Notícias

Nenny: “Queria estudar e ser uma adolescente normal, mas nos intervalos faziam fila para tirar foto comigo”

Após um período de crescimento e afastamento da indústria, Nenny edita o seu disco de estreia, ‘ID’, onde funde R&B, house e funaná, marcando a transição da adolescente prodígio para uma artista sem medo de arriscar.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Nenny
DR | Nenny
Publicidade

Aos 15 anos, quando escreveu bangers como "Sushi" ou "Dona Maria", Marlene Tavares, que conhecemos pelo nome artístico Nenny, dificilmente imaginaria que se se tornaria num autêntico furacão na cena musical portuguesa, com inúmeras faixas virais. No entanto, apesar de estar a explodir nas tabelas, a artista de Vialonga precisou de recuar para poder crescer. Agora, com 23 anos,edita ID, o seu álbum de estreia. A Time Out falou com a autora de "Eu Quero Um Preto" sobre como este trabalho é inspirado pelas suas origens cabo-verdianas e pelas vivências de uma mulher negra numa indústria predominantemente masculina. Nesta entrevista, a cantora explica como foi arriscar naquele que é o seu trabalho mais ambicioso, mas também porque optou por espalhar amor com as suas canções.

Como é que surgiu a ideia para gravar este seu disco de estreia, ID?
Já queria gravar um álbum há algum tempo, mesmo quando lancei o meu primeiro projecto, o EP Aura, em 2020. No entanto, não tive muita pressão para o fazer, uma vez que coincidiu com a pandemia. Aproveitei esse período da melhor forma e, até 2022, vivi uma boa fase. Comecei a fazer concertos e saí da minha primeira editora, a Altafonte, o que me permitiu correr mais riscos e alcançar um novo nível de musicalidade. Quando entrei nesta nova label, a Sony Music, isso permitiu-me viajar para sítios como Los Angeles e Nova Iorque, onde consegui gravar músicas dos mais variados estilos musicais.

Era importante recolher estas novas influências e experiências?
Senti-me saturada daquilo que andava a fazer. As pessoas tinham grandes expectativas para mim, por isso, preferi recuar e afastar-me. Quando surgi na cena, foi de forma natural. Simplesmente, fiz aquilo que queria, mas existiam pessoas a quererem dar-me uma bússola e a dizer o que tinha de fazer. Não era o que eu queria, precisava de ter o meu próprio tempo e navegar até aos meus objectivos. Em 2023, voltei a fazer música a um ritmo natural e, no ano seguinte, foi quando disse: sinto-me pronta, agora quero fazer um álbum, tenho a capacidade e musicalidade em mim para avançar. Demorei dois anos até chegar a este lançamento, mas foi um período muito importante porque consegui, realmente, tocar naquilo que é a identidade da Nenny, através de diferentes géneros musicais, culturas e comunidades. Cheguei a um ponto em que podia dizer: isto é a minha identidade.

Considera que essa pausa entre discos foi boa para si?
Extremamente. Precisava de respirar. Entrei na indústria muito cedo — quando gravei a "Sushi" e "Dona Maria", tinha 15 anos. Quando foram lançadas, já tinha 16. Para não sentir a frustração e pressão de sentir que precisava de alcançar tantas metas, achei que era melhor recuar e viver mais. A Lauryn Hill uma vez disse que, para escrevermos música, precisamos de viver e de ter muitas experiências. Se estivermos constantemente na rotina de estúdio/concertos e se vivermos apenas na nossa bolha, não temos histórias para contar porque não estamos a viver. Por isso, afastei-me, comprei a minha primeira casa, tirei a carta, comprei o meu carro... fiz coisas de adultos [risos].

Estava a furar a bolha que se estava a formar em torno de si.
Sim. Eu era adolescente quando as minhas músicas explodiram, ainda estava na escola. Eu queria estudar e ser uma adolescente normal, mas nos intervalos havia pessoas a fazer em fila para tirar foto comigo. Era fixe, estavam a reconhecer o meu trabalho, mas, às vezes, queria ser apenas uma adolescente normal e simplesmente ser invisível.

É engraçado, quase parece um cenário à Hannah Montana, mas aqui era a cantora a tempo inteiro, nunca tinha tempo para ser a Miley Cyrus.
Era, literalmente, isso [risos].

Algo que me interessou muito nestas novas músicas foi como, apesar de existir uma sensação imediata que estamos perante uma boa e contagiante música pop, à medida que vamos ouvindo mais vezes as canções, descobrimos novas camadas e significados. Era importante, em ID, fazer este statement enquanto artista?
É sem dúvida um statement, especialmente tendo em conta que sou uma mulher negra numa indústria portuguesa que é, na maior parte das vezes, comandada por homens. Queria falar da minha comunidade negra, da minha origem, do que passei e vivi, de uma relação com um parente meu. Portanto, queria mostrar esta Nenny confiante, que sempre foi, mas também mostrar a Nenny mais vulnerável e sair um bocado da caixa que me estavam a tentar colocar. Sim, sou rapper, mas não sou apenas isso.

Que outras multitudes é que existem dentro da Nenny?
Também canto, faço R&B, faço pop e vou fazê-lo porque o ADN da música é preto. O que consideramos, hoje, como música popular está ligado à minha cultura negra, seja proveniente dos Estados Unidos, do continente africano ou das Caraíbas. Portanto, a mensagem que quero passar é que posso fazer qualquer tipo de género musical, sem esquecer que o mais importante é manter a minha essência e identidade.

Algo que me deixou curioso em relação à criação deste disco é: o que surgiu primeiro? A vontade de exprimir todas estas emoções que existiam dentro de si ou a música e os instrumentais?
Foi uma mistura. Muitos dos géneros musicais que existem neste álbum eu já ouvia antes. Por exemplo, o ID é muito inspirado na musicalidade do Kaytranada, que é alguém que eu adoro. Isso deu-me vontade de explorar estilos como o house ou o R&B. Antes de ser artista, sou ouvinte. Eu sabia que existem muitos géneros musicais que se vão encaixar na minha cena, por isso, vou lançar um álbum onde consiga misturar todos estes mundos diferentes.

E como foi esse processo de conciliar tantos estilos diferentes num só disco?
Foi preciso alguma coragem para o lançar porque às vezes existe muito receio de ir contra as tendências. Tentamos seguir o que está a bater. Se está na moda a música afro ou o rap, então é preciso lançar uma série de sons deste estilo até haver um hit. Não quero que pensem que estou a seguir as trends, porque, na verdade, as trends estão sempre cá, mas a minha identidade e essência é única. Por exemplo, a "Eu Quero Um Preto" é uma mistura de R&B e soul, que é algo que não está propriamente na moda. Isto podia ter-nos demovido de a lançar, mas eu acho que ajuda a ilustrar o meu crescimento e aquilo que quero dizer. Através destes diferentes elementos consegues perceber a mensagem que estou a passar, quais são as minhas ideologias, as minhas opiniões, os meus sentimentos e aquilo pelo qual passei. É mostrar o carácter da Nenny com 23 anos, mas mantendo a mesma essência que tinha aos 16.

Existem vários estudos sobre como, nos filmes de Hollywood, existe pouca representatividade de casais afro-descendentes e do amor entre duas pessoas negras, e isto é algo que também se reflecte na cultura portuguesa. Quão importante é ouvirmos músicas como "Eu Quero Um Preto", e sentirmos que existe esta representatividade?
Sim, existe um certo tabu e, nesta música, quis também dar um pouco de amor à minha comunidade negra. Temos várias inseguranças, consequência do racismo e colorismo, que nos levaram a ter este ódio por nós mesmos. De não gostarmos do nosso cabelo, não gostarmos da nossa cor de pele... Houve dias em que chegava a casa e pensava: "Porque é que todos os meus colegas são brancos e eu sou a única preta? Tinha mesmo de me calhar a mim? Porque é que toda a gente tem este tom de pele e eu não?" Via isso como um azar ou uma maldição, mas tive de aprender a ter amor próprio e a gostar de mim, das minhas origens e da minha pele.

Como foi esse processo?
Mesmo quando surgi na música foi engraçado e normal – para gente negra, isto é algo que está sempre a acontecer e está normalizado –, mas tinha vários comentários a dizer: "canta tão bem, pena que é preta". Este ódio fazia com que também tivesse ódio por mim mesma. Isto desportou uns sentimentos em mim – até um pouco adolescentes – que me fizeram pensar (e escrever) que queria "um preto fiel e com talento", mas tentei fazê-lo de forma a que soubessem que também são amados e desejados. Nós, sejamos mulheres ou homens negros, tivemos uma fase em que não gostávamos de como éramos. Não gostávamos da nossa pele, boca ou nariz, porque saíamos de casa e éramos constantemente criticados por, simplesmente, existir. Quando gravei o "Eu Quero Um Preto" não queria criticar ou dar hate, preferi dar amor. Quis escrever uma canção a declarar à minha própria comunidade. Dizer "vocês são amados e desejados". Quis realçar este lado da minha negritude e valorizá-lo ainda mais.

Quando estava a ouvir esta música comecei a pensar: será que alguém magoou a Nenny ao ponto de ela estar a desejar um "homem fiel"? Houve alguma história deste estilo que a inspirou a fazer esta letra?
[Risos.] Já fui magoada e rejeitada por, simplesmente, ser quem sou. Já fui rejeitada por não ser mais clara ou por não ter um certo tipo de padrão de beleza. Há uma parte desta música em que digo: "Eu sei lá se ele existe ou não/ Às vezes eu prefiro continuar só na ilusão, na imaginação/ Porque a realidade é dura e todos os dias sinto rejeição, sem saber quem são", porque a maior parte das mulheres negras tem este medo de ser rejeitada por termos a cor que temos. Sinto que somos sempre a última opção porque nunca fomos o padrão de beleza, nunca fomos consideradas bonitas, nunca fomos valorizadas, mesmo que hoje em dia isso esteja a mudar. Quando analisamos as camadas desta música, conseguimos perceber a minha insegurança enquanto mulher negra na sociedade e é bom falar sobre isto.

E pensa em como essas pessoas que a magoaram desperdiçaram uma oportunidade consigo?
[Risos.] Eles é que ficaram a perder.

Estava a falar de sons e tradições que recuperou para este álbum, como, por exemplo, o funaná. Era importante incorporar estes sons neste grande leque de influências que existem em ID?
Sim, era muito importante porque é a minha origem. A minha mãe estava sempre a dizer que o seu sonho é que fizesse um funaná antes de ela morrer. Eu dizia: "Não, mãe, eu não vou fazer funaná nenhum, não dá" [risos]. Mas com a ajuda da Lura e o Bluay, que fazem parte desse som, "Onde Eu Cresci", consegui encontrar espaço para essa sonoridade.

Como é que eles contribuíram?
O mais importante e bonito nesta música é que, uma vez que nós somos portugueses de origem cabo-verdiana, temos sempre este sentimento de não sabermos onde é que realmente pertencemos. Quando estamos em Portugal, nunca vamos ser considerados portugueses porque não somos de origem portuguesa. Mas quando vamos a Cabo Verde, também não somos considerados 100% cabo-verdianos porque não nascemos nem crescemos lá. Nós somos três artistas que entendemos bem esse sentimento. Da minha parte, cresci em Vialonga, com uma comunidade cabo-verdiana enorme, e mesmo quando fui para a França e Luxemburgo tive sempre a minha comunidade comigo a ajudar-me a perceber as minhas raízes e a manter-me humilde. No entanto, como cresci num meio mais europeu, é como se existisse um certo distanciamento. Esta música fala muito sobre isso e é importante realçar este sentimento agora tendo em conta a realidade política em que nós estamos a viver.

É bom ver e ouvir esta representação cultural de tantas realidades diferentes que existem em Portugal, especialmente numa música que se tem vindo a revelar tão popular.
É importante ter esta diversidade e, em Portugal, conseguirmos ouvir artistas e enaltecer aqueles que também conseguem fazer géneros musicais mais alternativos ou como eu, que consigo fazer algo mais diferente, mas também um pop ou hip hop. Só a valorizar os nossos artistas é que podemos ver a cultura portuguesa a crescer.

E o que podemos esperar para o futuro da Nenny?
Podemos esperar uma Nenny com um novo concerto, com um novo conceito, uma Nenny que dança e canta. Uma Nenny que está mais exposta ao mundo, tanto na realidade como nas redes sociais. Uma Nenny que aposta em si mesma e que acredita nela mesma e que tem muito, muito potencial. Uma Nenny internacional. Uma Nenny que representa a sua cultura, tanto Portugal como Cabo Verde, como sempre fiz.

🎭 Mais cultura: arte, livros, música, teatro e dança em Lisboa

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias
    Publicidade