar data para fazer sessões enquanto dupla, simplesmente íamos sempre com esta vontade de estar a fazer música e estar juntos a fazer música. 

Este novo espectáculo é muito impressionante visualmente, especialmente pela utilização de um feixe de luz entre vocês os dois. Como foi passar esta componente visual para música?  
MX: Na verdade, foi exactamente esse o desafio deste projecto. Esse feixe de luz, que pinta o nosso espectáculo, onde dá uma luz na escuridão, é o que dá o nome ao disco, Sudden Light. Muito deste álbum foi feito a pensar no espectáculo e como seria tocado ao vivo, sem que isto nos limitasse, no sentido que poderia deixar de ser um concerto prático – só temos quatro mãos [risos]. Tivemos em conta a dinâmica de como estas músicas se traduzem ao vivo e de que forma é que conseguimos transportar para o disco e para o estúdio a experiência de ver o espectáculo ao vivo, porque há uma intensidade que muitas vezes é difícil de replicar. O desafio foi mesmo esse, por isso, muitos dos temas que foram incluídos no álbum foram experimentados ao vivo. Foram entrando e saindo do alinhamento vários temas que acabaram por ser submetidos a um processo de darwinismo de estúdio [risos].  

Como foram as sessões em estúdio? Puseram o feixe de luz no estúdio para imitar o ambiente dos concertos? 
GPU: [Risos.] Muitas vezes tivemos o laser montado em estúdio durante ensaios. Ele tornou-se parte do nosso dia-a-dia. O concerto está sempre associado a esse feixe de luz e, tal como o Luís dizia, fazer música também passou a estar sempre associado a este concerto específico. Esta forma de nos apresentarmos ao vivo está sempre no nosso imaginário quando estamos em estúdio, quando não estamos em estúdio, a imaginar a próxima tour.

Numa altura em que DJs, produtores e artistas de música electrónica optam por lançar música em formatos menos tradicionais da indústria, o que vos levou a optar por este formato tão tradicional?  
MX: Primeiro, este é um formato com o qual nós crescemos e nos identificamos. É algo que nos ajuda a criar uma certa organização mental. Lançar música em disco permite-nos contar uma história, como se fosse uma longa-metragem, mais propriamente do que sair de repente uma torrente de música. Os produtores de música electrónica e sobretudo DJs apresentam-se cada vez mais ao vivo e num formato muito diferente daquilo que nós fazemos. Queríamos subverter todas essas ideias e marcar o momento do disco como mais um passo, naquele que é este universo de MXGPU. 

Têm conseguido transportar este universo com sucesso a um nível internacional. Como tem sido a experiência de apresentar estas novas músicas fora de Portugal?
MX: Temos actuado em várias partes do mundo e vamos estar nos Estados Unidos em Outubro, em Nova Iorque e em Los Angeles. Estivemos na Ásia, fomos à América Latina, já percorremos muito da Europa... Tem sido uma óptima experiência porque somos apenas os dois na estrada a apresentar este espectáculo, que é muito portátil.  
GPU: Temos tido este privilégio de andar de um lado para o outro a mostrar este espectáculo e é o que pretendemos continuar a fazer. Vamos aos Estados Unidos, voltar à Ásia e depois a Londres. 

Portugal sempre teve bastante dificuldade em exportar música. Qual é que acham que tem sido o segredo para quebrar esse obstáculo? 
MX: Temos abordado este projecto como qualquer outra coisa que fizemos até agora. O nosso público sempre foi bastante internacional. Temos uma massa de fãs muito grande cá em Portugal e é óptimo poder tocar nos quatro cantos do país e nas ilhas, mas é um privilégio muito grande, tendo em conta a dificuldade de que falas, de poder exportar este projecto. A música electrónica em Portugal tem uma história recente. Isto está relacionado com a ditadura, abrimos as portas ao mundo muito tarde, em relação aos outros países da Europa. Apesar de reconhecermos a quantidade gigante de talento que existe, actualmente, em Portugal, os nossos modelos são, principalmente, internacionais. 

Vocês estão com a agenda bastante ocupada com o lançamento deste disco, já têm uma série de espectáculos marcados, mas o que gostavam de fazer mais no futuro?  
MX: Nós temos estado a preparar algo que vai existir de mãos dadas com este disco. A apresentação ao vivo é algo que, para nós, é tão importante quanto o álbum e, apesar de não podermos desvendar muito, em Outubro, esse momento vai acontecer e está intimamente relacionado com a cidade de Lisboa. 

Existem outros formatos que gostavam de explorar, por exemplo, o vídeo ou o cinema? 
MX: [Risos.] Estás a apontar para o sítio certo com essa pergunta. Mas, fora deste espectro de apresentações, algo que gosto de fazer, tanto com Moullinex como com MXGPU, são bandas sonoras. Imagino sempre a nossa música muito visual e introspectiva. O Bruno Ferreira realizou o último filme da Moda Lisboa e incluiu um tema inédito do disco. Para mim, isso fez todo sentido. Sempre que estou a compor, mesmo com o Gui, acho que imaginamos muito o resultado visual dessa música. 

Já que estamos a falar de planos: planeiam continuar a fazer música juntos nos próximos tempo? 
GPU: Claro que sim. Da mesma maneira que dissemos que começámos a fazer música de forma natural, é dessa mesma maneira que pretendemos continuar a trabalhar. Isto é mais do que uma forma de nos obrigar a planear e a agendar ensaios. É mais uma maneira de estar na vida, em vez de estarmos a impor regras ou objectivos, queremos aproveitar estes momentos e de estar com vontade de fazer sempre mais. É mais uma relação natural, criativa e de amizade do que um projeto que envolve um grande planeamento para nos sentarmos num estúdio.  
MX: Já me apresentei ao vivo de muitas formas diferentes e, de facto, sinto, pessoalmente, e através do feedback do público, que este espectáculo é diferente. Para mim, fazê-lo, bate-me de uma forma muito diferente do que qualquer outro projecto em que estive envolvido. Respondendo à pergunta do que me vejo a fazer no futuro: é continuar a fazer música e a tocar assim com o Gui. É muito diferente de tudo o que eu tenho feito até agora e é isto que me apetece fazer neste momento. 

Casa Capitão (Beato). 28 Set (Dom) 17.00. Entrada Gratuita

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