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Num antigo armazém de Cabo Ruivo vai nascer o Zabra, centro de arte pós-humana. Antes da inauguração, o colectivo põe Albano Jerónimo a discutir a vida com um modelo de inteligência artificial, no CAM.

Na linha de armazéns da Avenida Infante D. Henrique, artistas e criadores ligados à tecnologia e à ciência vão abrir, no início do ano (ainda não há data definitiva), o Zabra. No centro de investigação de arte pós-humana, investiga-se, recusa-se o pessimismo que envolve robots e inteligências maquinais, procuram-se novas formas de coexistência. Também já houve uma festa de pré-abertura mas ainda falta a inauguração formal. A partir daí, o objectivo é "ter o espaço o mais mutável possível", como diz Lua Carreira, performer e uma das mentoras do projecto, para que lá dentro caibam corpos e ecrãs, cenários e computadores, exposições, performances, instalações e formações. Sempre com tecnologia, tanto na produção como na representação de obras de arte e dos seus efeitos na sociedade.
No Zabra, portanto, não há caixas nem etiquetas, mas "transdisciplinas" e diálogos inter-espécies aos quais mesmo o universo artístico está muitas vezes imune. "Nós vemos a tecnologia como um cooperador e não como uma ferramenta", explica Carincur, que, com João Pedro Fonseca (fundador do festival ZigurFest, em Lamego), completa o trio de artistas residentes e fundadores da estrutura. Assim, se um robot fizer parte do ecossistema de uma peça, também um cabo eléctrico o poderá fazer. E se um coreógrafo estiver numa ponta do armazém a criar, na outra pode estar um engenheiro ou um neurocientista. Pelo meio, prevêem-se aplicações de realidade virtual e aumentada, hardwin, sensores vários, mas também tecnologia antiga como mecanismos de som e luz. "Mas a forma como trabalhamos com a luz é diferente", sublinha Carincur. "No fundo, ela não serve apenas para iluminar, ela faz parte, como um corpo", desenvolve. Já o computador estará quase sempre presente. "Como um dos melhores amigos das nossas criações."
Sejam quais forem os actores, são tudo coisas que levam tempo. "E nós temos esse tempo", nota João Pedro Fonseca. Desde Maio, por exemplo, estão a preparar carne.exe, criação em que um performer humano contracena com um modelo de inteligência artificial, "de criação original", "com capacidades performativas" e treinado com material poético e filosófico. A performance, em parceria com o Teatro Nacional Dona Maria II e apresentada esta sexta-feira, sábado e domingo no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, vai pôr, na prática, Albano Jerónimo e AROA (a máquina) a conversar e a pensar sobre "o toque, a consciência e o futuro da coexistência entre espécies", "sem ceder ao tecno-pessimismo". Entre programadores, cientistas, criativos e um computador de alta performance, o resultado sairá, mas sempre meio em experiência, porque "tudo isto é novo, está a ser feito pela primeira", explica o João Pedro, para quem o Zabra se assume como um espaço de "hacking, de uma pirataria saudável", em que a tecnologia funciona connosco e não contra nós, até porque o ser humano deixou de ser o centro.
"Não é uma escolha nossa, mas uma necessidade para a expansão criativa", diz Lua Carreira, em que há marcadamente um "posicionamento filosófico e político", complementa Carincur. Andamos assustados com o progresso tecnológico, com o que a inteligência artificial pode fazer às nossas vidas? Como quem põe um ponto de ordem à conversa, João Pedro Fonseca lança a pergunta: "O que são uma boa e uma má tecnologia? Perceber isso deve ser mais democrático. É preciso contrariar esta ideia de substituição, que não existe. É claro que vai sempre poder existir o mau uso, mas tem de haver uma forma de resistir e de dizer o quão poética a tecnologia consegue ser." "Queremos ser a geração experimental de algo positivo", resume Lua Carreira.
A história do Zabra (antes a Zabra) não começou agora. Vem de 2018, como editora de música electrónica e independente, com DNA exploratório. Mutante, a editora ainda vive e quer até expandir-se para o universo das publicações. "Passar do ecrã para o papel", ri-se João Pedro Fonseca. Na sua nova vida, com espaço físico, de investigação e criação como âncora – mas também de festa, como se espera que seja a de abertura, com DJ e espaço para mexer o corpo –, a estrutura independente tem várias parcerias em curso, como o Teatro Nacional D. Maria II, a Universidade Lusófona, a NTT Data, a Fundação Champalimaud ou a Moda Lisboa. "Neste primeiro ano vamos investir muito na área da educação, ensinar a trabalhar com o software x ou y, que é algo que não existe muito", explica Carincur. João Pedro Fonseca vai mais longe, ao afirmar que "não existe em Lisboa nenhum espaço onde se possa experimentar a ligação entre arte, tecnologia e ciência". No plano dos espectáculos, já se sabe, vai haver um pouco tudo, e 100 lugares sentados para assistir aos desenvolvimentos. São 600 metros quadrados com vista para a linha de comboio e, pese embora a sombra que paira sobre nós, ninguém está com vontade de se atirar para lá. Pelo menos não antes de dançar e experimentar o suficiente.
Av. Infante Dom Henrique, 332, edifício III (Olivais/Cabo Ruivo)
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