Não é por estar perto da Fonte Luminosa que a nova galeria de Lisboa se chama Lumina. Mas adivinha-se a coincidência etimológica. "Lumina vem do latim lumen, palavra que nos fala de luz, claridade e descoberta." Sendo o seu centro a fotografia, documental e de autor, o acaso assenta-lhe bem. E este sábado, 29 de Novembro, o espaço abre ao público com uma viagem de descoberta, a de Luís Vasconcelos, em 1995, pela estrada mais famosa do mundo, a americana Route 66.
A ideia de fundar uma galeria de índole comercial dedicada à fotografia germina há algum tempo na cabeça de Bruno Portela, ex-fotojornalista do Público e mentor de projectos como o estúdio Shining, no Beato, a Estação Imagem (que passou por Mora, Viana do Castelo e Coimbra, com exposições e bolsas de apoio à criação) ou a associação CC11, que tem levado, desde 2020, a fotografia a vários pontos de Lisboa. Há anos que Bruno Portela tem esta ideia de aproximar a fotografia das pessoas (ou talvez ao contrário), como forma de conhecimento, de olhar para as coisas de outro prisma.
No caso da Lumina, um dos propósitos é sair, pela primeira vez, de projectos colectivos para mostrar aquilo em que acredita e de que gosta de um ponto de vista individual. "São poucas as galerias em Lisboa que apostam na fotografia documental", diagnostica. Mas pode até ser-se mais radical, afirmando que são poucas as galerias unicamente focadas na fotografia em Lisboa (existem a Narrativa, em Alvalade; a Imago, na zona de Santa Apolónia; ou a Pequena Galeria, no Cais do Sodré, sendo que apenas esta última vende obras). E quando se aposta, no mundo das galerias, em fotografia, sobressai a arte conceptual. Por outro lado, Bruno Portela acredita que "há mercado" e espaço suficiente para investir neste nicho. "Se em Espanha, Itália e França funciona, por que razão cá não haveria de funcionar?"
Os dinossauros e o Ray's Cafe
Na Lumina entrarão, assim, "fotógrafos consagrados e novos autores", na grande maioria portugueses, mas com a cadência de um autor estrangeiro por ano. Com a programação fechada até ao início de 2027, em termos de exposições (no espaço também vão acontecer apresentações de livros, conversas ou outros eventos), a certeza é de que "há muitos autores com trabalhos excelentes e que nunca foram vistos em exposição, ou quase, como este do Luís Vasconcelos", de quem Bruno Portela, ainda sem o conhecer, recebeu o telefonema que o fez entrar no mundo profissional da fotografia, em 1990, ano de fundação do Público. É agora ele (também co-fundador da Estação Imagem), aos 78 anos, que numa espécie de gesto de retribuição, abre o ciclo de exposições da Lumina, com "Route 66", uma viagem daqueles anos, inspirada por Jack Kerouac e pela banda sonora de Bagdad Café (um dos décors do filme integra, curiosamente, a exposição).
"Vasconcelos partiu de Chicago ao volante de um Pontiac Catalina, acompanhado por três amigos, rumo ao horizonte inesgotável da 'Mother Road'", descreve o comunicado de imprensa. Nas fotografias da exposição, ainda em montagem durante a visita da Time Out, sobressaem as bandeiras, os cafés americanos (como o Ray's), a miúda rockabilly, figuras de dinossauros, "uma paisagem mítica do imaginário colectivo, onde estrada, sonho e viagem se cruzam", da altura em que se faziam explorações de longo curso no jornalismo, neste caso, de mais de 3000 quilómetros.
Com uma grande janela a receber curiosos e convidados, a Lumina compõe-se de uma sala térrea e uma cave e, ainda, uma parede especial. Em Le Mur (assim lhe quis chamar a curadora Rute Reimão, assessora na área da Cultura, designer e ilustradora), "há sempre um cruzamento da fotografia com outras artes visuais", explica Bruno Portela. Neste caso, esse cruzamento alcança o tema da viagem, através das pinturas de António Faria, com "We’re on the Road to Nowhere".
"Route 66" vai estar na Lumina nas próximas sete semanas (as duas últimas apenas para visitas sob marcação). A próxima exposição, sobre tradições portuguesas, juntará duas gerações: Inês Gonçalves (1964) e Ana Paganini (1995).
Rua Actor Vale, 53A (Alameda). Qua-Sex 15:00-19:00, Sáb 15.00-20:00. "Route 66": 29 Nov-17 Jan (encerra 24 Dez-3 Jan). Entrada livre
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