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Nesta livraria solidária, há livros a partir de 50 cêntimos (e pontilhismo)

Chama-se Espaço Marian, está localizada dentro do 8 Marvila e vende livros doados a preços abaixo do valor de mercado.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Paulo Rego e Marian Soler
Rita Chantre | Paulo Rego e Marian Soler
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Foi dentro do 8 Marvila, numa das cubas de “tijolo burro”, que nasceu o Espaço Marian. Abriu portas em Novembro, mas era um sonho já antigo. A fundadora estava a trabalhar em Madrid, como voluntária numa ONG espanhola, que tem uma livraria solidária na rua Claudio Coello, e teve oportunidade de ver como um livro doado pode de facto fazer a diferença na vida de alguém: as vendas ajudam a financiar projectos humanitários em África, como permitir a miúdos da Guiné-Bissau com cardiopatias graves serem operados em hospitais portugueses. “Pensei que também gostava de fazer a minha parte, por mais pequena que fosse”, diz-nos Marian Soler, que conta com o apoio do sócio, Paulo Rego, para direccionar as verbas para causas que a tocam pessoalmente. À venda, tem livros doados a preços abaixo do valor de mercado, mas também a sua própria arte e peças de artesanato feitas pela mãe.

“Trabalho desde os 17 anos, nas mais diversas áreas, e queria muito ter um negócio próprio. Achei que seria possível – e importante – replicar o conceito em Portugal”, esclarece Marian, que é espanhola mas cresceu em Lisboa, e confessa ter encontrado neste projecto também uma forma de expor e comercializar a sua arte. “Desde os 11 anos que faço quadros em pontilhismo [uma técnica de pintura com pequenos pontos ou manchas de cor em justaposição, em vez de pinceladas tradicionais] e agora gostava de me profissionalizar. Sempre fiz para mim ou para oferecer, e até quis fazer Belas-Artes, mas acabei por ir para Sociologia, que depois não terminei, e entretanto cheguei àquela idade em que parece que nos cai a ficha.” A livraria tem, por isso, também uma vertente de galeria, e a oferta inclui peças de artesanato feitas pela sua mãe, que muitas vezes recicla materiais, como latas e garrafas.

Quanto aos livros, são praticamente todos doados – aceitam-se inclusive exemplares anotados – e muitos até têm ar de estar como novos. O catálogo, rotativo, abrange diversos géneros, desde ficção a livros técnicos, de áreas como filosofia, direito e desporto, por exemplo. “Temos livros a partir de 50 cêntimos. O mais caro que temos – O Cancioneiro Popular Português de Michel Giacometti – custa 55€, porque é raro, já não é fácil de encontrar e nós até estamos a fazer um preço abaixo do que se faz”, garante Marian, que destaca o facto de terem “livros que estão descatalogados”. “Às vezes vêm perguntar-nos por um livro que nós não temos e nós ficamos com o contacto, para o caso de conseguirmos arranjar.” O destaque é, contudo, a narrativa portuguesa, que ocupa oito estantes, com títulos dos mais variados géneros.

Espaço Marian
Rita Chantre

A ideia inicial, desvendam-nos, era abrir uma livraria de bairro. “Convencional”, esclarece Paulo. Mas a experiência em Madrid perseguiu-os até ao fim: “Em Espanha, há muito esta onda, de misturar cultura com gastronomia e vinhos, e a Marian – que já andava à procura desde o Verão passado – de repente falou-me deste espaço [o 8 Marvila, nos antigos armazéns vinícolas Abel Pereira da Fonseca]. Então, um dia, saí do trabalho – sou cozinheiro – e vim cá, e assim que entrei fiquei arrepiado e pensei ‘é isto’, até porque também conheço bem Madrid, aquela movida, aquela filosofia de vida, que identifiquei aqui”, partilha, antes de confessar a vontade de acrescentar uma terceira vertente ao projecto. “Mas tudo a seu tempo”, dirá, sorridente. Por enquanto, estão focados em encontrar as causas certas para apoiar. Mencionam a associação Dom Maior, que apoia crianças e jovens com diversidade funcional e de desenvolvimento.

“Não é possível fazermos tudo ao mesmo tempo, mas queremos muito apoiar associações pequenas, que têm muito mérito e precisam eventualmente de mais ajuda”, reforça Marian, que acredita que o facto de venderem livros a preços acessíveis também poderá ajudar pessoas que gostam de ler mas não têm tanto poder de compra. “Há quem não possa pagar 20€ por um livro, mas pode pagar 10€, e nós temos uma grande variedade, até porque há muitas pessoas que precisam de arranjar espaço nas estantes mas não sabem bem o que fazer aos livros – de repente podem doar sabendo que os livros vão ter uma nova vida e ajudar outros. Nós só não aceitamos manuais escolares e enciclopédias.” Até porque, revelam-nos, estão já sem espaço, uma vez que têm recebido doações todas as semanas. Esperam que assim continue, porque é sinal que a solidariedade está viva e de boa saúde.

Espaço Marian
Rita Chantre

Para o futuro, têm muitas, muitas ideias (quantas a imaginação lhes permite), a começar por eventos culturais, como apresentações de livros – a primeira vai acontecer a 25 de Abril, mas o programa ainda não está totalmente fechado; é ficar atento ao Instagram. “Queremos contribuir para criar um movimento”, desvenda Paulo. “Às vezes vêm cá famílias com crianças e os miúdos começam a tocar nas coisas e os pais pedem logo desculpa, e eu digo ‘não, os livros são para tocar, para sentir a textura, o cheiro, isso é fundamental’. Infelizmente, este país, não sei para onde vai, posso estar enganado, mas as crianças de hoje em dia estão sempre agarradas aos ecrãs. É preciso contrariar isso, e não são só os apoios financeiros, que são precisos, claro, mas mais do que isso. É preciso criar cultura.”

Praça David Leandro da Silva, 8 – Loja 122 (Marvila). Qui-Dom 12.00-20.00

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