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A nova edição não é um álbum ilustrado: foi pensado para leitores a partir dos sete anos e começa com um assalto.

Joana Estrela já escreveu e já ilustrou muitos livros para a infância, mas este é o primeiro em que o desenho cede o protagonismo à palavra. Pensado para leitores mais crescidos, a partir dos sete anos, O Assalto na Escola!, editado pela Planeta Tangerina, é protagonizado por Rute, uma pequena aspirante a jornalista, que tenta desvendar um mistério com a ajuda dos seus amigos Nora e Diogo. Mas serão capazes? É o que vamos descobrir nesta muito bem-humorada história de detectives, que poderá vir a dar uma série.
“A ideia surgiu a propósito de um curso de escrita, que fiz durante a pandemia. Na altura, fazíamos exercícios todas as semanas e eu comecei a fazê-los todos a partir de uma mesma história, que era mais ou menos esta, e que foi inspirada por acontecimentos reais. A minha escola primária foi assaltada várias vezes”, desvenda-nos a autora, por entre risos. “Lembro-me de nos roubarem os lápis de cor todos, e de chegarmos à sala de aula e o quadro estar tapado. Provavelmente alguém terá escrito palavrões ou assim.”

É precisamente com um assalto e um quadro negro coberto por um lençol que começa esta história. É terça-feira e Rute, a presidente do clube de jornalismo da escola, acaba de chegar. Pelo recreio, espalham-se todo o tipo de boatos e os rapazes já começaram a inventar mentiras para assustar as raparigas. Mas Rute não só é esperta como é desconfiada – e, como qualquer jornalista que se preze, está pronta para resolver o mistério. Afinal, quem é que parte uma janela para depois nem sequer levar “grande coisa”?
“No início não pensei que fosse escrever um romance para crianças, porque não é o que costumo fazer. Ainda pensei que poderia ser uma banda desenhada, mas a verdade é que eu gostava bastante do texto que já tinha, então fui aos poucos trabalhando nele”, conta-nos Joana, antes de confessar que o processo envolveu “outro tipo de disciplina e planeamento”, ao qual não estava particularmente habituada. “Há uma receita para este género de histórias, de mistério e crime, mas é preciso pensar nas pistas, nos suspeitos, nos álibis.”
Em O Assalto na Escola!, o principal suspeito é o Augusto, o faz-tudo de olhos azuis penetrantes, e um cão que o acompanha para todo o lado. Mas, claro, nem tudo o que parece é – e, quem sabe, talvez o seu boné encardido e a atitude macambúzia não queiram dizer nada. Até porque também há razões para desconfiar do Zé Pequeno, o bully da escola com um diário secreto, e da própria directora… “A ideia é que a revelação seja surpreendente, mas não seja tão absurda que o leitor sinta que nunca lá iria chegar. Por isso é que as pistas são tão importantes.”
A guiar-nos temos Rute, mas também os seus amigos. Diogo é um rapaz tímido, mas leal, e Nora – que tem uma irmã gémea – parece sempre pronta para um bom confronto. “Comecei por focar-me muito na Rute, porque é claramente a nossa protagonista, mas com o tempo procurei dar-lhes mais forma. A ambição é que isto venha a ser uma série. Estou a trabalhar no segundo livro desde o último Verão. Vai ser mais centrado na Nora”, revela. “Na verdade, isso até me ajudou a acrescentar a este livro uns pormenores para mais tarde.”
Este não é um álbum ilustrado e os desenhos, a preto e laranja, são apenas apontamentos, mas Joana Estrela – que é, acima de tudo, uma artista visual – prova-nos, mais uma vez, como uma imagem pode valer mais do que mil palavras. É que, se não nos dissesse quem são a Rute, a Nora e o Diogo, é muito provável que a forma como os retrata fosse suficiente para percebermos sozinhos. “Há uma ilustração em que eles estão a comer bolachas e eu pensei mesmo ‘ok, como é que eles comem bolachas?’, porque a maneira de cada um diz qualquer coisa sobre a sua personalidade.” Como Rute, que é curiosa e observadora e sabe que “atirar o barro à parede” é uma técnica do jornalismo de investigação.
Foi um desafio e pêras. Quem o diz é a própria autora, que começou por ir “escrevendo textos soltos”. “Não estava a funcionar e tive que escrever a história sem escrever a história. Basicamente tinha uma sinopse muito completa, mas ainda não era o livro. Era só ‘eles vão aqui e depois falam com ela e depois dizem-lhes isto e a seguir eles fazem aquilo’. Só a partir daí é que fui escrevendo de facto os diferentes capítulos. Foi uma experiência muito diferente da que costumo ter”, admite. “Tive muitas dúvidas, e demorei muitos anos.”
A sua grande motivação, partilha, foi um grupo de escrita. Ou melhor, vários. “Foi por causa desses encontros que consegui chegar ao final”, desvenda. Conversamos à distância – Joana está a viver na Bélgica –, mas conseguimos imaginar-lhe a satisfação no rosto. Até porque o que não lhe falta é entusiasmo na voz. “Sinto que consegui criar um mundo. Que os leitores se vão relacionar com a escola a cair aos pedaços, e os problemas dos personagens, que vão surgindo pelo meio. No próximo livro também há um mistério, mas a história é muito mais focada na relação entre irmãs. Se tudo correr bem, depois escrevo um sobre o Diogo. A ideia é ser uma trilogia.”
O Assalto na Escola!, de Joana Estrela. Planeta Tangerina. 96 páginas. 17,50€
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