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‘Natal Amargo’: Almodóvar vê-se ao espelho da autoficção

Depois de no autobiográfico ‘Dor e Glória’ se ter feito representar por António Banderas, Pedro Almodóvar volta à autoficção, pondo-se em cena na pele de um realizador em crise criativa, interpretado por Leonardo Sbaraglia.

Escrito por
Eurico de Barros
Natal Amargo
Fernando Iglesias Más | Pedro Almodóvar (ao centro) com parte do elenco de ‘Natal Amargo’
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Madrid, 2004. É quase Natal e Elsa (Bárbara Lennie), uma realizadora que fez duas longas-metragens e depois teve que se dedicar à publicidade por não conseguir arranjar financiamento para continuar a rodar filmes, tem uma violenta enxaqueca durante um feriado com ponte, e pede ao namorado, Bonifacio, mais novo do que ela e que é bombeiro e stripper em part-time, que a leve às Urgências. Elsa tem outros problemas. A mãe está num lar e muito mal, uma das suas melhores amigas, Patricia, que tem um filho pequeno, descobriu que o marido, que foi a Paris em trabalho, poderá tê-la enganado lá com outra mulher; e devido à enxaqueca, e a um ataque de pânico que teve a seguir, não deverá poder ir visitar outra amiga, Natalia, uma modelo que há dois anos perdeu o filho num desastre com o automóvel que conduzia, e foi depois refugiar-se na casa da mãe, na aldeia em que nasceu.

Elsa é uma das personagens principais de Natal Amargo, de Pedro Almodóvar. E é também uma ficção, criada pelo alter ego de Almodóvar nesta fita, Raúl Rossetti (Leonardo Sbaraglia), em 2025. Raúl é um realizador consagrado mas que sofre de bloqueio criativo e não fez um filme nos últimos cinco anos. Vive com o namorado, Santi, também mais novo do que ele, e tem muita esperança neste argumento – intitulado Natal Amargo, está claro – que poderá representar o seu regresso em grande à realização. No guião, que tem muito de autobiográfico, Elsa está para Raúl como Bonifacio está para Santi.

Raúl tem uma grande amiga, Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), que é também, e há muitos anos, a sua dedicada assistente pessoal. Mónica pediu-lhe três meses de férias, explicando-lhe mais tarde que tem uma amiga cujo filho está a morrer de cancro e quer ir dar-lhe apoio, tendo assim que cessar a relação profissional que os une. Raúl começa então a ir buscar elementos da vida de Mónica para os integrar na história que está a escrever. Quando esta se apercebe disto, fica furiosa e diz a Raúl que ele não tem o direito de ir vampirizar as vidas daqueles que o rodeiam – e a dela em especial – para alimentar a sua narrativa ficcional, exige que ele elimine do argumento todas as referências a ela, aos seus problemas e às suas amigas, e ameaça-o com um processo, e mesmo com violência. Só que Raúl não tenciona mudar nada na história que está a escrever, muito pelo contrário.

Natal Amargo
DRNatal Amargo

Pedro Almodóvar já tinha lançado mão de autoficção num dos seus filmes anteriores, o excelente Dor e Glória (2019). Nele, o autor de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos e Ata-me! recorda a sua infância ao lado da mãe na Mancha, e os dias de juventude em Madrid, e passa em revista a sua vida e a sua carreira, pondo ainda em evidência os problemas físicos próprios de alguém que está prestes a fazer 70 anos, fazendo-se representar no filme pelo seu velho amigo e cúmplice Antonio Banderas, que dá corpo a um famoso realizador chamado Salvador Mallo, a quem já falta vontade para o trabalho de escrever argumentos e para o esforço de rodar filmes.

Natal Amargo
DRNatal Amargo

Em Natal Amargo, Almodóvar reflecte sobre a legitimidade de construir ficções à base de pessoas reais e das suas vidas, sobretudo quando se corre o risco de as magoar e perder a sua amizade. Quando posto, numa entrevista ao The Guardian, perante o facto do seu alter ego Raúl não ser uma pessoa particularmente agradável, e pensar primeiro que tudo nele e nos seus interesses, e não nos outros, mesmo que lhe sejam queridos e próximos, respondeu: “Tudo o que Mónica diz a Raúl, eu podia facilmente dizer a mim mesmo. É refrescante e divertido podermos ser mauzinhos com nós mesmos”. A autoficção vem assim aqui acompanhada por uma dose de auto-crítica.

E Pedro Almodóvar também não se esquece de espetar uma farpa numa velha inimiga sua, a Netflix. Durante uma conversa numa esplanada em que Raúl procura acalmar Mónica e explicar-lhe porque é que a incluiu no argumento da sua nova fita, ela diz-lhe que, como ele já é um cineasta com estatuto de culto e uma imensa legião de fãs, e os seus dias de glória já ficaram para trás, podia muito simplesmente esquecer Natal Amargo e fazer um filme de ocasião para a Netflix, que ainda por cima já o andou a namorar e paga muito bem. E é agora a vez de Raúl ficar furioso com Mónica. Almodóvar nunca dá ponto sem nó, nem que seja por personagens ficcionais interpostas.

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