Notícias

No novo disco da Mão Verde, canta-se pela natureza e a democracia, contra os preconceitos e a desigualdade

Capicua, Pedro Geraldes, António Serginho e Francisca Cortesão estão de volta com canções para fazer pensar e provocar as melhores perguntas.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Mão Verde
Mariana Vasconcelos | Pedro Geraldes, Capicua, António Serginho e Francisca Cortesão
Publicidade

A história já é conhecida: o projecto Mão Verde nasceu com um convite do São Luiz, e o que era para ser apenas um concerto para crianças virou um projecto eco-musical – primeiro a dois, com Capicua e Pedro Geraldes, depois a quatro, quando à banda se juntou António Serginho e Francisca Cortesão. Mas neste novo disco, o terceiro, o quarteto não só volta a evocar a natureza – da beleza dos animais e das hortas à ameaça da monocultura –, como estende a cantoria à reflexão sobre questões sociais, como as desigualdades, os preconceitos, a crise da habitação, o direito à cidade e a importância da democracia.

“Obviamente que, sendo um terceiro disco-livro, havia muitos temas da ecologia que já tínhamos vindo a explorar e, portanto, pareceu-nos que era preciso variar. Por outro lado, a Mão Verde sempre quis trazer debates para ter em família e em contexto escolar, e o mundo está de facto muito necessitado de mais espaços de debate positivo e de sensibilização, muito diferente nomeadamente daquele que vemos nas redes sociais e na política, que são extremamente polarizadores e cheios de desconfiança”, diz Capicua à Time Out. “Quisemos cultivar o lado solar da relação humana, é esse o nosso contributo.”

Como já é da praxe, esta Mão Verde III inclui dez canções e dois poemas escritos pela rapper portuense, que também lhes dá voz. A música é da Francisca, do Pedro e do António, que tocaram guitarras, baixo, ukulele, teclados, bateria e percussões. A acompanhar o disco, já disponível nas plataformas digitais, há mais uma vez um livro, com ilustrações de Bernardo Carvalho e várias notas informativas que contextualizam as canções. A primeira, “Serpentear”, fala-nos da importância das cidades verdes e amigas das crianças, com menos automóveis em circulação e passeios mais largos.

Mão Verde
DR

“Este tema em particular nasceu a convite de um projecto portuense, que se chama Serpentina, e que está a tentar criar mais parques infantis e mais ruas pedonais verdes”, partilha a artista, que alerta para um relatório europeu que denuncia Lisboa como “uma das cidades menos amigáveis para a circulação de crianças no trajecto casa-escola/escola-casa”. “A maior parte circula em transportes privados e tem pouca oportunidade de viver o espaço urbano como seu”, lamenta. “Neste disco, fala-se muito sobre o direito de nos apropriarmos da cidade, para circular, para estar, para brincar e para defender o património natural.”

Por outro lado, Capicua destaca a forma como, desta vez, também se exploram questões mais sociais. “Jacarandás”, por exemplo, é sobre a importância de nos unirmos, de colaborarmos uns com os outros, tudo por um mundo melhor – que é um mundo mais verde, claro. “Há uma tendência para vivermos em sociedades cada vez mais higienizadas, em que a diversidade é reprimida, em que todos os actos de rebeldia são desaconselhados, e aqui os jacarandás são símbolo do que é vivo na cidade e de como nos temos de organizar e juntarmo-nos não só para defender as árvores, mas tudo o que floresce e é fértil.”

Mão Verde
Ilustração de Bernardo Carvalho

Na verdade, há outra música – “Eucalipto Eucalipto Eucalipto Eucalipto” – que também toca nessa urgência de lutarmos contra as monoculturas. “Porque são perigosas para os ecossistemas. De um ponto de vista natural, mas também humano”, provoca, antes de relembrar que, a par da biodiversidade, é fundamental não deixar que os preconceitos nos limitem na nossa relação com os outros. É, por isso, também que neste Mão Verde III se canta sobre problemáticas como a discriminação, seja ela com base na idade, na capacidade, na imagem ou na sexualidade e identidade de género.

O processo criativo nunca é igual – o segundo disco foi feito no campo, este foi feito na cidade, ao longo de vários encontros –, mas parte sempre do mesmo princípio: não subestimar as crianças. Quem o diz é Capicua, que recusa fazer “música pateta ou simplista, quer do ponto de vista musical ou do conteúdo lírico, das letras”. Prefere, por outro lado, investir numa abordagem “mais solar, dançável, lúdica”. Chama-lhe “o atalho certo” e crê que também desarma os adultos, pelo menos é o que a banda tem sentido nos últimos dois discos, onde também tentaram explorar problemáticas relevantes sem serem moralistas.

“A vida é política e eu encaro o meu trabalho artístico como uma oportunidade e uma responsabilidade de trazer à tona questões que considero importantes e urgentes. Mas, ao mesmo tempo, quando comunicamos para o público infantil, temos de ir pelo viés do humor, da poesia, da música, da narrativa, às vezes da ironia, para que consigamos falar de assuntos sérios sem que eles se tornem pesados ou demasiado complexos, e é esse desafio enquanto criativa que me entusiasma”, confessa. “Nesse sentido, este é um disco bastante experimental; nós na verdade temos desde o início essa tendência de brincar aos estilos de música.”

Mão Verde
DR

As ideias, revela Capicua, vão surgindo entre discos, e começa-se sempre pela música. A letra só é escrita depois e, a partir daí, fazem-se os arranjos e o aperfeiçoamento da estrutura. “Mas sem uma base musical eu de facto não gosto de escrever”, admite. “Como estava a dizer há pouco, para falarmos sobre estes temas mais sérios, gostamos de ir pelo lado lúdico da música, e não sempre, muitas vezes isso leva-nos para o movimento do corpo. Até porque ao vivo, uma das coisas que mais gostamos é ver as pessoas de todas as gerações a dançar como se ninguém estivesse a ver. Há uma dimensão colectiva que gostamos de cultivar.”

A apresentação do Mão Verde III aconteceu no Porto, na Casa da Música, com vídeos de Macedo, Cannatà e Juno. Ainda não há datas para concertos em Lisboa. “A apresentação está programada para acontecer mais no final do ano. Agora vou fazer uma pausa”, adianta Capicua. “Estou grávida outra vez, por acaso”, diz, entre risos, antes de rematar: “e mantenho a minha convicção de que uma das coisas que mais gosto de fazer é mesmo escrever para crianças, precisamente porque ao fazê-lo resgato um bocadinho as razões pelas quais eu me interessei pela escrita e pela música no primeiro momento. E acho que me tem trazido muitas alegrias e muitas aprendizagens.”

Mão Verde III, de Capicua, Pedro Geraldes, António Serginho e Francisca Cortesão. Edição de autor. 64 pp. 22,50€

🛝 Lisboa para miúdos: mais coisas para fazer em família

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias
    Publicidade