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A Fábrica das Artes juntou-se à Assembleia da República para programar a partir dos livros da colecção Missão:Democracia. Antecipamos o que aí vem.

“Uma missão é uma tarefa especial que se confia a pessoas também elas especiais.” É este o mote para Missão:Democracia, uma programação a três anos que transforma a colecção de livros homónima em artes performativas e actividades participativas. O desafio foi lançado pela Assembleia da República, que encontrou na coordenadora da Fábrica das Artes a sua pessoa especial. “Sugeriram-me leituras encenadas, mas contrapropus com uma declinação: que os próprios livros pudessem ser uma inspiração para criações novas de artistas contemporâneos, que se dedicam a públicos jovens de alguma forma”, conta-nos Madalena Wallenstein, que começou por convidar a cantora, compositora e instrumentista Beatriz Pessoa. A estreia para as famílias está marcada para 25 de Abril, Dia da Liberdade. Antes, fazemos uma visita aos bastidores.
Estamos no Centro Cultural de Belém, numa oficina de preparação para O Coro, um concerto multidisciplinar, que é também um fórum musical e que irá contar com vozes do público. A plateia – composta por professores de diferentes áreas, da música ao teatro – está disposta em semicírculo, como no Parlamento, e a dirigir os trabalhos temos Beatriz Pessoa, acompanhada por Gui Caligari, músico, performer e arte-educador. “Ainda nada foi gravado, mas vou mostrar-vos tudo em formato demo e falar-vos um pouco sobre o conceito por trás de cada canção. No final, as letras vão ser partilhadas convosco, para que as possam levar para a sala de aula, sobretudo as partes que pensei que pudessem ser interactivas – algumas dessas interacções não são necessariamente melódicas, são também rítmicas”, revela a artista, que regressa assim à Fábrica das Artes depois de, em 2022, ter co-criado para o festival Big Bang o espectáculo À Procura de.
Tal como na colecção de livros Missão:Democracia, das Edições Assembleia da República, a ideia central para o concerto de estreia desta nova programação da Fábrica das Artes é explorar conceitos abstractos como “democracia” e “liberdade”, mas também instrumentos democráticos como, por exemplo, as eleições. “Procurei que o espectáculo – que é musical, não é teatro, não tem representação – tivesse uma linha condutora, uma história”, antecipa Beatriz. O pontapé de saída é “Faz perguntas”, que promove o espírito crítico e a cidadania. Esta é a primeira de 12 músicas originais, com diferentes estilos e sonoridades, do jazz ao pop. Entre harmonias “orelhudas” e outras “um bocadinho mais complexas”, fala-se sobre a Europa, a importância de ir votar, o que podemos aprender com o passado e, claro, o que queremos para o futuro (ou o “Fufufufuturo”, um sucesso entre os participantes). O destaque será, porventura, o “Fado das Eleições”, que Beatriz canta com público, pela primeira vez, nesta oficina. Está nervosa e fá-lo à capella (quer que o resto seja surpresa), mas não há espectador que não aplauda.
“Não estava nada à espera do convite, sobretudo pela responsabilidade que é. Mas fiquei muito contente, até porque tive oportunidade de conhecer esta colecção, que ainda não conhecia, confesso, e que de facto acho muito pertinente”, diz-nos Beatriz. “À medida que fui lendo os livros, fui tendo ideias e muitas delas integram as canções do espectáculo. Depois, decidi que queria ter quatro crianças em palco, numa parceria com a cooperativa A Torre, onde eu andei e onde também já dei aulas. Achei que seria a melhor ponte para o coro participativo, que vamos ter no público – escrevi mesmo a pensar nisso: refrões, estalinhos de boca, palmas. No fundo, quero questionar também a ideia do que é um espectáculo e promover um sentido de comunidade. Claro que há momentos de silêncio, que também são importantes, mas é muito mais virado para a participação, porque é isso que é a democracia. E foi muito divertido para mim. Temos baladas e músicas mais introspectivas, mas também referências do pop dos anos 70, uma coisa mais disco, e muitas guitarras eléctricas, para uma vibe mais rock e pop-rock.”
Nos dias 25 e 26 de Abril, às 19.00 e às 17.00, respectivamente, Beatriz Pessoa far-se-á acompanhar por Gustavo Almeida (baixo, guitarra e produção musical), Raquel Pimpão (teclados e coros), Francisco Vieira dos Santos (bateria, percussão e coros), Tomás Marques (saxofone) e Jéssica Pina (trompete). Já o coro, será composto por alunos da cooperativa A Torre, por um lado; e, por outro, por quem se quiser juntar, a partir da plateia. Como Adriana Seabra Barreira, professora de Expressões Artísticas na Associação Pró-Infância Santo António de Lisboa: “Dou aulas dos três aos nove anos e é fantástico no que respeita ao prazer de ver a linguagem actuar da sua forma mais natural. Na minha abordagem, procuro fazer uso da brincadeira, até porque os estudos demonstram que há maior sucesso quanto mais prazer a actividade nos provoca. Esta oficina lembrou-me disso, do que procuro fazer em sala, através do som e do movimento – no fundo, da liberdade de expressão, que é tão importante, ainda para mais nos dias de hoje. É um direito e uma necessidade, a necessidade de fazermos fluir esta vontade, estas ideias, estas emoções, estas coisas de dentro de nós para fora. Também por isso achámos que seria muito importante levar este projecto aos nossos alunos, até pelas questões políticas, que na verdade se deviam chamar questões da vida. Ensinar isso aos miúdos – que a política é a vida, e que nos devemos interessar pela participação na nossa e na dos outros – é fundamental.”
Ainda não é possível dizer se o concerto dará um disco – Beatriz estará a promover Muito Mais, o seu terceiro álbum, lançado a 27 de Março com o selo Cuca Monga –, mas a artista gostava de, no mínimo, continuar a levá-lo às escolas. “Abril vai ser muito intenso. No último ano eu fiz basicamente dois discos: o meu e o da Missão:Democracia. Entretanto, o concerto de apresentação do meu disco – que acho que é o disco que mais representa quem eu sou enquanto pessoa e artista – é já a 11 de Abril, na Casa Capitão. Depois ainda vou ensaiar para o concerto no CCB. Acabei a descobrir-me muito eclética”, remata, entre risos. “Está a ser tudo muito especial.”
Para o dia 25 de Abril, além do concerto de Beatriz Pessoa, estão também programados debates a partir das 11.00, no Jardim das Oliveiras, no jardim da Sala de Leitura e no jardim grande hall do MAC/CCB. A guiar as conversas estarão Dori Negro (criador, mediador e arte-educador), Elisabete Paiva (programadora cultural), Catarina Oliveira (oradora e consultora em acessibilidades) e Alexis Trindade, Dina Mendonça e Tomás Magalhães Carneiro (facilitadores de filosofia com crianças). “Depois, no final, convidamos as pessoas a fazer um piquenique, às 12.30, no jardim-terraço da Sala Jorge de Sena”, diz Madalena.
Já em Maio, destaque é a estreia de A Constituição, que as famílias vão poder ver nos dias 24, 30 e 31. Com texto e encenação de Isabel Costa, o espectáculo, que conta ainda com música de Miguel Nicolau, deambula entre o pessoal e o político para que possamos reflectir, em conjunto, de que matéria somos feitos, enquanto seres humanos e enquanto sociedade. Ainda antes, nos dias 9, 19 e 23, Madalena Wallenstein abre a Fábrica das Artes a uma série de oficinas para professores, educadores, artistas, mediadores, pais e curiosos, com Dora Batalim SottoMayor e Sara Ludovico. A ideia é falar sobre a literacia democrática e literária nas escolas.
Para fechar a primeira parte desta Missão:Democracia, as crianças entre os seis e os dez anos vão ser convidados por Rachel Caiano a mergulhar no livro de Luísa Ducla Soares E se fôssemos a votos?, que conta com as suas ilustrações. À artista plástica, juntar-se-ão também o músico Nuno Cintrão, o actor José Leite e a bailarina Clara Bevilaqua. Este programa – que se realiza durante uma semana, das 10.00 às 17.00 – é pensado para crianças dos seis aos dez anos e custa 100€ (há 20% desconto para quem tiver cartão CCB). Mas atenção, a lotação máxima é de 25 crianças. Por isso, o melhor é inscrever os miúdos.
“Esta primeira temporada vai até Julho, mas a programação é a três anos. Em princípio, acabará em Abril de 2028. Em 2027, começamos em Janeiro”, revela Madalena Wallenstein, que assina a direcção artística. “Ainda não posso desvendar nada, mas a ideia é que a estrutura do espectáculo que inaugura a programação se repita e, portanto, convidarei outros artistas a criar – já tenho aqui algumas ideias, já falei com algumas pessoas. Haverá também mais oficinas, inclusive para as escolas.”
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